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Com Skaf e Datena, Bolsonaro pretende conquistar São Paulo

O presidente está perto de atrair o apresentador de TV e consolidar aliança para tentar derrotar Doria e o PSDB no maior colégio eleitoral do país

Por Mariana Zylberkan Atualizado em 21 fev 2020, 10h06 - Publicado em 21 fev 2020, 06h00

O apresentador de TV José Luiz Datena está próximo de assumir o papel que lhe foi reservado na missão que vem sendo preparada desde o meio do ano passado: ser uma das peças da artilharia bolsonarista em São Paulo direcionada a derrotar o maior oponente do presidente no estado, o governador João Doria (PSDB), um dos possíveis adversários que o capitão pode enfrentar na campanha à reelei­ção em 2022. Hesitações anteriores de Datena em encarar as urnas têm gerado desconfiança entre políticos, mas, segundo o próprio, “está mais perto do que nunca a transição para a política”. A iminente candidadura é resultado de uma articulação engendrada na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista, pelo presidente da entidade, Paulo Skaf.

  • Como dono da ideia, Skaf espera colher os frutos caso a manobra seja bem-sucedida. Cada vez mais, ele se coloca como porta-estandarte do bolsonarismo no maior colégio eleitoral do país. O empresário aproximou Datena de Bolsonaro, que nunca escondeu a tietagem em torno do apresentador. Na jogada, Skaf se beneficia como credor de uma futura chancela do presidente para concorrer ao governo em 2022. A aliança com Bolsonaro é fundamental para Skaf, obcecado por conquistar o Palácio dos Bandeirantes — já tentou nas eleições de 2010, 2014 e 2018 e nunca passou para o segundo turno. A escolha de Datena começou a chegar perto de um desfecho no início do mês, quando o apresentador se encontrou com Baleia Rossi, presidente nacional do MDB, o mesmo partido de Skaf — sua filiação deve ser anunciada depois do Carnaval.

    ROMARIA - Tarcísio Freitas na Fiesp no último dia 13: a entidade virou o destino rotineiro de ministros do governo //Divulgação

    A aproximação entre Skaf e Bolsonaro teve início quando o ainda deputado federal subiu à tribuna da Câmara, em junho de 2016, para defender o presidente da Fiesp dos ataques de parlamentares de esquerda após a sede da entidade ter sido coberta de verde e amarelo para apoiar o impeachment de Dilma Rousseff. Foi nessa época que se deu o primeiro contato entre eles, quando Skaf ligou para agradecer o apoio. Mais recentemente, a afinidade entre os dois se estreitou em razão da agenda comandada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. A alta do dólar, a queda dos juros, as medidas para diminuir a burocracia das empresas e a flexibilização das regras trabalhistas têm agradado aos interesses dos associados da Fiesp. Não à toa, pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) de dezembro de 2019 mostrou que 60% dos industriais consideram o governo ótimo ou bom.

    Desde que Bolsonaro se tornou presidente, ele e Skaf tiveram sete encontros oficiais. O empresário até o acompanhou em reunião com CEOs chineses em viagem a Pequim e lhe concedeu a Medalha da Ordem do Mérito Industrial São Paulo. O icônico prédio da Fiesp também virou local de peregrinação de ministros importantes, como o próprio Guedes, Tarcísio Freitas (Infraestrutura), Sergio Moro (Justiça) e Ricardo Salles (Meio Ambiente). Na primeira semana de fevereiro, em evento em São Paulo, Skaf listou vários motivos para os empresários estarem felizes com a atual gestão e completou: “Esta casa (a Fiesp) está apoiando o governo Jair Bolsonaro. Vamos estar juntos para derrubar todos os obstáculos”. Bolsonaro retribuiu: “Skaf conseguiu emprego no meu governo, o de porta-voz”.

    O ADVERSÁRIO - João Doria: o aliado eleitoral de 2018 se tornou o principal alvo do bolsonarismo em São Paulo GovernoSP/Divulgação

    A aproximação abriu uma espécie de crise de ciúme na militância bolsonarista, que está empenhada em oficializar o Aliança pelo Brasil, partido que o presidente decidiu criar após romper em novembro passado com o PSL, sigla pela qual foi eleito. Ao receber Bolsonaro para um almoço na Fiesp no último dia 3, Skaf passou a ser apontado como a opção predileta do capitão para presidir a nova legenda em São Paulo, mas seu nome foi rechaçado de imediato por aliados de primeira hora do bolsonarismo, como Carla Zambelli e Luiz Philippe de Orléans e Bragança, deputados federais pelo PSL, que lembraram que Skaf foi citado na Lava-Jato — acusado de receber caixa dois da Odebrecht — e apoiou o socialista Márcio França no segundo turno das últimas eleições para o governo. O barulho preocupa porque são os políticos e movimentos que formam o exército comprometido na coleta das assinaturas para formalizar o Aliança no TSE.

    A gritaria desse grupo destoa, no entanto, da movimentação do próprio Bolsonaro, que dá a entender com frequência que conta com seu novo partido só para 2022. Em 2020, Bolsonaro aposta na estratégia de sinalizar apoio a candidatos que tenham condições de derrotar seus principais opositores, como Doria em São Paulo e Wilson Witzel (PSC) no Rio de Janeiro, os maiores colégios eleitorais do país. Vitorioso nesses estados em 2018 — com 68% dos votos em cada um deles —, Bolsonaro brigou com os dois aliados depois que eles deram sinais de que pretendem disputar o Palácio do Planalto em 2022. De quebra, com seu rompimento com o PSL, o presidente perdeu candidatos potenciais, como sua ex-líder no Congresso, Joice Hasselmann, que é pré-candidata à prefeitura de São Paulo. Ou seja: sem nomes expressivos em sua base e sem contar de imediato com o Aliança pelo Brasil, Bolsonaro atrai Datena para o embate municipal para, no caso de triunfo, fortalecer Skaf na disputa maior com o PSDB em 2022.

    A empreitada não é fácil. O PSDB triunfa na briga pelo governo paulista desde 1995, com a ascensão de Mario Covas ao cargo — de lá para cá, foram seis vitórias eleitorais, três delas no primeiro turno. O tucanato vai apostar principalmente no capital político de Doria — que tenta consolidar uma imagem de gestor eficiente e empenhado em atrair investimentos — para manter Bruno Covas na prefeitura enquanto espera 2022, quando o governador decidirá se tenta a reeleição ou se vai para o embate com Bolsonaro.

    Publicado em VEJA de 26 de fevereiro de 2020, edição nº 2675

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