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País-Brasil ou Nação-Brasil?

O pensamento social brasileiro colaborou para criar uma miragem

Por João Cezar de Castro Rocha 15 dez 2017, 06h00

• O pensamento social brasileiro constitui uma respeitável tradição de ensaios sobre a formação do Brasil e a identificação do caráter nacional.

• Em Hino Nacional, Carlos Drummond de Andrade evocou ironicamente a vocação ufanista: “Precisamos louvar o Brasil! / Não é só um país sem igual. / Nossas revoluções são bem maiores / do que quaisquer outras; nossos erros também. / E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões… / os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas”.

• Caprichosa, a tradição do pensamento social brasileiro nunca negligencia o termo-chave. Em 1914, ano da eclosão da I Guerra Mundial, Alberto Torres encontrou sua frente de batalha na escrita de O Problema Nacional Brasileiro. Paulo Prado, em 1928, fotografou na tristeza luxuriosa o Retrato do Brasil; em 1936, Sérgio Buarque de Holanda pesquisou as Raízes do Brasil para desencavar o homem cordial.

• Millôr Fernandes reduziu o ensaísmo nacional a uma série de tautologias que flertam inocentemente com a banalidade: “O Brasil é um país maior do que os menores e menor do que os maiores”. Depois de uma sequência de matar de inveja o Conselheiro Acácio, o grande final: “É, enfim, o país do futuro, sendo que este se aproxima a cada dia que passa”.

• Caio Prado Júnior superou a todos na monomania: em 1933, lançou a primeira análise marxista da Evolução Política do Brasil; em 1942, publicou sua obra mais reconhecida, Formação do Brasil Contemporâneo; três anos depois, retornou ao samba de uma nota só com História Econômica do Brasil.

• Nesta terra, palmares se convertem em palmeiras para ocultar a violência de sua história.

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• Em 1959, Antonio Candido rematou a tradição com sua obra-prima, Formação da Literatura Brasileira. O subtítulo — Momentos Decisivos — referia-se aos instantes históricos nos quais os autores e os leitores sublinham seu pertencimento ao mesmo universo de ideias e aspirações.

• O poeta sempre reinventa a lição das coisas. No final de seu poema, Drummond inverte subitamente a equação: “O Brasil não nos quer! Está farto de nós! / Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil. / Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?”.

• O pensamento social brasileiro involuntariamente colaborou para criar uma miragem: o Brasil e seu retrato, suas raízes, seus problemas e, sobretudo, suas inúmeras formações que teimam em não chegar a termo. Por que não ousar um ensaísmo que assinale o fosso entre o País-Brasil, exitoso e quatrocentão, e a Nação-Brasil, que só poderá vir a ser quando um projeto de educação pública se tornar universal? Somente então os brasileiros do poema de Drummond terão existência.

• Até esse dia, o Judiciário seguirá erigindo puxadinhos jurídicos a fim de inflar os próprios salários; o Executivo continuará negociando cargos; o Legislativo permanecerá usufruindo de benesses obscenas que, salvo engano, partido algum recusa.

• Um Brasil é um Brasil é um Brasil…

Publicado em VEJA de 20 de dezembro de 2017, edição nº 2561

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