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O risco do populismo

Professor Jan-Werner Müller diz que a ameaça populista tem sido menosprezada e que suas presas mais fáceis não são os desvalidos

Por Ana Clara Costa - 8 Jun 2018, 06h00

Entre os muitos clichês em torno do populismo está o de que os apoiadores dessa forma de fazer política são mais pobres e menos racionais que outros eleitores. Para o alemão Jan-Werner Müller, professor de ciências políticas da Universidade Princeton, tais conceitos são não apenas falsos, como servem para anabolizar uma prática que, por recusar o pluralismo de ideias, representa uma ameaça real à democracia. Müller analisou a chegada ao poder de políticos como Hugo Chávez, Recep Erdogan e Donald Trump. Em comum, disse a VEJA, os três exercitaram a retórica da unificação popular, enquanto, paradoxalmente, se mostraram determinados a excluir os que não compartilham de sua visão de mundo.

O senhor afirmou que nenhum populista chega ao poder sem o apoio de uma elite conservadora. Isso significa que o peso das camadas populares nesse processo é menor do que se imagina? O que eu quis dizer é que, ainda que haja forte adesão popular a esse discurso, a história recente, especialmente na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, mostra que parte do establishment tem uma participação importante na aprovação de um pleito ou na condução de um populista ao poder. No caso do Brexit e da eleição de Donald Trump, isso é muito patente. Michael Gove, secretário de Meio Ambiente do Reino Unido, foi um dos articuladores do Brexit e integra a elite intelectual do Partido Conservador. Não era um outsider a dizer loucuras — era alguém “de dentro”. Já Trump se elegeu por um partido do establishment, com apoio de nomes importantes, como Rudy Giuliani e Newt Gingrich, esse último, professor universitário e membro atuante de uma elite intelectual. O populismo não pode ser tratado como um fenômeno isolado e irracional dentro de uma sociedade. Ele existe porque pessoas muito influentes se beneficiam dele política e economicamente, sobretudo economicamente.

Isso ajudaria a explicar, por exemplo, por que num país como a Áustria, com alto nível de renda e desenvolvimento, o populismo obteve uma vitória tão expressiva na eleição parlamentar? As explicações para o populismo nunca são muito simples. A história de um país e seu contexto nacional têm grande peso. No caso da Áustria, o Partido da Liberdade tornou­-se relevante nos anos 1980. Não apareceu do nada, por causa do fluxo de refugiados. Ele se tornou um partido populista forte principalmente porque a Áustria vinha sendo governada pelas mesmas grandes coalizões por um longo período, durante todo o pós­-guerra. A sigla cresceu como contraponto a essas coalizões centristas. E é sempre muito fácil criticar grandes coalizões políticas e encontrar eco entre a população.

Então é possível dizer que o populismo é um movimento cíclico que se fortalece após grandes períodos governados por coalizões? Talvez o melhor termo seja ocasional, não cíclico. O populismo aparece como uma contingência — quando determinado grupo político, que possui uma liderança, está insatisfeito com o status quo e prega ser o único motor com legitimidade para representar o povo em um novo governo. É característico do líder populista pregar a unificação popular, quando, na realidade, quem não compartilhar de sua visão de mundo será excluído, no sentido de não ser representado por seu governo. Na prática, o líder populista divide, mas o discurso é invariavelmente de unificação. Trump fez uma campanha com esse tom. Erdogan e Chávez tinham a mesma retórica. Também é interessante notar que o populista, apesar de prometer representar o povo, não necessariamente diz que faz parte do povo. Ajuda, aliás, na narrativa do populismo o argumento de que o candidato é tão rico que não “precisa” ser corrupto, e de que vai governar o país como se governa uma empresa. Silvio Berlusconi fez isso na Itália nos anos 1990: prontificou-se a ser o empresário que “limparia a sujeira”.

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“O discurso do populista é sempre de unificação, mas quem não concordar com sua visão de mundo será excluído. Trump fez campanha nesse tom. Erdogan e Chávez usaram a mesma retórica”

As redes sociais tiveram influência no fortalecimento do populismo? Sim, porque permitem um link direto entre o populista e os cidadãos, sem poderes intermediários, sem a imprensa. Ao dispor de ferramentas de comunicação direta, o populista passa a crer que a mediação é distorção. E transmite essa mensagem aos seus apoiadores. Em outro aspecto, o populista tem a possibilidade de, via redes sociais, modular o discurso para falar diretamente àqueles que lhe interessam, dizer exatamente o que esses indivíduos querem ouvir. Trump fez isso com maestria ao usar o Twitter para escantear a imprensa profissional e criar essa impressão de conexão direta com seus eleitores. Antes, era preciso ir a uma convenção partidária para ter uma experiência parecida. Hoje, o contato se dá 24 horas por dia. Essa ressonância ininterrupta é a grande novidade do nosso tempo.

