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Peças incompletas, livros omissos

A ficção e a leitura são forças contrárias à desinformação digital

Por João Cezar de Castro Rocha 19 abr 2019, 07h00
  • Em 2 de abril, logo após visitar o Memorial do Holocausto, em Israel, o presidente Jair Messias Bolsonaro nem respirou fundo para anunciar a novidade anacrônica: o nazismo foi um movimento de esquerda. (Volver?)
  • Em 1599, William Shakespeare concluiu Henrique V, um elogio tocante à ideia de ficção, ou seja, à capacidade de conceber mundos por meio da imaginação traduzida em palavras.
  • Num tuíte redigido com dificuldade angustiante, Eduardo Bolsonaro duvidou da relevância de Paulo Freire. Solidário, e sempre inspirado, Carlos Bolsonaro voou voou subiu subiu: “É simples entender porque o PT, PSOL, PCdoB defendem método Paulo Freire alinhado com chás e bolos com ervas e recheios ilegais”. Agramatical, a forma ilustra involuntariamente o conteúdo.
  • Eis o desafio: como tornar o palco do The Globe num cenário crível para emular o mais importante triunfo da história inglesa, a Batalha de Azincourt, que em 1415 consagrou o rei Henrique V? Como resposta, Shakespeare inventou um mundo próprio: para assistir à peça, melhor fechar os olhos.
  • No Memorial do Holocausto, o nazismo é definido como um movimento de direita. Os partidos políticos da Alemanha, de todos os tons do espectro ideológico, reagiram com indignação às afirmações excêntricas do presidente Bolsonaro.
  • Shakespeare superou o contratempo iluminando a potência da ficção (na tradução de Carlos Alberto Nunes): “Valendo-se tão só de asas fictícias, a nossa cena se desloca com rapidez não menos admirável do que a do pensamento. (…) Sede bondosos; demonstrai talento e a peça completai com o pensamento”.
  • Machado de Assis apreendeu a lição shakespeariana em Dom Casmurro: “Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não achei nele!”.
  • Paulo Freire foi agraciado com dezenas de títulos de doutor honoris causa por universidades em todo o mundo. Pesquisa internacional recente mostra que, pelo conjunto de suas dezenas de obras traduzidas para diversos idiomas, ele é o terceiro autor mais citado na área das humanidades. “Você acha que eu acredito na manipulação da mídia globalista? Olha aí: Paulo Freire não tem seguidores nas redes sociais… Viu?! Como? Ele faleceu em 1997? E daí? Vai dar desculpinha agora?!”
  • No império da (in)cultura digital, tudo de que o mundo precisa é o exercício criativo exigido por autores como Machado de Assis, isto é, a leitura literária pode tornar-se o antídoto contra as fake news e a má-fé tornada método. As milícias da mentira têm pernas curtas e apostam na confusão geral — geleia do caos sem o qual retornarão ao laborioso anonimato de sua mediocridade. Elas não contam com a astúcia dos leitores de Shakespeare, que, pelo contrário, nunca se esquecem de seu papel revolucionário: “Supri com o pensamento nossas imperfeições”.

Publicado em VEJA de 24 de abril de 2019, edição nº 2631

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