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Balanço financeiro

A trajetória de um setor que trocou a especialização pela multiplicidade de serviços, teve quebradeiras e se reinventou com a estabilidade econômica

Por Marcelo Sakate 10 ago 2018, 07h00

Os bancos brasileiros passaram por grandes transformações ao longo do último meio século, mas alguns de seus desafios parecem atemporais. Um exemplo é a dificuldade para estabelecer um diálogo transparente com o Estado sem, no entanto, ceder às suas pressões — nem sempre legítimas. Já em 1971, durante a abertura do VIII Congresso Nacional dos Bancos, o economista Antônio Delfim Netto — então poderoso ministro da Fazenda da ditadura instaurada em 1964 — havia mandado para o setor um assertivo recado, cujo con­teú­do, revisitado agora, soa bastante atual: “Temos de pensar num sistema bancário (…) que torne possível a existência de sólidos, grandes e eficientes bancos nacionais, capazes de financiar o desenvolvimento econômico nacional”. A política concebida pelos militares calçava-se no planejamento e na forte presença do Estado na economia, o mesmo receituário adotado, anos depois, pelo governo do PT, sobretudo na gestão de Dilma Rousseff. Para chegar ao objetivo de Delfim para a economia brasileira, a atuação dos bancos era decisiva. Assim, começaram a ganhar forma no início da década de 70 os enormes conglomerados financeiros, que deveriam ter tamanho suficiente para atrair clientes, captar recursos e sustentar vigorosos projetos.

O novo perfil era inspirado no modelo japonês. O leque de serviços disponibilizado ao público ia de fundos de investimento e compra de ações a ofertas mais simples, como o pagamento de impostos na rede bancária. “Bancos — Supermercados de dinheiro”, dizia VEJA em sua capa da edição de 21 de abril de 1971, na qual a revista radiografou a mudança que marcaria os últimos cinquenta anos de história dos principais agentes do sistema financeiro nacional. Terminava ali a era da especialização bancária. Até então, as instituições ofereciam poucos serviços, como a possibilidade de abertura de caderneta de poupança, por exemplo. Sob esse ponto de vista, o avanço era inegável. Contudo, a multiplicidade de serviços bancários, que ia ao encontro das aspirações do governo, trazia consigo o outro lado da moeda — com o perdão do trocadilho — cunhado pelo setor naquele momento, o que dificulta o diálogo entre as partes.

O pomo da discórdia era algo que continua assombrando a economia brasileira: juros altos. À frente da Fazenda, Delfim Netto pressionava os banqueiros, via Banco Central, a reduzir as taxas — o piso estava, então, em 24% ao mês (abaixo dos 39%, na média, dos dias atuais). “Se a estrutura dos custos operacionais dos bancos não permitir uma redução nas taxas de juros sobre os empréstimos, poderá ocorrer uma situação de sérias dificuldades para os bancos comerciais, tornando-se quase inevitável uma participação maior da rede bancária oficial ou a retração da procura por crédito”, alertava o então presidente do BC, Ernane Galvêas. Como aconteceria décadas depois, com Dilma no Planalto, a pressão do Estado seria um dos instrumentos — impróprio, como sempre — para forçar a redução do custo do dinheiro.

Outro ponto de atrito na relação entre governo e bancos — e que merece atenção constante, como a última gestão petista demonstrou — foi a inflação. Embora avassalador para a população, aquele era um mal que alimentava as instituições financeiras. Em 1992, por exemplo, a alta de preços proporcionou aos bancos um lucro 56% maior que no balanço anterior. Surpresa? Um levantamento da consultoria Austin Asis mostrava que a rentabilidade média dos bancos brasileiros entre 1987 e 1991 fora de 13% em relação ao seu patrimônio. No mesmo período, os europeus tinham conseguido 9% e os americanos, 7%. “É quase impossível um banco ter prejuízo sob uma inflação de padrão brasileiro”, declarou, na ocasião, Ibrahim Eris, à época no comando do Banco Central. A situação levou o presidente Itamar Franco a conclamar uma reforma do sistema. Entretanto, o quadro só mudaria de fato com o Plano Real (1994), que derrubou a inflação no país.

O cenário, a partir dali, se transformaria — trazendo, no caso dos bancos, uma fase de enorme tormenta. O ponto culminante do inferno astral do sistema financeiro no Brasil se deu em 1995, como mostrou a edição de VEJA de 22 de novembro, que exibia a imagem de um cofre-forte em meio a destroços. “Terremoto nos bancos”, segundo noticiava a revista, tinha por base a intervenção que o governo Fernando Henrique Cardoso fizera no Nacional. A instituição havia se sustentado por dez anos falsificando balanços e enganando acionistas e clientes, o que causara um rombo de 7 bilhões de reais. Com o dinheiro do Proer, o programa de socorro aos bancos, seus ativos bons acabariam vendidos ao Unibanco. Sem isso, os correntistas perderiam tudo.

1971, 1995, 2006 - Montanha-russa no sistema bancário nacional. //VEJA

Escaldado pelo naufrágio do Banespa (1994) e do Banco Econômico (1995), FHC recorreu ao Proer por temor de que o colapso de outro grande banco fragilizasse o sistema financeiro. “A VEJA está na pista de que o Unibanco vai comprar o Nacional”, escreveu FHC em seus diários, que seriam lançados em livro a partir de 2015. “Não quero entrar direto nessa questão, porque isso pode dar de novo corrida nos bancos. É o meu maior pavor hoje, depois da experiência do Econômico, porque sei que é difícil controlar e o governo perde muito dinheiro se entrarmos outra vez em corrida de banco”, anotou. O salvamento do Nacional inauguraria uma tendência: contando, em alguns casos, com a ajuda do BC, os bancos fortes passaram a comprar os fracos; e os médios, a se fundir. “Dos 246 bancos existentes hoje no país, é provável que sobrem menos de 100 num prazo de dez anos. Dos chamados bancos de varejo, sobrará meia dúzia”, calculou a revista. Foi uma previsão certeira.

Com o saneamento do sistema financeiro e o controle da inflação, que fechava uma das portas para o lucro fácil, os bancos voltariam suas baterias para o oferecimento de uma gama cada vez maior de serviços. O uso crescente do crediário modificou os hábitos de consumo, resultando numa expansão inédita da capacidade de compra, como registrou a capa de VEJA de 26 de abril de 2006, com o título “Chuva de dinheiro”. Novas regras adotadas para dar segurança e garantias a quem empresta, além da estabilidade da economia, criariam condições para um crescimento inédito dessas operações no Brasil. O custo elevado do crédito, porém, manteve-se como um dos principais desafios do sistema financeiro nacional, conforme detalha a reportagem seguinte.

Publicado em VEJA de 15 de agosto de 2018, edição nº 2595

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