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A esperança triunfa

Jornalista brasileira conta a história inacreditável mas real do casal sírio que se conheceu no Facebook e passou a lua de mel sob sítio do Estado Islâmico

Lua de Mel em Kobane, de Patrícia Campos Mello (Companhia das Letras; 208 páginas; 49,90 reais)

Lua de Mel em Kobane, de Patrícia Campos Mello (Companhia das Letras; 208 páginas; 49,90 reais) (./Divulgação)

A imagem ultrajante do corpo do menino de 3 anos estirado numa praia da Turquia ordenou à jornalista Patrícia Campos Mello que voltasse a terras conflagradas para resgatar a saga de Alan Kurdi, engolido pelas águas do Mediterrâneo ao cair do barco que transportava outra família de refugiados à caça de portos menos inseguros e nações mais clementes. Seria uma reportagem sobre a vida não vivida por gerações de crianças traídas. Trapaças da sorte provocaram desencontros que fizeram a profissional especializada na cobertura de zonas de conflito encontrar Barzan Iso e Raushan Khalil, dois personagens de matar de inveja o mais imaginoso ficcionista. A inverossímil história do casal resultou num belo livro sobre o amor em tempos de guerra. Lua de Mel em Kobane comprova que a esperança pode triunfar até sobre um dos mais ferozes confrontos registrados desde o tempo das cavernas.

Barzan e Raushan se conheceram pelo Facebook em 2 de abril de 2014. Ambos nascidos na região da Síria onde predominam os curdos, estavam separados por 2 500 quilômetros. Ele, um repórter que saíra do país para escapar à repressão movida pelo governo de Bashar Assad contra quem luta pela independência curda, morava num apartamento alugado em Istambul, na Turquia. Ela, uma estudante que interrompera o curso de direito na Universidade de Alepo para distanciar-se da violência alimentada por extremistas religiosos, ocupava um minúsculo quarto em Rybinsk, na Rússia. A troca de mensagens se intensificou em ritmo alucinante, até que o exuberante Barzan surpreendeu a introspectiva Raushan: “Acho que estou ficando apaixonado”.

 (Keiny Andrade/Folhapress)

Os namorados virtuais conheceram-se pessoalmente duas semanas depois, no aeroporto de Istambul, onde passaram cinco dias juntos. Quando ela voltou para a Rússia, providenciou o retorno definitivo. Em setembro, casaram-se simbolicamente na Turquia. Em outubro de 2014, quando chegaram a Kobane, a cidade natal estava sitiada pelo Estado Islâmico. Viveram a lua de mel num cenário dilacerado por bombas, rajadas de metralhadoras, decapitações, estupros, obuses e outras invenções letais. A expulsão dos invasores ultrarradicais não esfriou o caldeirão permanentemente aquecido por grupos étnicos rivais, tribos inconciliáveis, seitas religiosas que se matam em nome da mesma divindade, potências estrangeiras que invocam a paz para prolongar a guerra, ditadores que só se renderão à eliminação física e outros anabolizantes da instabilidade eterna.

Esse mundo em convulsão é descrito com a linguagem que identifica os melhores correspondentes de guerra. Sensível, extraordinariamente lúcida, conhecedora da paisagem que contempla, a autora mostra as coisas como as coisas são, e conta o caso como o caso foi. Como também sabe que o horror é substantivo, nunca escorrega em hipérboles e adjetivos que o tema reduz a penduricalhos dispensáveis. Barzan e Raushan continuam unidos pela paixão, mas separados geograficamente. No momento, sonham em cidades diferentes com outro reencontro. Em Kobane, naturalmente.

Publicado em VEJA de 24 de janeiro de 2018, edição nº 2566