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Derrota do PT e ascensão do PSOL mudam o jogo de forças na esquerda

Enquanto petistas amargaram resultado pífio nas urnas, psolistas se tornaram uma ameaça ao domínio do partido de Lula nesse campo político

Por Edoardo Ghirotto, Juliana Castro Atualizado em 20 nov 2020, 10h21 - Publicado em 20 nov 2020, 06h00

Quando o lento (para os padrões brasileiros) processo de totalização dos votos chegou ao fim, na semana passada, a professora da rede estadual Karen Santos, de 32 anos, mal podia acreditar: a candidata do PSOL foi a vereadora mais votada de Porto Alegre. Mulher, negra e jovem, Karen é um exemplo do perfil de político que ganhou espaço no pleito deste ano. Foram nessas novas caras que o nanico PSOL apostou para elevar seu desempenho nas urnas. Deu certo. No campo da esquerda, que no geral foi mal nessas eleições, a sigla ganhou um protagonismo inédito. Um triunfo capitaneado por mais de 1 milhão de votos que colocou Guilherme Boulos no segundo turno da disputa pela prefeitura de São Paulo contra Bruno Covas (PSDB). A legenda emplacou ainda os vereadores mais votados de cinco capitais (Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro, Recife e Aracaju), incluindo pela primeira vez na composição das Câmaras um número significativo de mulheres transexuais e de representantes dos movimentos feminista e negro. “Falamos de gênero e raça, mas também de transporte e moradia. É isso que faz o partido reverberar”, explica Karen Santos.

O relativo bom desempenho do PSOL, que ainda disputará o segundo turno em Belém com o ex-prefeito Edmilson Rodrigues, contrapõe-se ao resultado pífio do irmão mais velho, o PT, nas urnas. A presença de petistas nas câmaras municipais cairá de 2 815 vereadores para 2 665, enquanto a de psolistas aumentará de 56 para 89. “Por manter sempre um posicionamento crítico e sem adesão aos governos petistas, nos tornamos o principal desaguadouro da renovação da esquerda”, comemora o presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros. Decadente, o partido do ex-presidente Lula conseguiu ter menos prefeitos do que em 2016, quando a eleição ocorreu após o impeachment de Dilma Rousseff e no auge do antipetismo. É fato que a sigla irá disputar o segundo turno em quinze localidades, com chances de vencer no Recife e em Vitória, mas é difícil comprar a ideia propagandeada pelos dirigentes petistas — Lula incluído — de que a legenda saiu vitoriosa. “Essa é uma análise oficialesca para inglês ver”, admite um membro do diretório nacional da sigla.

OCASO - Lula: liderança em xeque pelo surgimento de novos nomes à esquerda – Mateus Bonomi/AGIF

As razões para o insucesso são muitas, mas todas convergem para uma pessoa: Lula. Em São Paulo, por exemplo, o ex-presidente fez pressão até o último minuto para que Fernando Haddad disputasse a prefeitura. Com a negativa, o partido decidiu lançar o ex-deputado Jilmar Tatto, um burocrata de passado discutível que há anos comanda a máquina partidária no município. Não funcionou. Tatto não empolgou a esquerda e terminou a disputa em sexto lugar, com 8%, o pior desempenho da história da sigla na cidade. A mesma estratégia foi utilizada na maioria das capitais, com o PT lançando candidatos próprios em vez de buscar alianças. “Para a esquerda, a votação no Boulos mostra que há uma alternativa ao PT”, diz o economista e cientista político Luiz Carlos Bresser-Pereira.

