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A dimensão histórica da derrocada

Seria extraordinário se o melancólico destino de Lula pudesse aumentar a crença na democracia brasileira

Por Fernando Molica - 7 abr 2018, 06h00

Em 1980, tempo em que o Brasil ainda patinava sob a ditadura militar, um metalúrgico com pouco estudo, alta capacidade de mobilização nas greves da categoria, aguda percepção de insatisfações populares e bom de briga ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. A ideia era dar cara nova — especialmente limpa e ética — ao Congresso e aos cargos executivos. O PT e Lula, a sua encarnação, eram corretos, probos, o contrário de tudo o que estava ali havia tanto tempo. Militantes entusiasmados, em número cada vez maior, carregaram Lula para cima. Ele chegou ao Planalto, melhorou a vida de muita gente, angariou admiração e respeito de intelectuais e governantes. Chegou ao topo — e de lá despencou às 17h50 da quinta-feira 5, quando o juiz Sergio Moro ordenou sua prisão. Durante a madrugada, depois da decisão de Moro, houve vigília e protesto diante do prédio do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, onde Lula se postou, à espera do desfecho — voltara, num derradeiro esforço de reconstrução da imagem, ao palco onde começou a carreira política, como líder grevista.

“Uma coisa é votar em uma pessoa, outra, diferente, é ir para a rua defendê-la”, diz o cientista político Alberto Carlos Almeida, do Instituto Brasilis

Foi como se a história estivesse sendo reescrita como farsa, ancorada na popularidade do ex-presidente. Mesmo baqueado pelos petardos do mensalão, em 2005, que expôs pela primeira vez as entranhas do esquema de corrupção petista, ele saiu de oito anos na Presidência, em 2011, com extraordinária taxa de aprovação: 83%, segundo pesquisa do Datafolha. Elegeu Dilma Rousseff para suceder-lhe, e a reelegeu em 2014. A inapelável queda de Lula e as cenas deste abril de 2018 impõem uma indagação: como ele será visto pela posteridade — e que dimensão, no futuro, terá sua prisão?

Vigília - Na véspera da sessão do STF, os brasileiros de camisa amarela voltaram às ruas, embora em grupos menores Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo

Apesar de tudo, segundo pesquisas recentes, Lula ainda tem mais de 30% das intenções de voto na eleição deste ano para presidente. Como pode um indivíduo julgado e condenado estar à frente de todos os demais pré-candidatos? A resposta, ou pelo menos parte dela, está em uma pesquisa nacional feita em março pelo Instituto Brasilis. Nela, 59% dos entrevistados disseram considerar justa a condenação de Lula. Mas, entre esses mesmos entrevistados, 13% pretendiam ainda assim votar nele para a Presidência por considerar que fez um bom governo e que políticos, por definição, são inevitavelmente corruptos. O resultado ecoa um levantamento do instituto Ideia Big Data, feito a pedido de VEJA, que mostra Lula como alguém que “rouba, mas fez algo por mim” (veja a reportagem). E por que, no entanto, quem ainda diz preferir dar o voto a Lula não protesta maciçamente contra sua prisão? Para registro: ainda antes do mandado de Moro, na véspera da sessão do STF, saiu às ruas um número significativo dos que desejavam ver Lula atrás das grades (não foi uma multidão, é verdade). “Uma coisa é votar em uma pessoa, outra, diferente, é ir para a rua defendê-la”, diz o cientista político Alberto Carlos Almeida, diretor do Instituto Brasilis e autor do livro A Cabeça do Brasileiro, baseado em uma pesquisa sobre como pensa a população. “A descrença generalizada na política dificulta a adesão a manifestações. E, numa situação assim, prender a pessoa não afeta o apoio que ela tem.”

Estudos internacionais mostram que, no mundo todo, manifestações contra alguma situação ou contra alguém têm maior capacidade de adesão do que aquelas que são a favor de uma causa. Diz Geraldo Tadeu Monteiro, professor de ciência política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj): “É difícil reunir gente em torno de temas como, por exemplo, a melhora da educação. Já o assassinato de uma professora ou o desabamento de uma escola têm grande potencial de aglutinar manifestantes. O que leva as pessoas para a rua é a indignação”, sustenta. A indignação pela condenação de Lula existe, é claro, entre seus apoiadores mais próximos e parcelas do PT. Mas parece não ultrapassar a fronteira das redes sociais — mesmo depois do acirramento que brotou da canetada final de Sergio Moro.

