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“Não será à força”

O presidente do BC refuta a ideia de obrigar os bancos a baixar os juros na mesma proporção da taxa Selic e diz que há espaço para nova redução

Por Fabiana Futema 16 mar 2018, 06h00

DEPOIS DA DIETA, a manutenção do peso. É com esse paralelo que o economista Ilan Goldfajn descreve a batalha dos juros, cuja taxa básica, a chamada Selic, vem caindo desde que ele assumiu a presidência do Banco Central. Em junho de 2016, quando Goldfajn tomou posse, a taxa estava em 14,25% ao ano, rivalizando com as maiores do mundo. No mês passado, bateu em 6,75%, a menor da história. Na quarta-feira 21, será anunciado o novo índice. É possível que haja mais uma queda? A depender da análise dos dados econômicos, sim. Afinal, a inflação mais baixa que o esperado joga nessa direção. Não há perspectiva, porém, de que o alívio nos juros seja repassado pelos bancos aos seus correntistas, pois não existem planos de uma redução compulsória. O mercado agirá a seu tempo. Goldfajn considera que a competição com as startups financeiras deve favorecer os clientes. A seguir, sua entrevista.

Por que os juros bancários não caem na mesma proporção que a Selic? A taxa básica caiu para seu mínimo histórico, um patamar que nunca tivemos. Se ficar assim por muito tempo, provavelmente vai haver uma revolução no mercado financeiro, não só com a diminuição das taxas bancárias mas na forma como se faz negócio no Brasil.

Não é possível cobrar dos bancos que repassem essa redução dos juros para os clientes? A gente sempre conversa, mas a ideia do voluntarismo, de derrubar à força, não dá certo. Isso já foi tentado uns anos atrás. Uma parte da crise que enfrentamos hoje, na qual os juros foram lá para cima, foi um pouco pela tentativa de fazer meio na marra. Não podemos cair nessa tentação de resolver tudo para amanhã, pois os problemas são de décadas.

É possível definir prazos para que essa queda se inicie? Não, porque se trata de algo que depende de medidas que ainda estão em andamento: a inadimplência, por exemplo, precisa cair. Temos agora uma democratização da informação, que é a ampliação do cadastro positivo de crédito (referência a uma lista de bons pagadores). O projeto já passou no Senado e está na Câmara. Estamos regulando todas as fintechs (nome que se dá às startups da área financeira), e isso vai aumentar a concorrência. Também aprovamos a portabilidade das contas-salário, que permite ao cliente solicitar a transferência no banco de destino, não mais no de origem, o que torna tudo mais fácil.

O mercado já espera uma nova redução da taxa básica de juros. Há espaço para mais cortes? Na última reunião do Conselho de Política Monetária, o Copom, avaliamos que, caso o cenário básico sobre o qual o BC trabalha evoluísse conforme esperado, o mais adequado seria interromper o processo de queda de juros. Mas dissemos também que essa visão poderia se alterar e levar a uma queda adicional. Vamos aguardar para analisar e decidir na próxima reunião. O que posso dizer é que a inflação do começo do ano (0,61% no primeiro bimestre) surpreendeu para baixo a maioria dos analistas e também o Banco Central.

Com tantos adiamentos, a reforma da Previdência já virou assunto para o próximo governo? É um assunto de todos os governos — deste, do próximo, até que seja aprovada, porque nossas despesas não podem crescer como nos últimos dez anos. Quando elas chegam a esse nível, a solução é ter mais imposto ou mais dívida ou mais inflação. Temos de romper com isso. A reforma da Previdência é muito importante para a política monetária, faz com que as contas públicas sejam sustentáveis ao longo do tempo.

“De fato, nosso custo no débito é maior do que no resto do mundo. Aliás, é uma questão mais geral: quase tudo no Brasil é mais caro, não estamos falando só do sistema financeiro”

O senhor substituiria o ministro Henrique Meirelles na Fazenda caso ele seja candidato à Presidência? Estou muito bem aqui e tenho uma tarefa não concluída ainda, que pretendo continuar. A questão da candidatura do ministro é um assunto dele e do seu partido.

Quando sua tarefa vai estar concluída? Costumo usar uma analogia: entramos em uma dieta e conseguimos perder um peso relevante. A inflação estava em quase 11% e hoje fica em 3%. O mais difícil agora está pela frente: manter essa inflação mais baixa.

O senhor avalia que a inflação chegou a um patamar perigosamente baixo? Não, acho que caiu no ano passado por várias questões, mas também houve um acaso: os alimentos tiveram deflação de 5%. Isso não costuma acontecer. Acredito que ao longo deste ano ela vai devagarzinho voltar para a meta, não para níveis muito altos.

Por que muitos brasileiros se queixam de que, apesar dos índices oficiais, não sentem a queda dos preços? O que aconteceu é que a inflação subiu muito no passado e agora vem caindo. Leva certo tempo para as pessoas perceberem que os preços nos supermercados não estão subindo muito, pois a experiência que se tem é que antes eles aumentavam bastante. Inflação baixa não é queda de preço, é ele deixar de subir. E isso o consumidor vai perceber ao longo do tempo.

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Há muita crítica sobre o preço dos combustíveis. Nomes do governo já disseram que a Petrobras poderia mudar sua política de preços. Como solucionar esse impasse sem interferir no mercado? O Brasil já errou muito no passado tentando controlar ou até mesmo congelar preços. Não podemos repetir esses erros. A gasolina subiu porque o preço estava congelado, com graves prejuízos para a Petrobras, e naturalmente teve de ser liberado. A intervenção do governo tende a causar distorções que, no final, sempre acabam por prejudicar o consumidor.

