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Deus da comédia

Sob o comando do neozelandês Taika Waititi, a série 'Thor' afinal encontra o seu Valhalla: um paraíso feito de ação épica e diversão ininterrupta

Pendurado por uma corrente, Thor (Chris Hemsworth) a toda hora tem de pedir licença ao demônio de lava incandescente com quem está trocando bravatas: a cada giro, a corrente o põe de costas, interrompendo rudemente a conversa. Thor é um deus, mas isso não o exime dos bons modos, ora. Taika Waititi, o diretor neozelandês que ganhou o comando de Thor: Ragnarok (Estados Unidos, 2017; já em cartaz no país) com base em um punhado de trabalhos de orçamento modestíssimo, é um especialista em garimpar ouro cômico dos desconfortos da interação social (seu filme mais conhecido até aqui, O que Fazemos nas Sombras, sobre três vampiros que dividem o aluguel, é um tratado sobre o tema). Waititi, que nasceu em 1975, é também amigo de infância das aventuras espalhafatosas dos anos 70 e 80 — Conan, Predador, Flash Gordon, Superman. Juntem-se as duas coisas a uma concepção livre e surpreendentemente épica da ação, e afinal a série Thor se torna aquilo que, desde o seu início, em 2011, ela clamava por ser: uma comédia do absurdo, feita com uma alegria e um desimpedimento que rivalizam com os de Deadpool (menos os palavrões).

Tudo o que Thor quer é voltar para casa. Mas, como uma espécie de Ulisses desastrado, ele se vê sempre mais longe dela. Tendo escapado do demônio que deseja infligir ao lar mítico de Asgard o fim dos dias viking — o Ragnarok —, Thor encontra a casa em desordem: seu irmão trapaceiro, Loki (Tom Hiddleston), anda se fazendo passar pelo pai deles, o deus supremo Odin (Anthony Hopkins), e só quer saber de festa. O desleixo de Loki abre a porta para o retorno de Hela (Cate Blanchett), a deusa da morte (morte de preferência indiscriminada e em grande quantidade). Thor vai parar num planeta que é o ferro-velho cósmico; é capturado por uma valquíria beberrona (Tessa Thompson), e o mandachuva local (Jeff Goldblum) o põe para lutar na arena com o amigo Hulk (Mark Ruffalo). De incidente em incidente, vão todos se encontrar em Asgard, para uma batalha cósmica que é ao mesmo tempo hilariante e arrebatadora. O elenco, delicioso de ponta a ponta, por pouco não se diverte até mais do que a plateia: para Hemsworth e Hiddleston, em especial, este Ragnarok bate até o Valhalla.

Publicado em VEJA de 1º de novembro de 2017, edição nº 2554