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Coreia do Sul e China negam rumores sobre saúde de Kim Jong-un

Coreia do Norte mantém população sob vigilância e usa mão de ferro e tecnologia para esconder o que se passa dentro de suas fronteiras do resto do globo

Por Julia Braun - 21 Apr 2020, 11h22

Fontes dos governos da Coreia do Sul e da China negaram rumores de que o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, estaria em estado grave após passar por uma cirurgia cardiovascular no início do mês. A informação foi divulgada na noite de segunda-feira 20 pela imprensa americana, mas rapidamente desmentida por membros da alta cúpula de Seul e Pequim nesta terça-feira, 21. A Coreia do Norte não se manifestou. Diante da contradição das informações e da falta de acesso ao que acontece na política norte-coreana, o mistério perdura.

Somente em um país como a Coreia do Norte, que controla totalmente o acesso de seus cidadãos a qualquer informação do mundo exterior e usa avançadas tecnologias e mão de ferro para impedir o vazamento de dados para o restante do globo, seria possível esconder um acontecimento tão significativo como a internação em estado gave de um chefe de Estado, por exemplo.

“A Coreia do Norte mantém um bloqueio de informações em seu país e seu regime limita as interações entre estrangeiros e sua população, dificultando a verificação de qualquer acontecimento”, diz o professor e especialista em política coreana da Universidade Católica da América, em Washington, Andrew Yeo. “Atualmente, existem apenas alguns diplomatas, funcionários da ONU e ONGs no país, e seu movimento é muito restrito”.

Na noite de segunda, a emissora americana CNN confirmou com fontes do Departamento de Inteligência dos Estados Unidos que Kim, de 36 anos, estava em estado grave após uma cirurgia cardiovascular no início de abril. O jornal sul-coreano Daily NK, especializado na cobertura da Coreia do Norte, também afirmou que o ditador estava recebendo tratamento em um resort no Monte Kumgangsan, na costa leste do país.

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Ainda segundo o NK, a saúde de Kim teria se deteriorado nos últimos meses devido ao seu vício no cigarro, obesidade e longas horas de trabalho. Especulações aumentaram após o ditador não comparecer às festividades de 15 de abril, aniversário do avô dele, Kim Il-sung, fundador da Coreia do Norte, que morreu em 1994. Kim foi visto quatro dias antes em uma reunião do governo.

Nesta terça, contudo, um porta-voz da Presidência da Coreia do Sul afirmou ao jornal The Guardian que “não há nada para confirmar os rumores” e que “nenhum movimento especial foi detectado” dentro do país até agora. Uma fonte do Departamento de Relações Internacionais do Partido Comunista da China também afirmou que não há indícios de que Kim esteja doente.

“A recente ausência de Kim Jong-un em um grande evento anual em homenagem a seu avô e fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung, dá boas razões para acreditar que ele possa estar com problemas de saúde”, avalia Andrew Yeo. “É claro que, a menos ou até que o governo norte-coreano confirme isso, o mundo continuará apenas tentando adivinhar”.

Vigilância constante

A Coreia do Norte se esforça constantemente para manter o país selado do restante do mundo. O governo mantém a população sob um sistema de supervisão constante, sem acesso à internet e apenas com permissão para assistir a canais de televisão e rádios oficiais. Smartphones, computadores e filmes estrangeiros circulam no país, mas ainda de forma restrita.

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Além disso, todos os dispositivos disponíveis para compra são estrategicamente modificados pelo governo para monitorar todos os movimentos dos cidadãos. Qualquer conexão com o mundo exterior ou acesso a site de notícias estrangeiro, por exemplo, poderia ser detectado e punido com pena de prisão. O regime também controla a única operadora telefônica do país e bloqueia ligações internacionais não autorizadas.

“A Coreia do Norte vive em um sistema de controlado por um único indivíduo. Kim Jong-un, seu pai e seu avô mantiveram seu poder por meio desse sistema de governança individual”, explica Kim Hyun-wook, professor da Academia Nacional Diplomática da Coreia. “Esse sistema tem muitas fraquezas, pois é instável. Para superar isso, o regime educou seu povo de maneira distorcida e desenvolveu muitas maneiras de controlá-lo por meio do sistema de controle coletivo e do desvio da imprensa”.

Da mesma forma que mantém seus cidadãos no escuro sobre o que acontece fora da Coreia do Norte, a ditadura também tenta esconder o que se passa dentro de suas fronteiras do resto do globo. Desde a década de 90, quando o país enfrentou uma onda de escassez de alimentos e uma crise de fome, o regime foi obrigado a fazer vista grossa para os mercados negros que vendem alimentos a baixo custo para parte da população. Com o tempo, os traficantes também passaram a vender objetos vindos da Coreia do Sul e da China, assim como aparelhos de informática e DVDs com filmes estrangeiros.

Diante do temor de que os novos dispositivos pudessem tirar seu controle social, o Partido dos Trabalhadores da Coreia passou a investir em avançadas tecnologias para bloquear qualquer tipo de intervenção externa. A inteligência norte-coreana também se especializou em técnicas de proteção contra invasões e hackers, treinando seus próprios profissionais.

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Um relatório produzido pela Intermedia, um grupo de pesquisa americano, e divulgado em 2017, mostra como o país se desenvolveu e progrediu desde a década de 90. “De várias maneiras, a expansão da informação continua”, diz Nat Kretchun, principal autor do relatório, no documento. “Mas também vemos muitos sinais de que o governo norte-coreano está se preparando para combatê-la.”

Da mesma forma que controla a tecnologia, a Coreia do Norte também limita a entrada de turistas e funcionários de governos e organizações internacionais em seu território. Todo convidado que tem seu acesso liberado é monitorado constantemente por guardas e funcionários do regime, e só tem permissão para circular em áreas restritas, destinada somente aos estrangeiros, onde praticamente não há contato com o restante da população.

É dessa forma, por exemplo, que o país consegue evitar que organismos internacionais tenham acesso à situação da epidemia de coronavírus na nação. Após semanas negando que havia casos confirmados da doença em seu território, o regime divulgou nesta semana a alguns cidadãos que, desde o final de março pelo menos, há infecções pelo vírus.

A hipóteses de que a Coreia do Norte já havia sido atingida pela pandemia foi levantada por diversos estudiosos e especialistas, mas demorou a ser confirmada oficialmente pelo Partido dos Trabalhadores.

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Os rumores

As informações sobre a saúde de Kim Jong-un foram divulgadas primeiramente pela Inteligência dos Estados Unidos, possivelmente em um caso de espionagem internacional que conseguiu quebrar as barreiras do regime. Não há como comprovar os rumores, a menos que o próprio governo norte-coreano se pronuncie sobre o caso, o que ainda não aconteceu.

A China, considerada um dos únicos aliados de Pyongyang na atualidade, dificilmente admitiria ter informações privadas sobre o regime. A Coreia do Sul, que trabalha em um processo de paz com o Norte, pode também enxergar inconvenientes em admitir possuir dados privados sobre o governo ditatorial, ainda que seja de conhecimento geral que o país monitora o regime de Kim Jong-un por meio de espionagem.

Esta também não é a primeira vez que relatos contraditórios sobre a saúde do ditador confundem a comunidade internacional. Em 2014, Kim ficou fora dos holofotes por quase seis semanas, despertando rumores sobre sua morte. Após mais de um mês, contudo, o líder reapareceu usando uma bengala. A inteligência sul-coreana afirmou que ele havia passado por uma cirurgia para remover um cisto do tornozelo, mas o governo norte-coreano nunca esclareceu a questão.

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