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Com espaço para voar

Finalista do Prêmio VEJA-se na categoria Inovação fundou uma empresa pioneira em cursos, serviços e desenvolvimento para o mercado de drones no Brasil

Por André Lopes Atualizado em 30 nov 2018, 20h39 - Publicado em 3 ago 2018, 07h00

Próximo ao Parque da Independência, no bairro do Ipiranga, um dos mais antigos da cidade de São Paulo, ouve-se um zumbido de motores nos ares. Ali, durante o dia todo, drones cruzam o céu para lá e para cá. Alguns em linha reta, outros mais desajeitados, buscando estabilidade. No chão estão os pilotos dos veículos, os alunos da Futuriste, empresa especializada em drones da paulistana Raquel Molina, de 33 anos, finalista do Prêmio VEJA-se na categoria Inovação. A empreendedora, que trabalhava como analista de sistemas em um banco, decidiu, em 2014, investir no setor depois de ter lido uma reportagem sobre os usos civis promissores dos veículos aéreos não tripulados.

O negócio tomou forma em 2015, quando Raquel se tornou a primeira mulher instrutora de drones do Brasil. Junto de seu marido e sócio, o engenheiro Leonardo Minucio, ela buscou entender quais eram as principais demandas da área. Percebeu que, por se tratar de uma novidade, todos os interessados por drones seguiam o mesmo roteiro: primeiro, enxergavam uma possível aplicação da tecnologia, depois, procuravam o equipamento ideal e, por fim, precisavam aprender a pilotá-lo. Raquel teve a ideia de oferecer o pacote completo. Hoje, sua empresa monta os drones e vende o equipamento por preços a partir de 649 reais. Também presta serviços, enviando pilotos para fazer mapeamentos tridimensionais, filmagens e fotografias aéreas. Mas a maior demanda é pelo treinamento para pilotos de drones. Atualmente, o salário inicial desses profissionais está em torno de 7 000 reais.

Cumprido o desafio de imaginar o negócio e pô-lo em prática, Raquel teve de enfrentar outro obstáculo: o domínio masculino no mundo da tecnologia. “Muitas vezes, quando estávamos em alguma feira expondo os serviços da Futuriste, os homens que chegavam ao nosso estande pediam para falar com um instrutor, pois achavam que eu era recepcionista. Restava-me insistir e mostrar que eu entendia do assunto e que podia ajudar”, lembra Raquel. Em 2017, ela foi a única mulher a compor a lista dos três maiores inovadores da DroneShow, a principal feira do setor na América Latina. “Saí da programação de sistemas, que também era dominada por homens, e fui para uma área que estava começando com o mesmo padrão masculino”, afirma Raquel.

“Os homens pediam para falar com um instrutor, achavam que eu era recepcionista”, diz a empresária

Quando criança, ela nunca ficava de fora dos jogos de videogame com amigos e irmãos, e sempre foi incentivada a usar o computador. Isso a ajudou a preparar-se para suas futuras profissões. A empresária defende a ideia de que é preciso dar mais chance às mulheres, para que elas aprendam desde pequenas a ter interesse por tecnologia. “Foi esse estímulo que me fez ter paixão pela inovação, por isso minha filha de 8 anos, que também adora videogames, já tem o próprio drone de brinquedo.”

No Brasil, há cerca de 700 empresas no segmento de drones. No mundo, estima-se que o setor terá um crescimento de 34% na receita neste ano, chegando a 6 bilhões de dólares. “Com as marcas chinesas lançando um produto novo a todo momento, ficou muito fácil e barato comprar um drone”, diz Raquel. Foram justamente o barateamento e a simplificação da tecnologia que permitiram o florescimento de negócios como a Futuriste, cujo faturamento registrou um aumento de 70% entre 2015 e 2016. “Quando o uso é profissional, mesmo para pilotar o drone mais simples e fácil é necessário treinamento”, explica ela. No caso de drones com mais de 25 quilos, a Agência Nacional de Aviação Civil exige treinamento, registro do equipamento e cuidados especiais antes de colocar uma aeronave perto de multidões. Até julho, foram registrados 17 352 drones para uso comercial no país. No exterior, 45% do mercado de drones está em obras de infraestrutura, 32% no campo e 23% distribuídos em outras aplicações. No Brasil, a maioria está no agronegócio.

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O futuro, porém, está na internet. Embora ainda sejam novidade, os drones estão perto de resolver um dos principais gargalos logísticos do comércio eletrônico: entregar rapidamente os produtos comprados pela web. De acordo com um estudo da consultoria McKinsey, 25% dos consumidores on-line dos Estados Unidos, da Alemanha e da China estariam dispostos a pagar mais pelo frete se a entrega não levar mais do que algumas horas. Isso significa colocar um drone no caminho. É justamente na adaptação dos equipamentos para fazer esse tipo de serviço que está a aposta de Raquel para a evolução do negócio: “Hoje já conseguimos customizar o uso da aeronave conforme a necessidade, seja para entregas, para a pulverização de lavouras ou para filmagens”. E não é preciso comprar um equipamento para situações eventuais, pois há empresas que alugam drones mais robustos, que podem ser usados para o transporte de carga. Agora, ela aguarda a evolução natural do mercado para que novas funcionalidades sejam aplicáveis comercialmente.

O maior empecilho, por enquanto, são a falta de legislação específica e a existência de leis muito restritivas, que podem reduzir o potencial da tecnologia. No Brasil, por exemplo, a regulamentação da Agência Nacional de Aviação Civil torna inviável a utilização de drones com mais de 25 quilos em bairros residenciais. Para entregas, eles ainda não podem ser empregados. Raquel, porém, acredita que não será necessário discutir erros e acidentes com drones: “Antes mesmo do uso massivo e de uma preocupação sobre os problemas da tecnologia, a inteligência artificial vai mudar esse mercado, assim como ocorrerá com carros autônomos. Os drones serão pilotados por centrais automatizadas, e a nós restará pensar em suas novas funções. Até lá, ainda há muito espaço para inovar e voar”.

Na próxima edição, conheça a história de mais um finalista do Prêmio Veja-se, na categoria Inovação. A premiação prestigia cidadãos que se destacam como agentes de mudança na sociedade brasileira

Publicado em VEJA de 8 de agosto de 2018, edição nº 2594

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