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Vitor Hugo: o ‘Cabeção’ de Bolsonaro se equilibra entre intrigas e missões

Aos 42 anos, o deputado é um dos poucos nomes de confiança do presidente no Congresso

Por Marcela Mattos - Atualizado em 20 abr 2020, 10h26 - Publicado em 19 abr 2020, 18h27

O cargo de líder do governo costuma ser envolto de prestígio. Por ser o parlamentar responsável pelo canal direto entre o presidente da República e o Parlamento, seu telefone é frequentemente acionado, os passos são acompanhados por uma tropa de congressistas, assessores, jornalistas e bajuladores, e a presença é requisitada em encontros com representantes de grandes partidos. É assim que funciona – ou, ao menos, funcionava. Durante os 16 meses em que ocupa o cargo de líder do governo na Câmara, o deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO) não raro é avistado sozinho no plenário. Sua presença incomoda alguns congressistas: ele já até acabou defenestrado de reuniões tocadas pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Aliás, há pouco tempo, uma discussão entre os dois quase descambou para os sopapos, e parlamentares tiveram de intervir. As intrigas vão além do Parlamento. O deputado chegou a ser “demitido” diversas vezes por auxiliares do presidente. Apesar do tiroteio, Bolsonaro segura Vitor Hugo no cargo e vem lhe entregando novas missões durante a crise do coronavírus.

Na última semana, por exemplo, o líder, carinhosamente chamado pelo presidente de “Cabeção”,  foi acionado para participar da reunião do Conselho de Governo no Palácio do Planalto – a presença de parlamentares em reuniões da alta cúpula não é usual. Sentado na cabeceira da mesa e ao lado do vice-presidente Hamilton Mourão, coube a Vitor Hugo abrir o encontro para passar um aviso: o governo decidiu fazer acenos ao Congresso. Ao deputado, foi incumbida a dura missão de aproximar o Executivo de deputados do chamado do centrão – tratado até então como inimigo pelo presidente e seus apoiadores, mas cujos votos são indispensáveis para garantir a aprovação de projetos.

Bolsonaro vem mantendo reuniões com lideranças desse time – estiveram com ele parlamentares como Arthur Lira (PP-AL), Marcos Pereira (Republicanos-SP) e Ciro Nogueira (PP-PI). Nos últimos dias, Vitor Hugo e o ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) fizeram duas conferências com representantes do centro. Um detalhe não passou despercebido: Rodrigo Maia não foi chamado para esses encontros. Hoje, ele é tido como o mandachuva do centrão, mas o governo, em pé de guerra com o deputado do DEM, trava uma estratégia para construir pontes que passam à margem da figura mais importante da Câmara. A aproximação entre o Legislativo e o Executivo, como se vê, já começa intrincada. E o resultado até aqui pode ser resumido por uma liderança que participou do processo: “Não está adiantando nada”. Depois de o governo estimular atos contra o Congresso e manter uma gestão sem base no Legislativo, de fato não era esperado que a missão fosse fácil.

Vitor Hugo também esteve na linha de frente da criação de um auxílio de 600 reais para trabalhadores informais. Inicialmente, o governo propôs um repasse de 200 reais por mês aos profissionais de baixa renda – valor que foi tratado como uma ninharia pelo Parlamento. Rodrigo Maia avisou à equipe econômica que o subsídio seria ajustado para 500 reais. O governo logo acionou o sinal de alerta e viu a iniciativa como um esforço do Congresso em assumir a paternidade da ajuda financeira – justamente a primeira medida federal a chegar aos mais necessitados nesse momento de crise. O contra-ataque veio a reboque.

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O ministro Paulo Guedes (Economia) e o líder do governo pactuaram o valor de 600 reais, justamente por ser acima do que os parlamentares almejavam. O plano era manter a cifra em sigilo total. A Secretaria de Governo já tinha deixado pronta uma nota confirmando o novo valor, que seria divulgada logo após o anúncio, em plenário, da “generosidade” do Executivo. O plano todo funcionou e o projeto acabou aprovado. Só um detalhe saiu do trilho: momentos antes da votação, coube ao próprio Bolsonaro “furar” seus auxiliares e anunciar para apoiadores no Palácio da Alvorada o novo valor do auxílio emergencial. O presidente queria dar a boa notícia.

