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A China descobre o Brasil

No passado as empresas chinesas vinham aprender com as brasileiras.Agora são as estrangeiras que mais investem no país e trazem tecnologia de última geração

Por Bianca Alvarenga - Atualizado em 2 fev 2018, 06h01 - Publicado em 2 fev 2018, 06h00
Arte/VEJA

O Brasil recebeu quatro grandes ondas migratórias da China. A primeira, há mais de dois séculos, ocorreu por um convite de dom João VI para que camponeses de Macau viessem plantar chá em terras brasileiras. A segunda foi de capitalistas chineses que fugiam do regime comunista de Mao Tsé-­tung, no fim da década de 40. A terceira começou vinte anos depois, quando centenas de famílias abandonaram a China para escapar da miséria e se tornaram pequenos comerciantes no Brasil. Muito diferente das anteriores, a atual onda migratória é composta de executivos de grandes corporações, jovens engenheiros e empreendedores que desembarcam no Brasil para fazer negócios. Nos dois últimos anos, o capital de origem chinesa liderou a aquisição de empresas no Brasil.

Se no passado as empresas chinesas procuravam as brasileiras para aprender, agora chegam para investir e trazer novas tecnologias. Foi assim com a compra do aplicativo de transporte 99, pela DiDi Chuxing, no início do ano. A empresa brasileira sabia que, sozinha, teria dificuldade para enfrentar o avanço do Uber no mercado brasileiro. Por isso foi buscar na Ásia a parceria com um competidor que poderia enfrentar a empresa americana de igual para igual. Na transação, a brasileira foi avaliada em 1 bilhão de dólares, o que dá a dimensão da relevância estratégica do mercado brasileiro para os chineses. Além do aporte financeiro, a DiDi trouxe tecnologia. Um time de oitenta profissionais chineses, em sua maioria engenheiros, está em São Paulo trabalhando em parceria com os colegas locais.

Sintonia fina – Executivos e engenheiros chineses no escritório da 99, em São Paulo: transferência de tecnologia Adria Duarte/VEJA

Esses técnicos trazidos pela DiDi fazem parte de um exército de 30 000 chineses que adquiriram visto de permanência no Brasil na última década. Nesse período, empresas do país asiático investiram quase 100 bilhões de dólares em compras de companhias e projetos brasileiros, sobretudo na área de infraestrutura. “No cenário de Europa enfraquecida e Estados Unidos entrando em uma vertente protecionista, faz todo o sentido a China ocupar a liderança nos investimentos na América Latina. Considerando que o Brasil é o mais relevante país do bloco, é certo que eles terão grande importância aqui”, afirma Luiz Augusto de Castro Neves, ex-embaixador do Brasil na China. O setor de energia foi pioneiro em atrair o capital chinês. Uma das principais transações foi a compra da CPFL Energia, a maior distribuidora de eletricidade no país, pela estatal chinesa State Grid, a maior empresa de energia do mundo. A chinesa também é responsável pela construção da linha de transmissão de Belo Monte, que conectará a usina no Pará à rede elétrica no Sudeste. Outras duas companhias da China passaram a atuar aqui nos últimos anos. A China Three Gorges (CTG), estatal encarregada de construir a segunda maior usina hidrelétrica do planeta, a das Três Gargantas, comprou ativos de empresas europeias que estavam em má situação financeira. No ano passado, a State Power Investment Corporation (Spic) arrematou em leilão uma usina antes operada pela estatal mineira Cemig e construiu dois parques eólicos no Nordeste. Especula-se ainda que ela tenha grande interesse em comprar a parte da Odebrecht na operação da usina de Santo Antônio, em Rondônia.

Os chineses, a propósito, têm sido ligeiros na hora de se aproveitar da derrocada dos conglomerados brasileiros arrastados pela Lava-Jato. Um exemplo dos últimos meses foi a negociação da China Railway para assumir o lugar do consórcio formado por Odebrecht, Queiroz Galvão e UTC na construção da Linha Laranja do Metrô, em São Paulo. As obras estavam paradas, por causa da quebradeira das brasileiras. Ao contrário de investidores americanos e europeus, os chineses não olham para as flutuações e crises de curto prazo. Para eles, os ativos brasileiros, depreciados pela crise, estão baratos. “Os chineses olham para o Brasil com uma visão de trinta anos. Eles sabem que o país tem potencial e se recuperará”, diz Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China. Além disso, a China está acostumada a investir em países cuja instabilidade política e institucional é infinitamente maior que a do Brasil. “Basta olhar para os 56 bilhões de dólares que ela colocou na Venezuela”, diz Tang. Nessa lógica, investir aqui é um passeio.

