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Choque de civilizações

O conflito entre os devotos do guru Rajneesh e os habitantes de uma cidadezinha rural americana, nos anos 80, é a melhor história que se encontra na TV hoje

Por Jerônimo Teixeira Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 7 abr 2018, 06h00 - Publicado em 7 abr 2018, 06h00

Minoria religiosa que pratica meditação e prega a liberação sexual instala-se em um grotão desértico dos Estados Unidos; habitantes do lugarejo próximo — americanos brancos e cristãos — mobilizam-se para expulsar os recém-chegados. Só com base nessa sinopse, muitos já estariam ideologicamente predispostos a se inclinar por um ou outro lado da contenda. Os irmãos documentaristas Chap­man e Maclain Way não se renderam a nenhuma torcida militante. No excepcional Wild Wild Country, produzido e exibido pela Netflix, eles apresentam os fatos na ordem em que aconteceram e sem um narrador que os explique ou comente. A narrativa, sempre envolvente, é conduzida por imagens da época dos eventos — anos 80 — e depoimentos atuais de pessoas que participaram dos dois lados da batalha (e foi uma batalha, ainda que sem mortos). O resumo que abre este parágrafo, embora correto, não faz plena justiça ao caso retratado nos seis episódios do documentário. A história de como a seita liderada pelo guru indiano Bhagwan Shree Rajneesh (1931-1990) ergueu uma cidade no interior do Estado de Oregon e de lá foi expulsa pela Justiça tem lances tão delirantes — tentativas de manipulação eleitoral, planos de assassinato, bioterrorismo — que o espectador lá pelas tantas abandonará seus julgamentos prévios para apenas acompanhar, teso na poltrona, os acontecimentos em seu crescendo de insanidade.

Rajneesh — que no fim da vida renomeou-se Osho — já congregava uma multidão de jovens seguidores ocidentais em seu ashram na Índia quando, premido por problemas com o governo do país, decidiu radicar-se nos Estados Unidos. Sincrético amálgama de espiritualidade oriental com materialismo ocidental, sua rica seita gastou milhões de dólares para erguer uma Xangri-lá riponga no Oregon. Todo o trabalho de construção foi realizado por devotos de Rajneesh, os sannyasins, reconhecíveis por seus uniformes vermelhos. Pronta a cidade, com casas, comércio, escola, lagos artificiais e pista de pouso, Rajneesh mudou-se para lá, em 1981, a bordo de um de seus vários Rolls-Royce.

Rajneesh com seu braço-direito, Sheela: meditação, sexo livre e bioterrorismo (Divulgação/Netflix)

Os conflitos com os habitantes locais começaram de imediato. Um grupo ambientalista — com apoio financeiro de Bill Bowerman, um dos fundadores da Nike, que era natural do Oregon — passou a questionar os licenciamentos para um empreendimento daquelas dimensões. A seita respondeu com uma agressiva compra de propriedades na cidadezinha de Antelope, depois rebatizada de Rajneesh. Nunca houve nenhuma conciliação entre as partes, e logo os san­nyasins, vegetarianos mas não pacifistas, armaram milícias com fuzis automáticos. E foram ainda mais longe: em meio a uma disputa eleitoral no condado, membros da seita infectaram a cidade de The Dalles com salmonela, levando dezenas de habitantes para o hospital, no que ainda hoje é considerado o maior ataque terrorista com agente biológico em território americano. Rajneesh acabaria condenado por um crime menor — fraude para obter vistos de permanência nos Estados Unidos — e deportado de volta para a Índia em 1985.

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No comando das alas radicais da seita, estava a personagem mais indecifrável da série: Ma Anand Sheela, secretária de Rajneesh. Incisiva e feroz como um pitbull, ela não revela, nas entrevistas que deu ao documentário, o menor remorso pelas ações criminosas que lhe custaram pouco mais de dois anos de prisão. Publicamente renegada pelo guru, ela ainda fala do antigo líder com a adoração que se devota a um deus. Esse culto fanático à personalidade era comum entre sannyasins.

Wild Wild Country trafega por campos minados do debate público contemporâneo nos Estados Unidos: limites da liberdade religiosa, laicidade do Estado, leis de imigração, direito ao porte de armas de assalto. O documentário não avança nenhuma tese sobre essas questões, e talvez nem ajude o espectador a formar as próprias opiniões. Uma história tão complexa, multifacetada e — em termos mais prosaicos — doida não carrega lições unívocas. Resta só uma certeza inabalável: trata-se de uma grande história. Talvez a melhor que se verá na televisão neste ano.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

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