O senhor já disse que a população precisa saber que existe um custo para as compras parceladas no cartão de crédito. A ideia é acabar com o parcelamento sem juros? Não vamos acabar com o parcelamento sem juros. O mais importante é que todo mundo saiba, de forma bem transparente, que infelizmente não há nada sem juros neste mundo, ainda mais no Brasil, onde eles são altos. Acreditar que alguma coisa não tem juros é acreditar que ela não tem custo. O juro existe e aparece nas taxas do cartão de crédito, que são altíssimas. No fim, um está pagando pelo custo do outro.

“O bitcoin é muito volátil. A população precisa saber que não existe lastro de nenhum banco central no mundo. Isso não significa que vamos regular as criptomoedas no curto prazo”

Por que as taxas médias de cartão de crédito continuam tão altas mesmo após a mudança de regra que limita o uso do rotativo (pagamento parcial da fatura) a apenas um mês? A chamada taxa do “rotativo regular”, aquele no qual o cliente pode pagar apenas 15% do valor da fatura, caiu (a queda foi de 431%, em março de 2017, para 241%, em janeiro deste ano). Não é pouco, mas não é porque diminuiu pela metade que acabou. Continuamos trabalhando para reduzi-la ainda mais. Existe outro esforço para reduzir as taxas do cartão de débito. Se ele for utilizado de forma mais maciça, vai ter menos custo para o varejo. O lojista reclama, e de fato nosso custo no débito é maior do que no resto do mundo. Quase tudo no Brasil é mais caro, não apenas o sistema financeiro. O Brasil é muito caro porque é muito ineficiente.

O senhor defende a redução das transações com dinheiro em espécie? A gente quer diminuir, sabe por quê? Porque o Brasil tem um custo de segurança e de transporte elevado quando se trata de papel-moeda. O valor de proteção das pessoas, das agências, do transporte. Vivemos em uma sociedade em que o papel-moeda acaba sendo algo arriscado. Então, se a gente conseguir que todo mundo use mais débito e transferência bancária, isso pode ajudar um pouco. Há um segundo problema relacionado ao dinheiro de papel, que é a lavagem de dinheiro.

Por falar em ilicitudes, o BC já fez um alerta sobre o risco do bitcoin. O plano é regular as criptomoedas? Uma coisa é a tecnologia, outra é a moeda. O blockchain (a tecnologia que valida as transações em bitcoin) não requer anonimato. O mundo poderia usar esse sistema sabendo exatamente quem comprou de quem. O anonimato quase não existe no sistema bancário oficial. Então, acaba-se tentando achar outros subterfúgios para fazer atividades ilícitas. Por isso, o BC fez um alerta: se você cometer alguma irregularidade, não importa se através de uma moeda regular ou de criptomoeda, vai ser penalizado. Da mesma forma lembramos que o bitcoin é muito volátil. Há a preocupação de que a população saiba que não existe lastro do BC nem de nenhum banco central do mundo. Isso não significa que vamos regular as criptomoedas no curto prazo.

Como resolver a questão dos apadrinhamentos políticos para cargos de dirigentes de bancos públicos, como a Caixa e o Banco do Brasil? Há uma lei que transfere ao BC a aprovação de todos os dirigentes de bancos privados. Acho que poderia haver uma mudança para que isso também se aplicasse às instituições públicas. Temos de tratar essas instituições com o mesmo rigor e as mesmas medidas. Isso faz o sistema ser eficiente.

Romero Jucá (MDB-RR), líder do governo no Senado, defende não só a autonomia do BC, mas o duplo mandato — no qual, além da meta de inflação, o órgão perseguiria o crescimento econômico. Como vê essas propostas? Tenho dito que o BC já possui autonomia de fato. E que gostaria de pôr na lei um mandato fixo para o presidente e também para os diretores. Isso reduz o risco em mudanças de governo. Crescimento é um objetivo comum. O BC, quando consegue baixar a inflação e reduzir os juros, está gerando como consequência crescimento econômico.

O duplo mandato não funcionaria no Brasil? Acho que não funciona em nenhum lugar do mundo, mesmo no Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA). O que se entendeu no Brasil como suposto mandato duplo é que primeiro se cuida de inflação e depois do outro objetivo. O que não pode existir são objetivos conflitantes. Tem de haver uma meta principal e a outra como consequência desse objetivo.

Como a sobretaxa americana imposta à importação de aço e alumínio, anunciada pelo presidente Donald Trump, pode afetar a retomada do crescimento do Brasil? Essa medida será prejudicial ao Brasil e a todo o mundo, inclusive aos Estados Unidos. Mas a economia brasileira está em processo de recuperação e os analistas estão prevendo que o PIB vai crescer cerca de 3% neste ano. O cenário internacional segue positivo. Temos basicamente o mundo todo crescendo — o Japão, a Europa, a China e os EUA. Isso é bom para o Brasil.

A volatilidade que o mercado pode enxergar em alguns presidenciáveis oferece risco às projeções de crescimento econômico para este ano? Uma coisa boa a oferecer à sociedade é uma instituição financeira não envolvida em política. Se falar sobre esse ou aquele candidato, vou sair do objetivo de oferecer uma instituição neutra. De certa forma, o BC quer ser uma instituição de todo mundo.

Publicado em VEJA de 21 de março de 2018, edição nº 2574

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