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Manda nudes!

A nudez, antes algo pós-encontro, virou condição para ele ocorrer

Por Fernando Grostein Andrade 24 ago 2018, 07h00

Estreia nesta semana o filme Ferrugem, que brilhou no último Festival de Sundance, nos Estados Unidos. Quem assina a direção é Aly Muritiba, pai de adolescente, ex-professor de história e ex-agente penitenciário que virou um dos grandes novos nomes do cinema brasileiro. Esses ingredientes credenciaram Aly a explorar a relação entre os adolescentes e o sexo pelo celular, contada através da história do vazamento de um vídeo íntimo que desgraça a vida de uma jovem.

Como quase tudo em nossa volta, a sexualidade foi transformada pelas redes sociais — para o mal e para o bem. Se, antes, para conhecer um amor era necessário ir de baladas ao baile da saudade, hoje é possível encontrar sua alma gêmea pela internet com maior rapidez e acerto (digo isso com autoridade no assunto, porque conheci meu namorado no Tinder e sou extremamente grato ao aplicativo). O desafio está nas consequências indesejadas dessa explosão de possibilidades: em Los Angeles, por exemplo, autoridades tiveram de espalhar cartazes alertando para os surtos de doenças sexualmente transmissíveis. Afinal, como muita coisa boa na vida, sexo pode viciar e fazer com que entremos em terrenos obscuros.

Se antigamente a nudez era uma etapa posterior aos encontros, hoje se tornou, em muitos casos, uma condição para que eles ocorram. É o famoso “manda nudes”. Aplicativos que enviam imagens que se apagam depois de alguns instantes viraram febre, em especial entre os adolescentes, justamente por permitir aquela baixadinha rápida na roupa no mundo virtual. Já nos aplicativos em que as imagens enviadas não se apagam rapidamente, o calor de um momento às vezes vira pesadelo. Ou até pior. Há casos em que aquele registro íntimo de um encontro a dois acaba virando arma de revanche, chantagem ou vexação pública, como ocorre com a personagem de Ferrugem — um dos tipos de vídeo mais procurados em sites pornográficos é a chamada revenge porn, ou pornografia de vingança, quando um parceiro revoltado com o fim de uma relação, por exemplo, decide publicar aquilo que antes era íntimo.

O potencial devastador se dá não apenas pela vergonha natural, mas também pelo hiato que existe entre a moral pública e os cantos escuros da intimidade. Não por acaso, tem sido cada vez mais comum flagrar em maus lençóis políticos conservadores e severos nos costumes. São incontáveis os escândalos em que um político homofóbico é flagrado em uma relação gay extraconjugal, por exemplo.

A relação entre a pulsão do ódio e o desejo é interessante e reveladora. O Brasil é um dos países que mais agridem e matam transexuais, mas no ranking dos sites pornográficos é o que mais registra procura por vídeos de transexuais. Informações como essa sempre aguçaram a minha desconfiança sobre os autoproclamados cidadãos de bem. Não consigo entender como nos EUA, apesar de o puritanismo estar na raiz da constituição da sociedade, o affair de um político (assunto de interesse exclusivo dos envolvidos) pode causar mais espanto que uma declaração de guerra baseada em mentiras.

Publicado em VEJA de 29 de agosto de 2018, edição nº 2597

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