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Conexão ásia – Xiuwei Sun é gerente da Huawei, no Rio. Seu marido, brasileiro, trabalha na chinesa Sinopec Marcos Michael/VEJA

O país asiático é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009. Graças ao crescimento chinês, houve o grande salto nas exportações nacionais, sobretudo de produtos agrícolas. O Brasil dispõe dos alimentos necessários para sustentar o aumento do padrão de consumo chinês, movido pela urbanização intensa no país. Mais de meio bilhão de chineses saíram do campo e foram morar em cidades nas últimas décadas. Hoje, quase 60% da população da China está em áreas urbanas. Em 1980, esse número não passava de 20%. A construção de grandes cidades e a mudança no padrão de vida geraram uma demanda maior e mais diversificada por alimentos e recursos naturais, como o minério de ferro, outro produto exportado pelo Brasil. Ao modernizarem o próprio país, os chineses acumularam tecnologia e um parque industrial único no mundo. Investir em outros países representou uma saída para manter a roda de sua prosperidade girando. Um dos primeiros destinos foi a África. A China viu ali um território a ser conquistado e explorado. A partir dos anos 2000, milhares de chineses foram levados para trabalhar em projetos nos mais variados países africanos, para construir rodovias, ferrovias, pontes, portos e linhas de transmissão elétrica. A África hoje responde por um terço do abastecimento de energia dos chineses. A maneira como esses investimentos foram feitos despertou críticas de que se tratava de um novo colonialismo.

A exemplo do que aconteceu na África, as primeiras empresas chinesas que chegaram ao Brasil queriam trazer trabalhadores para levantar seus projetos. O Citic Group, fundo de investimentos gerido pelo governo chinês, tentou importar 2 000 operários para construir uma siderúrgica no Rio em 2006. O governo brasileiro vetou a ideia. “Aceitei que eles trouxessem 200 técnicos e gerentes, mas não gente do chão de fábrica”, diz Castro Neves, na época responsável pela aceitação dos vistos de trabalho. Desde então, o assunto foi superado. As empresas chinesas trazem executivos, diretores e gerentes — mas não operários. Os executivos que vêm para o Brasil saem, em sua maioria, da classe média ascendente: estudaram nas melhores universidades da Europa e dos Estados Unidos, falam inglês fluentemente e já viveram em outros países. Quase todos retornam para a China após alguns anos, ou são enviados para liderar novos negócios em outros países. Isso explica por que a maior parte deles nem se preocupa em aprender português. Muitos não fazem questão de vencer o abismo cultural entre os dois países, seja no idioma, nos costumes ou mais prosaicamente na culinária. As empresas chinesas costumam construir refeitórios próprios com o cardápio adaptado ao paladar dos orientais. Foi o que fez a Huawei, a segunda maior produtora de celulares do mundo, em seu escritório no Rio de Janeiro.

Presente – O prédio da União Africana, na Etiópia, onde Lula faria palestra, foi construído pela China Per-Anders Pettersson/.

Os brasileiros também precisam se adequar, sobretudo aqueles dispostos a selar negócios com os chineses. Os bancos contratam tradutores para adaptar todos os documentos para o mandarim. Isso porque, apesar de os executivos falarem bem o inglês, qualquer negociação firmada pela China passa pelo crivo de diversos níveis hierárquicos. “É diferente de negociar com americanos. Demanda paciência e muito diálogo”, diz Eduardo Centola, sócio do Banco Modal. Essas conversas de negócios geralmente acontecem em jantares, e os chineses gostam quando o anfitrião oferece a própria casa. É sinal de confiança e transparência. O baijiu, uma aguardente chinesa feita com cereais, é indispensável nessas ocasiões. O anfitrião convoca o brinde e, quanto mais perto do chão acontece o toque entre os copos, maior o respeito demonstrado. O ritual faz toda a diferença na hora de selar o contrato.

Na Europa e nos Estados Unidos, o avanço das aquisições chinesas encontrou obstáculos. O governo de Donald Trump chegou a cogitar a ideia de construir uma rede pública para a telefonia 5G, para evitar que o sistema caísse nas mãos dos estrangeiros. No Brasil, até o momento, as resistências são menores, mas executivos da área de telecomunicações (toda ela na mão de estrangeiros, aliás) mostraram preocupação com a possível compra da Oi pelos chineses. Temem a falta de transparência. É duvidoso que o próximo presidente se disponha a criar problemas diplomáticos com o principal parceiro comercial do Brasil. “Qualquer governo mitigará esse discurso”, diz Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior. Se as regras forem seguidas, qual a diferença se o investidor é mexicano, americano, espanhol ou chinês?

