O papel de Galípolo na descoberta do esquema de corrupção do Master
Corregedoria-Geral do Banco Central confirmou suspeitas graves envolvendo Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, enviou em janeiro deste ano um ofício ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, comunicando suspeitas de corrupção envolvendo dois funcionários do alto escalão do órgão que atuavam na supervisão do Sistema Financeiro Nacional.
O ofício foi anexado a um dos processos relacionados às fraudes envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro. Galípolo informou ao diretor da PF que o Banco Central tinha tomado conhecimento de possíveis ilícitos envolvendo os servidores, relacionados ao recebimento de “substanciais quantias” que teriam vínculo com o esquema.
Os dois funcionários citados na documentação eram o então chefe do Departamento de Supervisão Bancária, Bellini Santana, e o sub-chefe do mesmo setor, Paulo Sérgio Neves de Souza, investigados pela Polícia Federal por envolvimento com o esquema de Daniel Vorcaro. O presidente do BC informava que os fatos poderiam em tese se enquadrar no crime de corrupção.
O BC promoveu uma investigação interna a partir do relato de uma testemunha que prestou depoimento na condição do anonimato. Esta testemunha narrou que os dois servidores teriam recebido valores que se enquadrariam propina. A Corregedoria Geral do BC investigou os fatos e considerou as acusações muito graves. Na sequência, o chefe da autoridade monetária encaminhou as suspeitas à PF. O que não se sabia àquela altura é que Vorcaro acionava o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para tentar interceder junto a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, inclusive com a proposta de que uma operação policial fosse postergada.
Vorcaro tinha acesso a informações sobre investigações da PF e MPF
O acervo da investigação do caso Master tornado público pelo ministro André Mendonça, do STF, mostra que a equipe do banqueiro Daniel Vorcaro tinha acesso aos bancos de dados do Ministério Público Federal, sobre investigações sigilosas envolvendo o conglomerado do ex-banqueiro. Um dos relatórios da PF mostra que houve acessos aos sistemas do MPF com a utilização indevida de servidores públicos do órgão.
Segundo um dos processos relatados pelo ministro Mendonça, Daniel Vorcaro se utilizava dos serviços da “Turma” para obter informações sigilosas sobre investigações em curso. Em um dos casos, em fevereiro de 2024, Daniel Vorcaro reencaminhou para Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o ‘Sicário’, uma mensagem pedindo informações sobre um inquérito da Polícia Federal em São Paulo. Ele respondeu tempos depois com um áudio de um policial aposentado informando que já tinha feito contato com a ‘tropa’ e que dariam atenção especial ao pedido.
O acesso a informações sobre investigações sigilosas era foi feito também por intermédio de logins pertencentes a servidores públicos do Ministério Público Federal. Até o momento, diz a PF, não se sabe se os servidores foram alvos de um ataque hacker ou se anuíram com a cessão de seus dados para acesso de terceiros. Os acessos teriam sido feitos a partir de 2024. Em fevereiro daquele ano, Vorcaro enviou para Mourão a imagem de uma portaria de inquérito policial instaurado pela PF em São Paulo e afirma que está relacionado a uma investigação. Daniel Vorcaro ressalta: “consegui acesso aqui”.
Em março de 2024, Mourão encaminha a consulta de um processo no sistema Único e afirma que conseguiu “acesso total nível máx.”. No canto superior direito da imagem, consta que o acesso foi realizado por meio da conta da servidora do MPF. “Verifica-se que, embora o processo estivesse inicialmente protegido por sigilo máximo, o acesso integral foi obtido em curto intervalo de tempo, o que indica possível quebra dos protocolos de segurança da informação ou uso inadequado de prerrogativas funcionais”, diz a PF. Este inquérito policial foi instaurado para apurar cimbres contra o sistema financeiro nacional, tema, por óbvio, de total interesse de Vorcaro.