A força do PSOL na corrida eleitoral majoritária em São Paulo se desdobrou em êxito na disputa proporcional: elegeu seis vereadores, contra dois da eleição passada. Embora esteja bem longe de se tornar uma potência, a sigla, de fato, obteve resultados mais significativos que os de colegas petistas. O partido fez o vereador mais votado da cidade do Rio, Tarcísio Motta, que, reeleito, desbancou nada menos do que Carlos Bolsonaro (Republicanos), o filho Zero Dois do presidente. De tabela, ganhou mais uma cadeira, tornando-se a maior bancada carioca, com sete vereadores, ao lado de DEM e Republicanos. Em Belo Horizonte, a representante da legenda na corrida pela prefeitura, a deputada federal Áurea Carolina, teve mais votos do que o candidato do PT, Nilmário Miranda — 103 115 contra 23 331. Ou seja, na matemática eleitoral de três dos maiores colégios do país, a curva do PSOL é de crescimento, fruto das escolhas por candidatos com maior grau de empatia nos setores esquerdistas. “Esses movimentos sociais têm uma enorme representação na sociedade moderna em crise. Os partidos que não compreenderem o fenômeno vão estancar ou regredir”, diz o ex-ministro petista Tarso Genro.

Do alto da sua arrogância, Lula não aparentou (por ora) melindre algum com a ascensão do candidato do PSOL em São Paulo. A amigos, o ex-pre­sidente diz ter um sentimento de gratidão em decorrência da atuação que o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), à época chefiado por Boulos, desempenhou contra o impeachment de Dilma e a sua prisão. Na verdade, Lula sabe que o PT precisará contar com o apoio de siglas menores, como o PSOL e o PCdoB, em torno de uma candidatura presidencial em 2022. Falta apenas combinar com os demais partidos, a começar pelo PSOL, quem virá encabeçando a chapa. “É cedo para falar em alianças. O PT tem um projeto de resgate do lulismo e nós estamos propondo a renovação da esquerda”, diz Juliano Medeiros, o presidente do PSOL.

SALDO DIFERENTE - Tatto e Rodrigues: o primeiro passou vexame em São Paulo, enquanto o segundo conseguiu chegar ao segundo turno em Belém – Filipe Araújo/Fotos Públicas/Tarso Sarraf/.

Os sinais da ascensão dessa sigla sobre o território do partido de Lula podem sinalizar uma reviravolta histórica no conjunto de forças da esquerda brasileira. O PT nasceu em 1980 como um movimento de oposição à ditadura que tinha como alicerce a organização sindical, mas foi na redemocratização que ganhou força. Na primeira disputa presidencial pós-regime militar, em 1989, o partido superou o trabalhismo do PDT, representado na época por Leonel Brizola, e levou Lula ao segundo turno. A sigla acumulou derrotas nas eleições presidenciais até 2002, quando Lula cedeu aos apelos para adotar uma versão “paz e amor”, em que atenuava o discurso da época de sindicalista e abria canais de diálogo com o empresariado. Uma vez empossado presidente, passou a enfrentar a resistência de um pequeno grupo de parlamentares de uma ala mais à esquerda e que rechaçava as medidas econômicas propostas pelo governo. Expulsos do PT no fim de 2003, eles se reu­niram no ano seguinte para fundar o PSOL como um projeto de contraponto ao lulismo na esquerda. Mais recentemente, o PT viu seu capital político derreter diante dos inúmeros escândalos de corrupção, como o mensalão e o petrolão, e da péssima condução da economia.

Em paralelo, o PSOL aproveitou-se da brecha e foi ganhando popularidade entre os mais jovens ao defender causas sociais e ambientais com mais afinco do que outras siglas de esquerda, a exemplo de PDT e PSB. Nos últimos anos, ancorado na força das redes sociais, o partido conseguiu eleger políticos ligados a bandeiras de comportamento e a grupos minoritários, caso da vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em 2018. Embora esteja em sintonia com algumas demandas da atualidade, o coração dogmático do PSOL ainda bate no século passado. Em sua carta programática, a sigla prioriza um projeto de país “anticapitalista” que aponta “a grande burguesia brasileira” como “sócia da dominação imperialista”. As diretrizes, que poderiam perfeitamente constar em discursos comunistas, ajudam a entender o histórico de votação dos deputados do PSOL no Congresso, indo contra todo e qualquer tipo de reforma econômica, como foi o caso da trabalhista e da previdenciária. Uma demonstração de que a roupagem nova que trouxe o sucesso recente nas urnas não veio acompanhada da modernização das antiquadas e desastrosas ideias econômicas da esquerda.

Publicado em VEJA de 25 de novembro de 2020, edição nº 2714

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