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Inteligência chinesa no trânsito brasileiro

Aprendizado – Moraes, da 99: novo aplicativo feito em parceria com a DiDi Marcio Bruno/Divulgação

A compra da 99 pela chinesa DiDi Chuxing, a startup mais valiosa do mundo, vai acelerar o acesso da empresa brasileira às tecnologias mais avançadas em aplicativos de transporte. Essa é a expectativa de Matheus Moraes, um dos diretores da 99. A parceria, que começou um ano atrás, quando a DiDi entrou como sócia minoritária do grupo brasileiro, já rendeu frutos: uma nova versão do aplicativo, com base na inteligência desenvolvida pela DiDi no mercado chinês, o maior do mundo. Leia a seguir a entrevista de Moraes.

Como a venda para a DiDi Chuxing vai impactar a 99?Estive duas vezes na China no último ano, e uma das coisas que mais me impressionaram na DiDi foi a grandiosidade do que eles querem construir. Isso significa que vamos conseguir trazer as inovações da maior startup do mundo para o Brasil. Já havia uma parceria estreita. Mas agora somos uma empresa só com o mesmo objetivo. O que há de mais avançado no mundo em mobilidade vem da China. O Brasil terá acesso a essa tecnologia de ponta.

Não são mercados com realidades distintas? China e Brasil têm desafios de transporte muito mais semelhantes do que, por exemplo, Brasil e Estados Unidos. Claro que a escala chinesa é muito maior, mas a necessidade da população de um transporte que seja rápido, barato e seguro é a mesma. A renda média e o índice de posse de automóveis são similares. O brasileiro gasta em torno de 20% do salário com transporte. Reduzir essa fatia causará um impacto significativo na vida de milhões de pessoas.

Qual a contribuição chinesa para o novo aplicativo?As tecnologias que se tornam mais precisas e eficazes com base no aprendizado com as próprias experiências do usuário. Quanto maior a utilização, melhor o aplicativo. A DiDi faz mais de 20 milhões de corridas por dia na China. É muito mais do que qualquer outra empresa. No novo aplicativo, quando o passageiro pede uma corrida e a solicitação é disparada para os motoristas, o sistema aumenta a eficiência do processo para garantir que o passageiro seja atendido pelo motorista mais próximo, e não por quem aceitar a corrida primeiro.

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O que vem pela frente em termos de novas tecnologias?Na China, o sistema consegue prever picos de demanda por corridas em alguns bairros com antecedência de quinze minutos. Há 85% de acerto nessas previsões. Isso permite direcionar parte da frota para essas áreas para que os passageiros sejam atendidos em menor tempo.

Marcelo Sakate


Hora de investir

Avanço – Li, presidente da Three Gorges Samir Hoffschineider/Divulgação

Nos anos 90, uma missão de engenheiros da China Three Gorges (CTG), empresa criada para tocar a construção da gigantesca usina de Três Gargantas, desembarcou por aqui para conhecer Itaipu. Duas décadas depois, a CTG voltou para investir. Dona de quinze usinas, é a maior empresa de geração de energia do país, depois das estatais nacionais. O presidente da operação brasileira da CTG, Li Yinsheng, falou a VEJA.

Por que o interesse em projetos brasileiros?  O Brasil possui características que qualquer investidor estrangeiro procura: é um país pacífico, aberto para investimentos estrangeiros, com mão de obra qualificada, potencial de crescimento. A tendência de desenvolvimento vai além das recentes flutuações do mercado no curto prazo. As oportunidades de troca de conhecimento entre os dois países são enormes.

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Existem políticos preocupados com a “invasão chinesa” no setor de infraestrutura. Como o senhor vê a possibilidade de um nacionalista ser eleito presidente? Como qualquer outra empresa, devemos cumprir as leis. Mas não se pode esquecer que os investimentos vindos da China ou de outros países criam oportunidades de negócios e empregos para o Brasil. Uma vez que estamos operando de acordo com as leis locais, somos uma empresa brasileira. O próximo presidente terá a tarefa fundamental de gerar riquezas após anos de recessão.

Como avalia a privatização da Eletrobras?  Ainda não está claro como e quando isso vai ocorrer. Então, é muito cedo para dizer algo sobre a Eletrobras. É melhor esperar.


Arte/VEJA

Publicado em VEJA de 7 de fevereiro de 2018, edição nº 2568

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