Como se desmonta um discurso populista? Primeiro, é preciso abandonar os clichês sobre o populismo, que são muitos e equivocados. Depois, é necessário deixar de menosprezar os partidos populistas. Falamos dos “eleitores dos candidatos populistas” como se eles tivessem todos o mesmo perfil. Cremos saber o que eles sentem, o que pensam, e também acreditamos que são dominados pela emoção na hora do voto. Ocorre que tais convicções são velhas. São clichês da psicologia de massas do século XIX, que prega que estas são “irracionais” e que, por isso, se deixam levar por demagogos. Trata-se de uma tese ultrapassada. Um exemplo é a questão da imigração. Em uma democracia, há pessoas com posição clara e racional: “Não queremos muitos imigrantes em nosso país”. Partindo apenas dessa afirmação, não há evidências para concluir que todas as pessoas que pensam dessa forma são irracionais ou, por exemplo, contra gays ou qualquer outra minoria. Isso não é verdade. Há muita racionalidade na raiva e na insatisfação com o status quo. Quando se põem todos no mesmo saco, favorece­-se o discurso populista, que, via de regra, tem um tom de antipluralismo. Os críticos da imigração podem não ser necessariamente homofóbicos ou misóginos, mas são empurrados a aderir ao candidato populista por se se sentirem excluídos de outros círculos. Em última instância, o populismo é um movimento que rechaça a diversidade de ideias, que é um componente forte de uma sociedade democrática. Combatê-lo com mais intolerância não resolverá o problema. Só vai agravá-lo.

Há alguma diferença entre o populismo de esquerda e o de direita? Não. O que os diferencia são as razões que fizeram o líder populista chegar até ali. Em especial na América do Sul, tende-se a classificar o populismo como um movimento estático, quando, na verdade, ele é muito dinâmico, e por isso tomou o caminho da esquerda em determinados países. A Venezuela, por exemplo, não era um paraíso na terra quando Hugo Chávez surgiu. Havia espaço na sociedade venezuelana para o surgimento de um líder com discurso socialista. Na Turquia de Erdogan, o fenômeno é parecido. O país não era um modelo global de liberdade antes de ele ascender e restringi-la ainda mais.

O que mudou no discurso dos populistas do século XXI em relação àqueles do passado? A grande diferença é a presença de uma narrativa que antes não existia, a da abertura — e não só a econômica. Hoje, num país, há aqueles que advogam pelas minorias étnicas, religiosas e sexuais. E há aqueles que querem restringir essa abertura. Esse conflito facilita o surgimento de populistas, já que eles rapidamente captam que a grande questão é quem pertence e quem não pertence a tal grupo. Se os grandes conflitos fossem apenas sobre aquecimento global, bioé­tica ou aborto, populistas não teriam tanto espaço para crescer.

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A aversão aos políticos é um combustível para o populismo? É combustível para votos de protesto ao status quo. Mas nem todo partido de protesto, como os movimentos que surgiram na Europa nos últimos anos, se torna necessariamente populista. Na Espanha, o Podemos e o Ciudadanos canalizaram bem a insatisfação dos espanhóis, e não há evidência de que sejam populistas. Partidos de protesto são saudáveis para a democracia.

Por que o discurso populista sempre é nacionalista? Já que todos os populistas dizem ter o monopólio da representatividade popular, é preciso que consigam preencher esse discurso com argumentos. Em geral, apontam o dedo para um determinado grupo dizendo que esse grupo não pode representar o povo porque é corrupto ou inadequado. E a retórica do nacionalismo é, em muitos casos, conveniente para justificar a razão de eles serem os únicos legítimos para essa tarefa. Uma retórica frequente é: “Eu amo o meu país, por isso não sou corrupto. ‘Eles’ não amam”. Esse discurso contrapõe diretamente o nacionalismo à corrupção. Mas é importante notar que ele é usado conforme a necessidade. Chávez, quando ascendeu ao poder, não defendia prioritariamente o nacionalismo. Apoiá-lo implicava necessariamente ser a favor do socialismo no século XXI.

Alguns cientistas políticos e historiadores relacionam o aumento da desigualdade ao surgimento do populismo. O senhor concorda com isso? A desigualdade é um problema mundial. Mas não há evidência científica de uma relação direta entre renda e populismo. O que existe, com alguma plausibilidade acadêmica, é o conceito de que a “ansiedade por status” leva ao populismo. Ansiedade por status é a expressão que define a angústia que um indivíduo sente em sua busca incessante por status, seja ele econômico, cultural, social ou profissional. E isso não tem nada a ver com renda. Curiosamente, o discurso populista encontra mais eco entre aqueles que sentem que estão sendo, de certa forma, roubados do que entre a população economicamente desfavorecida. Quem vive em situação materialmente precária tende a aderir a promessas assistencialistas, e nem sempre o assistencialismo é populista. Há muitas evidências para afirmarmos que o populismo atrai aquele indivíduo que acha que o país está caminhando de uma forma que prejudica suas aspirações e as expectativas futuras de seus filhos, e que o grupo no poder “rouba” aquilo que ele hipoteticamente poderia alcançar. Quem se prontifica a impedir esse “roubo” tem chance de conquistar essa fatia da sociedade.

Publicado em VEJA de 13 de junho de 2018, edição nº 2586

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