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Nossa Senhora do Algoritmo

A revolução da inteligência artificial chegou às telas. Isso é bom?

O financiamento do cinema independente foi perdendo fôlego depois da última crise financeira americana. Ela fez retrair o investimento de risco. As apostas passaram a buscar sobretudo segurança, o que significou um boom de filmes de heróis de quadrinhos. Nada contra o tema, são filmes bem legais, mas, com isso, ir aos cinemas de shoppings virou uma coisa meio parecida a ir a um restaurante de um prato só. Filmes independentes, em geral, são aqueles feitos por produtores (Pulp Fiction, Encontros e Desencontros, Relatos Selvagens). O cenário mudou positivamente com a mais recente revolução tecnológica: as plataformas digitais sob demanda (VOD).

Cada vez mais pessoas estão dispostas a assistir a uma série de uma vez só, e cada vez menos estão dispostas a ver um filme que não seja curto. Parte da explicação para isso está no uso disseminado dos algoritmos. Da mesma forma que quando se compra um livro pela internet a inteligência artificial acerta em recomendar mais títulos que você deve querer (baseada em dados coletados de vários usuários e modelos estatísticos), o algoritmo do VOD consegue acertar. Como visa a aumentar o lucro das empresas, ele é calibrado para oferecer algo irresistível e conectar o consumidor cada vez mais.

Apesar de a novidade ter trazido uma onda de novos financiamentos para o setor, em geral a prioridade dos investidores é o sofá, e não a sala de cinema. Em que pese esse novo fôlego financeiro (num mercado que é nutrido de incentivos quase no mundo inteiro, dos Estados Unidos ao Brasil), a situação atual também carrega um alerta.

Além de os dados sobre audiência frequentemente estarem numa caixa-­preta, o cinema corre o risco de ficar sob a pressão de uma ferramenta de inteligência artificial. E isso nem sempre será bom para o setor. Belos filmes não são necessariamente os que suscitam emoções positivas — podem até mesmo provocar tristeza, uma depressão momentânea, ou emoções inexplicáveis, como em Cinema Paradiso.

Das cavernas às cores de Van Gogh, a angústia da existência humana encontrou na arte seu antídoto. A pergunta é: será que a inteligência artificial é tão inteligente assim? Obras como Mona Lisa e Vênus de Milo ou filmes como Cidade de Deus seriam gerados por uma lógica numérica?

Lembro do filme Sociedade dos Poetas Mortos, em que um professor pedia a um aluno que lesse em voz alta as páginas de um livro em que um ph.D. em poesia atribuía notas aos poemas nos quesitos perfeição e importância. Cada nota era marcada num eixo diferente de um gráfico e o “valor” do poema se dava pelo preenchimento da área. Em seguida, o professor disse a todos que rasgassem aquelas páginas cheias de bobagem escritas pelo ph.D. Obviamente, não defendo a volta à Idade da Pedra Lascada, e, é claro, toda diversificação é bem­-vinda. Mas, em tempos em que o Brasil está definindo sua política para VOD, não custa lembrar que tecnologia é boa notícia quando ela está a nosso serviço, e não nós a serviço dela.

Publicado em VEJA de 1º de agosto de 2018, edição nº 2593