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Sem Kim no poder, aumenta temor sobre instabilidade na Coreia do Norte

Rumores sobre o estado grave de saúde do Líder Supremo geram preocupações sobre vácuo de poder no país, que mantém ativo seu programa nuclear

Por Julia Braun - Atualizado em 22 abr 2020, 17h41 - Publicado em 22 abr 2020, 17h34

Rumores sobre a saúde do ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, despertaram preocupação sobre uma possível uma crise de instabilidade no país, gerada pelovácuo de poder. Especialistas afirmam que, caso Kim esteja impossibilitado de continuar no governo, o mais provável é que ele seja substituído por alguém de sua própria família, já que a linhagem de sangue é muito importante no país. O período de mudança, contudo, pode ter consequências.

Segundo fontes da Inteligência americana, o ditador de 36 anos está hospitalizado em estado crítico após ter sido submetido a uma cirurgia cardiovascular no início do mês. A informação foi desmentida por autoridades da Coreia do Sul e da China, mas ainda assim gerou grande especulação mundial sobre o futuro da Coreia do Norte. O regime ainda não se pronunciou oficialmente.

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“A morte de Kim Jong-un criaria grande confusão e preocupação, já que a Coreia do Norte é governada por um regime familiar e tudo está sob constante vigilância”, aponta Soojin Park, pesquisadora do think tank Wilson Center, de Washington, e ex-porta-voz adjunta do Ministério da Unificação da Coreia do Sul. “Além disso, o país desenvolve armas nucleares, e a falta de um líder pode trazer muitos problemas e conflitos nessa área”.

A pesquisadora alerta que o mundo deve estar preparado para mudanças dramáticas em Pyongyang. Mas também deve analisar a situação com racionalidade, já que os rumores podem ser falsos e rapidamente desmentidos pelo regime.

A Coreia do Norte desenvolve seu programa nuclear desde a década de 1970 como estratégia de sobrevivência do regime fundado por Kim Il-Sung, avô do Líder Supremo. O investimento ganhou novas proporções desde 2014, quando Kim Jong-un ascendeu ao poder. Desde então, testes balísticos e nucleares tornaram-se frequentes, ressuscitando o fantasma da ameaça nuclear em toda a Ásia e, inclusive, nos Estados Unidos.

O governo americano, comandado por Donald Trump, se envolveu nos últimos anos em diálogos diretos com Kim para negociar a desnuclearização da Península Coreana. Mas as negociações entre Pyongyang e Washington estão praticamente em impasse desde que uma reunião de cúpula no Vietnã, em fevereiro do ano passado, terminou em desacordo sobre o alívio das sanções impostas pelos americanos contra a Coreia do Norte. Sem o fim das sanções, o regime deixou claro que não recuará em seus programas nuclear e de mísseis balísticos.

“A lacuna de poder pode gerar uma disputa preocupante”, diz Alexandre Uehara, membro do Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos e professor no Curso de Relações Internacionais da ESPM. O especialista, contudo, afirma que o atual ditador conseguiu construir uma imagem poderosa de liderança e até de carisma dentro do seu país e na cena internacional, o que pode auxiliar no momento de decisão sobre o próximo líder.

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Justamente para dar continuidade ao trabalho de Kim Jong-un, de seu pai e avó, é muito provável que a sucessora escolhida pelo o ditador seja sua irmã mais nova, Kim Yo-Jong, de 31 anos. Ainda que forças internas do Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC) tentem se apoderar do poder, será difícilpara elas reunir apoio suficiente para derrubar a monarquia familiar.

“Até o momento, tendo como base a forma como a Coreia do Norte opera e a vigilância que o país impõe sobre a população, é muito difícil imaginar que haja qualquer tentativa de golpe”, diz Park. “A Coreia do Norte não funciona como outras sociedades, mesmo aquelas não-democráticas. Todas as pessoas passaram por uma lavagem cerebral e foram educadas para não se revoltar”.

As consequências da mudança no governo para a população, contudo, também preocupam os especialistas. Um vácuo no poder pode significar um abandono ainda maior dos norte-coreanos pelo Estado. A maior parte população já vive em situação precária. Relatório do Programa Alimentar Mundial (PAM) da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado em 2018 mostrou que 40% dos norte-coreanos necessitam de ajuda humanitária. Nas áreas rurais e afastadas de Pyongyang, a situação de fome e miséria costuma ser mais perceptível.

Os rumores

Na noite de segunda-feira 20, a emissora americana CNN confirmou com fontes do Departamento de Inteligência dos Estados Unidos que Kim estava em estado grave após uma cirurgia cardiovascular no início de abril. O jornal sul-coreano Daily NK, especializado na cobertura da Coreia do Norte, também afirmou que o ditador estava recebendo tratamento em um resort no Monte Kumgangsan, na costa leste do país.

Ainda segundo o NK, a saúde de Kim teria se deteriorado nos últimos meses devido ao tabagismo, à obesidade e as longas horas de trabalho. Especulações aumentaram após o ditador não ter comparecido nas festividades de 15 de abril, aniversário do avô, Kim Il-sung, fundador da Coreia do Norte morto em 1994. A última vez que o líder foi visto se deu quatro dias antes, em uma reunião do governo.

Nesta terça-feira 21, contudo, um porta-voz da Presidência da Coreia do Sul afirmou ao jornal The Guardian que “não há nada para confirmar os rumores” e que “nenhum movimento especial foi detectado” dentro do país até agora. Uma fonte do Departamento de Relações Internacionais do Partido Comunista da China também afirmou não haver indícios de que Kim esteja doente. Mas, nesse caso, admitir ter informações sobre o estado de saíde do líder norte-coreano, como fez os Estados Unidos, também significa reconhecer oficialmente movimentação de sua rede de espionagem no país mais fechado do mundo.

Até o momento não há confirmação oficial do regime sobre a saúde do ditador. Esta não é a primeira vez que relatos contraditórios confundem a comunidade internacional. Em 2014, Kim ficou fora dos holofotes por quase seis semanas, despertando rumores sobre sua morte. Após mais de um mês, contudo, o líder reapareceu usando uma bengala. A Inteligência sul-coreana afirmou que ele havia passado por uma cirurgia para remover um cisto do tornozelo, mas o governo norte-coreano nunca esclareceu a questão.

“A Coreia do Norte não teria interesse nenhum em divulgar detalhes do que aconteceu, caso seja mesmo verdade que ele passou por uma cirurgia”, aponta Alexandre Uehara. “Novos fatos podem causar grande preocupação e movimentação interna, já que o processo sucessório é complexo e não está totalmente claro neste momento”.

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