A aprovação do auxílio financeiro rendeu um inédito elogio de Rodrigo Maia ao líder do governo, feito do microfone da tribuna. Duas semanas antes, porém, o clima era outro. Durante reunião para tratar das pautas econômicas em meio à crise do coronavírus, Vitor Hugo propôs a privatização da Eletrobras, o sonho de consumo de Paulo Guedes. Maia torceu o nariz e logo o interrompeu, dizendo que não havia consenso neste tema. Os dois começaram a discutir, e, aos gritos, o líder do governo chamou o presidente da Câmara de ditador. Parlamentares que estavam presentes tiveram de apartar a confusão.

Desde que assumiu a liderança, Vitor Hugo é tratado como um parlamentar inexpressivo e sem nenhuma influência. As críticas partiam inclusive de dentro do bolsonarismo. O ex-ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e a ex-líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann, viviam em pé de guerra com ele nos bastidores, em uma clara queda de braço por poder. Ambos perderam o posto. Durante o carnaval deste ano, a oficialização da “demissão” de Vitor Hugo chegou por meio de uma mensagem enviada por um assessor palaciano. O texto informava que o deputado seria desligado da liderança, e que o presidente Jair Bolsonaro faria, no dia seguinte, o anúncio do deputado Osmar Terra em seu lugar. Ao amanhecer, então, Vitor Hugo foi até Bolsonaro para se despedir. Encontrou um presidente sorridente e que negou ao “Cabeção” qualquer mudança. O processo de fritura acabou creditado ao ministro Ramos, outro braço-direito de Bolsonaro.

Malária e contraterrorismo

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Vitor Hugo conheceu Bolsonaro em 2015, quando entrou na Câmara dos Deputados como consultor legislativo. Antes, ele era major do Exército, onde tinha o apelido de Zero Um: foi o primeiro colocado do Brasil para a Escola Preparatória de Cadetes, primeiro colocado da Academia Militar das Agulhas Negras e também ocupou a mesma posição no curso de Comandos. Nas Forças Especiais, atuou em ações de infiltração e contraterrorismo. Em uma das missões, na Costa do Marfim, em 2004, chegou a pegar malária por cinco vezes – supõe que, no tratamento, tenha tomado os comprimidos da agora famosa cloroquina.

O currículo do mais novo concursado da Câmara chamou a atenção de Bolsonaro. “Quem é o major F.E. [Forças Especiais] que chegou?”, questionou o então deputado federal, ao entrar na sala do servidor público. Os dois logo se aproximaram. No ano seguinte, Vitor Hugo escreveu um projeto que endurece o sistema de prevenção e combate ao terrorismo no Brasil. Ao ler a proposta, Bolsonaro não apenas gostou, como a assinou, passando a ser de autoria dele. O texto não avançou e, no ano passado, foi reapresentado por Vitor Hugo. Temendo ataques ao país, Vitor Hugo defende no projeto, por exemplo, métodos “mais rigorosos e intensos” no treinamento dos combatentes, assim como a proibição das demonstrações das ações, para mantê-las ainda mais sigilosas. A proposta tende a dificultar a formação dos contraterroristas. No curso de Comandos de Vitor Hugo, por exemplo, dos 59 que começaram, apenas sete conseguiram se formar.

Deputado de primeiro mandato, o major entrou na política pelas mãos de Bolsonaro, que gravava vídeos dizendo: “Se é amigo do Vitor Hugo, é meu amigo também”. Vitor Hugo passou a viajar Brasil afora com o presidenciável, o que lhe rendeu 31.190 votos pelo PSL de Goiás. Os votos não seriam suficientes para a eleição, mas Vitor Hugo surfou no expressivo apoio de delegado Waldir (PSL), que teve mais de 274.000 votos e garantiu a eleição do amigo de Bolsonaro.

Sempre seguindo os passos do presidente, Vitor Hugo já não fala mais com Waldir. O rompimento também se estendeu a Ronaldo Caiado, governador de Goiás que o apoiou na campanha. “Até por uma coerência de  função, eu nunca vou discordar publicamente do Bolsonaro. Se ele fizer algo contrário do que eu penso, por lealdade, teria que pedir pra sair”, afirma. Entre tropeços e acertos, temos aí a fórmula para a sua sobrevivência.

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