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Fora, Collor - Manifestação de caras-pintadas pelo afastamento do presidente, em 1992: a indignação fez a força Custódio Coimbra/Agência O Globo

O sentimento de indignação que conduz às grandes manifestações populares tanto pode crescer aos poucos, até desaguar em uma causa comum, quanto entrar em erupção repentina, impulsionado por alguma comoção inesperada. O historiador José Murilo de Carvalho utiliza como exemplo para essa segunda opção, a da explosão abrupta, a convulsão nacional desencadeada pelo suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, em meio à pressão deflagrada por uma morte cuja autoria levava ao Palácio do Catete. A população acompanhou, perplexa mas apática, quase três semanas de repercussão do atentado que matou o major Rubens Vaz, integrante da segurança do jornalista Carlos Lacerda, ferrenho opositor do presidente. “O suicídio inverteu a situação. As massas populares invadiram as ruas”, lembra Carvalho. Uma enorme multidão seguiu o caixão ao longo dos 2,6 quilômetros que separam a antiga sede do governo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, do Aeroporto Santos Dumont, de onde um avião o transportou para o Rio Grande do Sul. “Foi uma das maiores concentrações populares da história brasileira”, afirma a socióloga Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta do ex-presidente. Carvalho faz uma ressalva: “As acusações contra Vargas não o atingiam pessoalmente”.

Demorou para que as ruas do Brasil virassem palco de protestos massivos. No início do século XX, as poucas manifestações populares tinham foco limitado e específico, como a revolta decorrente da obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, em 1904. Foi justamente a partir da revolução que levou Vargas ao poder, em 1930, que elas se tornaram mais frequentes. O mundo estava mudando, e o golpe contra Washington Luís, o presidente na época, contribuiu para polarizar a cena política — movimentos como a Ação Integralista Brasileira, de extrema direita, e a Aliança Nacional Libertadora, ligada aos comunistas, passaram a promover atos públicos para conquistar adeptos e provocar uns aos outros. A mobilização popular entraria de novo em recesso durante o regime militar. “Mais de vinte anos de ditadura paralisaram o aprendizado democrático, desvinculando as eleições da liberdade de expressão”, observa Carvalho.

A própria repressão prolongada, porém, aliada à má situação econômica, serviu de combustível para a volta da população às ruas. Em 1984, a campanha das Diretas Já, que tinha o objetivo de aniquilar a excrescência da eleição indireta para presidente da República, encheu as cidades de manifestantes ruidosos e insistentes — em São Paulo, 300 000 pessoas tomaram a Praça da Sé em um comício em janeiro e 1,5 milhão se espremeram no Vale do Anhangabaú em abril. As diretas não vieram, mas a ditadura começou a ruir. Em 1992, o alvo da indignação popular eram os desmandos de Fernando Collor de Mello: no auge do movimento dos caras-pintadas, calcula-se que 700 000 pessoas em todo o Brasil tenham saído de casa em um único dia para pedir o impeachment do presidente. Mais recentemente, outro impeachment, o de Dilma Rousseff, mobilizaria milhões Brasil afora e resultaria em seu afastamento.

Para os especialistas, o fato de um presidente tão popular como Lula parar na cadeia mostra uma evolução do sistema político brasileiro — e, no fim das contas, talvez essa seja a marca mais duradoura da derrocada do PT, aquela que ficará nas páginas da história. O passageiro grito contra a prisão não se compara ao choro por Getúlio, tampouco ao clamor pelo retorno da democracia. Há quem alegue injustiça, há quem diga que Lula foi submetido a humilhação porque quis privilegiar os mais pobres, rompendo 500 anos de elitismo. Mas não há um único brasileiro, à exceção do próprio Lula, capaz de assegurar que ele não se tenha extraviado esplendidamente do caminho que o levaria ao shangri-lá da ética, contra a corrupção. Era uma esperança, em algum momento parecia ir pelo bom caminho, mas aderiu com vigor ao velho esquema oligárquico do saque ao Estado. Quem, então, haveria de sair por aí para defendê-lo? Os brasileiros a favor de Lula, à esquerda, abriram mão de pôr os pés no asfalto, como fizeram os que, de camisa amarela da seleção brasileira, aceleraram a queda de Dilma antes do impeachment. Estes gritavam contra a roubalheira, mas tinham em Lula o principal alvo. Venceram — e os lulistas, derrotados, depois de tanto escândalo, depois da condenação em todas as instâncias legais, perderam o ânimo. Não têm força, e talvez tenham perdido os motivos, para protestar.

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Tudo somado, passado o turbilhão que divide o país, ruidosamente rachado, é possível que em breve a condenação de Lula seja entendida como um momento delicado, triste, mas necessário. “As crises fortalecem. Põem as instituições à prova, lançam desafios e promovem inovações”, diz o professor Geraldo Monteiro. Ele cita também um efeito, digamos, didático do processo: “É bom que as pessoas vejam que salvadores da pátria não existem. A base de um regime estável é o respeito à lei”. A legalidade saiu ganhando, e isso é bom, mas Daniel Aarão Reis, professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense, que enxerga em Lula preso “uma dimensão histórica inegável”, alerta: “Isso vai deixar muita gente ainda mais amarga e aumentará a descrença em relação ao regime democrático”. Bom mesmo seria que triunfasse a possibilidade contrária: o melancólico destino de Lula vir a aumentar a crença na democracia.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

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