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Apoiadores acreditam em guinada que pode levar Moro à eleição presidencial

Sob condição de anonimato, aliados de primeira hora tanto de Bivar quanto do ex-juiz confirmaram a VEJA uma autêntica operação cavalo de troia

Por Laryssa Borges Atualizado em 10 jun 2022, 08h28 - Publicado em 10 jun 2022, 06h00

Nos últimos seis meses, uma parte da classe política parecia empenhada em encontrar alguém em condições de ser apresentado como alternativa eleitoral a Lula e Jair Bolsonaro, os líderes das pesquisas de intenção de voto para presidente da República. A falta de consenso entre os diversos candidatos ao posto, a multiplicidade de interesses particulares envolvidos e a dificuldade em contornar as próprias disputas internas dos partidos, especialmente em relação ao financiamento das campanhas, inviabilizaram a iniciativa até esse momento. Sem um nome adequado, União Brasil, PSDB e MDB, as três agremiações que sustentam o projeto da chamada terceira via, se embolaram em discussões que não levaram a absolutamente nada — ou quase nada. Tucanos e emedebistas fecharam acordo em torno de Simone Tebet. Pouco empolgado com esse arranjo, o União, a maior das legendas envolvidas no processo, lançou o próprio candidato ao Planalto: o deputado federal Luciano Bivar.

Ninguém levou muito a sério a iniciativa, mas é bom prestar atenção a alguns sinais. Luciano Bivar não é um político popular fora de Pernambuco, onde ganhou notoriedade como dirigente de futebol. Em seu terceiro mandato, ele construiu a carreira no chamado baixo clero do Congresso — grupo de parlamentares de pouca expressão — e, hoje, é considerado um cacique. A ascensão se deu a partir de 2018, depois que Jair Bolsonaro se filiou ao PSL, ainda um partido nanico comandado pelo parlamentar. No fim do ano passado, já dono da maior bancada da Câmara, o PSL se uniu ao DEM e, juntos, formaram o União Brasil, que reúne 55 deputados e um caixa com 1 bilhão de reais provenientes dos fundos partidário e eleitoral. Presidente da legenda, Bivar vai definir o valor que seus correligionários receberão para financiar as respectivas campanhas. Apenas a dele, estima-se, deve ficar com 100 milhões de reais — orçamento astronômico para quem conta somente com 0,1% das intenções de voto, segundo as pesquisas. Por isso, há quem diga que existem planos alternativos por trás dessa candidatura. Os apoiadores de Sergio Moro, por exemplo, acreditam nisso.

O ex-juiz, como se sabe, deixou o Podemos em direção ao União num movimento repentino e nunca bem explicado. O antigo partido, segundo o ex-magistrado, não lhe assegurava os recursos financeiros necessários para a disputa presidencial e grupos internos ainda estariam sabotando abertamente a candidatura. Já o União não garantiu que ele seria alçado naturalmente ao posto de presidenciável, nem fechou totalmente as portas. Moro tinha como trunfo a terceira colocação nas pesquisas, mas esbarrou em alas inteiras da legenda que resistiam e resistem até hoje ao projeto. Por causa disso, sobraram duas alternativas ao magistrado: disputar a vaga de senador ou uma cadeira de deputado federal por São Paulo. Na terça-feira 7, um novo revés: o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) não reconheceu São Paulo como domicílio do ex-juiz, impossibilitando que ele dispute a eleição no estado. Perguntado sobre o futuro, particularmente sobre o rumor que circula em Brasília de que ele poderia ser candidato a vice na chapa de Luciano Bivar, o ex-juiz foi lacônico: “Por que não?”. No partido, tem gente grande discutindo algo que vai além disso.

Sob condição de anonimato, aliados de primeira hora tanto de Bivar quanto de Moro confirmaram a VEJA as linhas gerais do que seria uma autêntica operação cavalo de troia na campanha presidencial. Já é público que houve um acordo tácito entre as principais lideranças do União para inviabilizar a candidatura a presidente do ex-juiz. “Mas não existe nada que impeça ele de disputar a Vice”, ressalta um importante dirigente da sigla. Tratado nos bastidores como “hipótese”, o plano, se executado da maneira como alguns apoiadores de Moro gostariam, promoveria uma reviravolta às vésperas da eleição. O nome do ex-magistrado seria aprovado como vice na convenção do partido e, na sequência, Bivar desistiria de concorrer, deixando o caminho livre para ele. “Moro seria o candidato a presidente sem precisar passar por nenhuma instância partidária”, diz um apoiador do ex-ministro. “Essa ideia já foi discutida como hipótese, mas sua execução depende de muitas variáveis”, pondera um dos principais interlocutores do presidente do União.

Por enquanto, a viabilidade da manobra — mirabolante sob qualquer aspecto, diga-se — é considerada remota e discutida com a máxima reserva por embutir o risco de a simples especulação desencadear uma crise nas fileiras do partido. A VEJA, Luciano Bivar ressaltou que Moro seria um excelente companheiro de chapa, mas que nunca tratou desse assunto com o ex-juiz. O deputado reafirmou que ele será o candidato a presidente da República pelo União, já está elaborando o plano de governo e montando o staff de campanha (leia a entrevista). A conferir até onde isso vai. Na primeira vez que se aventurou em um projeto de tamanha envergadura, na eleição presidencial de 2006, Bivar terminou na última colocação, com 62 000 votos, ou 0,06 % do total.

“Nunca toquei nesse assunto”

Por que sua candidatura deve ser levada a sério? Me recuso a aceitar essa polarização que está aí. Não estou vendendo ilusão. Mais de 50% do povo brasileiro não tem uma alternativa e está à procura dela.

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Por que não se chegou a um consenso em torno do nome para a terceira via? Não poderíamos ficar atrelados ao PSDB e ao MDB até agosto, correndo o risco de não conseguirmos apresentar uma alternativa a Lula e a Bolsonaro. Estamos passando por um momento muito delicado na República brasileira. Não podemos brincar. Isso aqui não é um grêmio estudantil.

Muitos de seu partido não conseguem explicar por que investir em uma candidatura presidencial com menos de 1% dos votos. Para um partido do tamanho do União Brasil, o maior partido da América Latina, é absolutamente natural ter candidatura própria. Caso contrário, seríamos uma seita, uma religião, algo fundamentalista.

Qual é o destino político de Sergio Moro? Sergio Moro é um dos poucos políticos que escolhem para onde vai. Nem todos têm essa opção que ele tem. Ele tem cabelos negros, é muito jovem e tem muito campo para ajudar nosso país.

O ex-juiz pode ser o candidato a vice? Chamá-lo ou não para vice é uma discussão que não compete apenas a mim. Primeiro o Moro tem de querer e depois o partido como um todo define quem é o candidato a presidente e a vice. Nunca toquei nesse assunto com ele.

Publicado em VEJA de 15 de junho de 2022, edição nº 2793

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