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Da pirataria à inovação

Antes motivo de piada por suas réplicas fajutas, a China ganha posições na corrida pelo desenvolvimento tecnológico e incomoda EUA e outros líderes mundiais

Por Giuliano Guandalini - 23 mar 2018, 06h00

Não faz muito tempo, a indústria chinesa era motivo de piada — mesmo no Brasil. Os produtos baratinhos vendidos nos centros comerciais populares atraíam os consumidores pelo preço, mas a qualidade das mercadorias era sofrível. Os chineses também não primavam pela inovação. Na indústria automobilística, criavam verdadeiros Frankensteins, plagiando descaradamente modelos europeus e americanos. A pirataria do gigante asiático nunca poupou as marcas de luxo e mirou até produtos simplórios brasileiros: havia versões locais de refrigerantes à base de guaraná e das sandálias Havaianas. Essa China ainda existe, continua mandando badulaques para o mundo todo, mas está desaparecendo rapidamente.

Em 2017, pela primeira vez, ela ficou entre os cinco países com o maior número de patentes aceitas nos Estados Unidos, atrás apenas de Japão, Coreia do Sul e Alemanha. Foram mais de 15 000 registros, o que multiplicou por dez, na última década, o total de pedidos aprovados pelo US Patent & Trademark Office, o departamento americano que cuida do assunto. Os números atestam o sucesso da China em seu plano de assumir a dianteira em inovação tecnológica e enfrentar de igual para igual a competição nos mercados mundiais mais exigentes. Para efeito de comparação, o Brasil obteve menos de 500 registros nos Estados Unidos em 2017 — uma goleada de 30 a 1 a favor dos chineses. Em publicação de artigos científicos, eles só perdem para os americanos. “A China é hoje o país que mais investe em energia renovável e inteligência artificial. No Brasil, entretanto, ainda se discute se o sucesso do país se deve à manipulação da taxa de câmbio”, afirma o professor de relações internacionais Oliver Stuenkel, da FGV em São Paulo.

Há tempos, a China se provou confiável na confecção de produtos desenvolvidos fora, como os tênis da Nike ou os iPhones. Mas as marcas chinesas, em sua maioria, ainda são consideradas como de segunda ou terceira linha. Para reverter isso, o presidente Xi Jinping lançou no ano passado a iniciativa Made in China 2025. O objetivo não é simplesmente fabricar produtos, e sim dotar as empresas da capacidade de dominar todas as etapas da produção de equipamentos e serviços tecnológicos de última geração. Algumas já estão nesse patamar. A ZTE e a Huawei, duas das maiores companhias de tecnologia de informação, aparecem no topo mundial em registro de patentes na World Intellectual Property Organization. Ambas produzem smartphones que não fazem feio em comparação com marcas tradicionais e começam a ganhar mercados fora da China.

O avanço chinês no desenvolvimento de tecnologia de ponta trouxe um incômodo crescente para americanos e europeus. Nos Estados Unidos, existe a preocupação de que a Huawei se torne a líder da nova geração da telefonia celular, a 5G, e domine a infraestrutura de telecomunicação. Militares se dizem receosos quanto à segurança dos dados. Um memorando interno da Casa Branca, vazado no início do ano, discutia a necessidade de o governo cuidar ele próprio da criação da rede 5G, e não deixá-la nas mãos de companhias estrangeiras — uma preocupação um tanto paradoxal para a pátria do liberalismo. O governo de Donald Trump anunciou na semana passada a decisão de impor tarifa de 25% sobre até 60 bilhões de dólares em importações chinesas. Os Estados Unidos desejam acabar com uma artimanha histórica do governo comunista, que é o compartilhamento tecnológico forçado. Para investirem no gigante asiático, os estrangeiros devem obrigatoriamente associar-se a grupos locais. O compartilhamento tecnológico forçado foi por muito tempo tolerado pelas grandes empresas americanas e europeias, porque era a maneira de estar presente no mercado que mais cresce no mundo. Não será mais.

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É iPhone? – Não, é o novo celular de uma das líderes chinesas em tecnologia Lluis Gene/AFP

Para o Brasil, a ascensão da China tem sido positiva. O país asiático é o principal cliente das exportações brasileiras e vem assumindo a liderança nos investimentos estrangeiros aqui. Algumas vozes mais nacionalistas, entretanto, veem isso com preocupação. Bobagem. “O total de investimento dos chineses acumulado nos últimos quinze anos foi de 54 bilhões de dólares. Isso não é nada para uma economia do tamanho da brasileira”, afirma o economista Rodrigo Zeidan, professor da Universidade de Nova York em Xangai. “A China não deve ser vista como ameaça, nem para os Estados Unidos nem para o Brasil. Esse tipo de raciocínio é de quem imagina o comércio como um jogo de soma zero, no qual um precisa perder para o outro ganhar.” O essencial é haver regras claras e confiáveis para que os investimentos sejam benéficos para todos. “Deve-se manter um equilíbrio, de forma que não se permita a apropriação de tecnologia de um país, mas se preserve o desenvolvimento proporcionado pelos recursos estrangeiros”, afirma Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior.

Nas últimas três décadas, a China, embora seja uma ditadura comunista, soube aprender lições essenciais com as potências capitalistas ocidentais. Abriu-se à competição, incentivou a inovação e preparou seus trabalhadores para que atuassem em atividades mais complexas. O Brasil, enquanto isso, saltou de uma crise para outra, sem encontrar o rumo do desenvolvimento. Resultado: no ano passado, o PIB per capita da China, ajustado pelo poder de compra, superou o do Brasil. Em 1980, os brasileiros eram, em média, quinze vezes mais ricos que os chineses. A pirâmide se inverteu.

Com reportagem de Bianca Alvarenga

Publicado em VEJA de 28 de março de 2018, edição nº 2575

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