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Da cadeira na Ford ao Maio Amarelo

José A. Ramalho, finalista do Prêmio VEJA-se na categoria Políticas Públicas, criou o mais completo serviço de estatística e soluções em segurança viária

Por Eduardo Burckhardt Atualizado em 30 nov 2018, 20h38 - Publicado em 5 out 2018, 07h00

Até o fim da leitura deste texto, cinco pessoas terão ficado com sequelas físicas permanentes em decorrência de acidentes de trânsito no Brasil. No tempo de leitura de uma edição completa de VEJA, algo em torno de 300 pessoas passarão a conviver com a amputação de um membro do corpo, a tetraplegia ou outro dano irreversível causado nas ruas e rodovias do país. Outros 25 brasileiros entrarão na estatística de mortes, que contabiliza cerca de 40 000 vítimas por ano em acidentes. “Vivemos uma carnificina no Brasil. O trânsito causa maior dano à nação do que uma guerra, mas não tem o devido holofote”, diz o paulista José Aurelio Ramalho, de 55 anos, finalista do Prêmio VEJA-se na categoria Políticas Públicas. Ele fala com propriedade: transformou em meta de vida lançar luz sobre esses dados alarmantes e destrinchá-los em pesquisas, cartilhas, campanhas e relatórios produzidos no Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), instituição que criou com o objetivo de contribuir para a diminuição dos acidentes de trânsito.

A bagagem para entregar-se a esse desafio veio com a experiência de mais de duas décadas no setor automotivo. Natural de Indaiatuba (SP), Ramalho iniciou a carreira aos 18 anos como motorista de empilhadeira em uma montadora. Antes dos 40, já ocupava um alto cargo executivo na Ford. “Era o máximo, mas queria fazer algo pela sociedade”, afirma. Esse desejo le­vou-o ao comando de um centro de pesquisas privado voltado para a segurança viária e veicular, especializado em estudos automotivos e em testes de batidas. A expe­riência o gabaritou para participar na Rússia, em 2011, de um fórum da ONU que lançou a Década de Ação para a Segurança no Trânsito. Ficou arrasado. “Dos 185 países presentes, o Brasil foi o único que não enviou nenhum ministro de Estado”, relembra. “Era evidente que o governo não faria nada previsto pela ONU para reduzir os acidentes.”

Estima-se que o Brasil gaste todos os anos cerca de 56 bilhões de reais com acidentes em ruas e estradas

Ramalho retornou da viagem convicto de que deveria tomar para si essa responsabilidade. Reuniu uma pequena equipe, bancou do próprio bolso o aporte inicial de 200 000 reais e montou na churrasqueira de casa o embrião do Observatório Nacional de Segurança Viária. “Sete anos depois, ninguém fala em trânsito no Brasil sem consultar a gente”, orgulha-se. A razão é simples: o Observatório é responsável por algumas das mais relevantes análises sobre o tema no país. Seu banco de dados reúne informações que antes estavam dispersas em diferentes fontes públicas. O sistema as organiza numa mesma plataforma e faz o cruzamento dos dados sob a ótica viária. É o mais completo mapeamento dos acidentes de trânsito no Brasil. O levantamento auxilia prefeituras, estados e o governo federal a identificar pontos críticos, como locais com alto índice de colisões, e adotar ações mais efetivas.

Estima-se que o país gaste em torno de 56 bilhões de reais por ano com os acidentes de trânsito. Entram nessa conta custos com hospitais, medicamentos, infraestrutura, pronto-atendimentos, entre outros. “É um dinheiro que deixa de ser investido em saúde, educação, saneamento básico e transporte “, diz Ramalho. “Com esses recursos, daria para construir 1 800 hospitais e atender 78% da população ou levantar 28 000 escolas.”

Ramalho arma-se de informações como essas para fazer o chamado lobby do bem. Ele percorre os gabinetes de Brasília em busca de aliados que encampem suas ideias para melhorar a segurança do trânsito no Brasil. No escritório do Observatório, em Indaiatuba, nasceram as bases para a Lei Seca e as legislações que obrigam ao uso do freio ABS, do airbag e das cadeirinhas de bebê nos automóveis. Em todos os estudos, ele e a equipe do Observatório debruçaram-se sobre pareceres técnicos e critérios metodológicos para entregar a políticos e órgãos federais os subsídios para a redação e a defesa das leis e regulamentações. “A gente faz o bolo, mas deixa que eles coloquem a cereja”, brinca.

As mudanças legislativas contribuem, porém não bastam para brecar os acidentes. Ramalho acredita que a principal arma nessa luta é informar a sociedade. “Precisamos criar uma educação para o trânsito baseada em três eixos: escola, formação do condutor e campanhas de conscientização”, diz. O primeiro eixo está ancorado no programa Educa, uma série de nove livros para alunos e professores desenvolvida pelo Observatório para a implantação do trânsito como disciplina no ensino fundamental. “O trabalho foi bancado 100% por investimentos privados e doado ao governo federal”, conta Ramalho. O segundo eixo é contemplado na proposta de mudança na atual formação dos condutores, resultado de quatro anos de pesquisas condensados em mais de 700 páginas com orientações para transformar as autoescolas em centros de ensino sobre o trânsito.

A terceira frente é encabeçada pelo movimento Maio Amarelo, uma das maiores ações de conscientização sobre segurança viária no mundo. Ramalho teve a ideia durante uma viagem, ao ver um aeroporto colorido em razão do Outubro Rosa, destinado aos cuidados com o câncer de mama. “Por que não criar algo semelhante para alertar a sociedade sobre o alto índice de mortos e feridos no trânsito?”, diz. Lançado em 2014, o movimento é um sucesso. Apenas na última edição, foram publicadas cerca de 12 000 notícias sobre a campanha, e o alcance nas redes sociais ultrapassou 7,5 milhões de pessoas. O movimento “pintou” de amarelo monumentos no Brasil, como o Cristo Redentor e o Palácio do Planalto, e também nos 27 países que aderiram ao Maio Amarelo, entre eles Austrália, Portugal e Uruguai. “Conseguimos despertar nas pessoas a consciência de que essa não é uma luta perdida. Todos podemos, sim, fazer algo para melhorar a segurança no trânsito”, diz Ramalho.

Publicado em VEJA de 10 de outubro de 2018, edição nº 2603

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