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Racismo ainda é obstáculo para conquista de direitos civis nos EUA

Legado de Martin Luther King não foi suficiente para que o país superasse a desigualdade racial e social e as injustiças no sistema judicial

O legado de Martin Luther King ainda permanece vivo para a maioria dos americanos. Porém, 50 anos após seu assassinato, suas palavras ainda são incômodas e mais relevantes do que nunca em um país – e mundo – que permanece extremamente dividido por questões raciais e sociais.

King condenava três grandes males americanos: o racismo, o militarismo e a exploração econômica. Sua receita para a mudança incluía uma “redistribuição radical do poder econômico e político” para promover a justiça racial e social.

Mas os Estados Unidos ainda estão longe de superar esses obstáculos. Após dois governos de Barack Obama, o primeiro presidente negro do país, a eleição de Donald Trump e a aplicação de suas políticas conservadoras, anti-imigração e de cunho militar representaram para muitos um retrocesso em muitas dessas questões.

“As estatísticas vêm nos mostrando como os afro-americanos ainda vivem em constante desigualdade quando se trata de saúde, segurança e educação, além de em desvantagem em oportunidades econômicas”, diz Alejandra Y. Castillo, CEO da YWCA USA, organização que luta contra o racismo e o machismo no país. “Mesmo 50 anos após a luta de Martin Luther King por direitos civis e econômicos, essa discussão ainda é de extrema importância não só para os negros, mas para todo o país. ”

Um estudo recente do Census Bureau americano mostra que a desvantagem em relação a oportunidades econômicas no país é tão grande, que mesmo meninos negros nascidos em famílias ricas e nos bairros americanos mais desenvolvidos ainda recebem salários mais baixos e tendem a ter condições socioeconômicas piores em sua vida adulta.

A discussão sobre o racismo no país ganhou força nos últimos anos em razão do crescimento de movimentos e protestos contra violência policial, encarceramento em massa da população negra e a constante descriminação institucional e estrutural do governo e sociedade americana.

“Houve um grande progresso na direção da igualdade racial nos Estados Unidos desde 1968”, afirma Esmeralda Simmons, diretora executiva do Centro para a Lei e Justiça Social, em Nova York. Porém, segundo a ativista, os direitos civis que foram tão dificilmente conquistados durante 300 anos de resistência e pelos movimentos das décadas de 50 e 60 foram reduzidos durante as últimas décadas.

A anulação em 2013 de parte do Ato de Direitos do Voto, aprovado em 1965 graças aos esforços de Luther King, tem prejudicado o acesso às urnas. A legislação estipulava que Estados com históricos de discriminação racial eram obrigados a submeter à aprovação federal qualquer mudança em suas regras eleitoral.

Em quase metade do país, estão em vigor novas leis que exigem a apresentação de documento com foto no dia da eleição, o que cria obstáculos para negros e pobres votarem. Os pleitos também não acontecem no domingo, como no Brasil, mas em dias de trabalho normal. Quem quiser votar, tem que conciliar a ida aos postos de votação com o emprego.

A realidade para as mulheres negras é ainda mais difícil, já que são desproporcionalmente afetadas tanto pelo racismo como pela desigualdade de gênero. Uma mulher afro-americana hoje, por exemplo, tem 3 ou vezes mais chances de morrer por complicações na gravidez ou no parto do que uma branca, segundo a YWCA USA.

Violência policial e encarceramento

O recente assassinato do jovem negro Stephon Clark – que foi baleado oito vezes pela polícia de Sacramento, Califórnia, enquanto estava no quintal da casa de sua avó – e o fracasso dos promotores estaduais e federais em condenar Baton Rouge, policial de Louisiana que em 2016 matou Alton Sterling mesmo após imobilizá-lo no chão, evidenciam a brutalidade policial nos bairros de comunidades negras.

O caso de Clark foi o mais recente de uma série de mortes de homens negros pela polícia, que provocaram protestos por todo os Estados Unidos e alimentaram um debate nacional sobre preconceitos no sistema de justiça e sobre a crença americana que conecta raça e criminalidade.

“Há essa ideia equivocada de que as comunidades negras são particularmente perigosas e que mais policiais são necessários nessas regiões. Quando há mais policiamento é inevitável haver mais prisões, mais conflitos”, diz Vincent Southerland, diretor executivo do Centro para Raça, Desigualdade e Lei da Universidade de Nova York.

Segundo a entidade Sentencing Project, que defende mudanças no sistema criminal americano, de forma geral, homens negros têm seis vezes mais chances de serem presos do que os brancos. Os afro-americanos são apenas 13% da população americana, porém de acordo com o Departamento de Justiça, representam 37% da população carcerária.

Sandra Sterling, tia de Alton Sterling, lamenta durante enterro de seu sobrinho em Baton Rouge, Lousiana, nos Estados Unidos Sandra Sterling, tia de Alton Sterling, lamenta durante enterro em Lousiana- 15/07/2016

Sandra Sterling, tia de Alton Sterling, lamenta durante enterro em Lousiana- 15/07/2016 (Jonathan Bachman/Reuters)

Histórico racista e de luta

Para muitos especialistas, os Estados Unidos nasceram racistas, devido ao seu passado escravagista.

“O racismo e escravidão eram aspectos centrais da cultura americana quando este país foi formado em 1776”, diz Esmeralda Simmons. “E continuam a desempenhar um papel importante em todas as esferas de nossa sociedade e da vida de nossos cidadãos. ”

“Quando as ideias racistas foram disseminadas para apoiar o sistema de desigualdade e escravidão, elas ganharam vida própria e cresceram a partir daí”, afirma o ativista Vincent Southerland.

A descriminação estrutural e apoiada pelas grandes instituições do país impulsiona o crescimento de movimentos racistas e de supremacia branca. O episódio registrado em Charlottesville, na Virgínia, em agosto do ano passado, quando manifestantes racistas e antirracistas se enfrentaram, deixando três mortos e dezenas de feridos, é consequência direta dessa disseminação.

Se Martin Luther King pudesse observar os Estados Unidos de hoje, com certeza reconheceria o progresso conquistado em matéria de direitos civis pelo país, como a legalização do casamento homossexual e a eleição de um presidente negro. Porém, estaria certo de que é preciso continuar pressionando e de que ainda há muito para avançar.

“Se King ainda estivesse vivo, veria que o caminho pela frente ainda é longo e tortuoso”, diz Alejandra Castillo, da YWCA USA. “O processo para erradicar e eliminar o racismo é contínuo, por isso devemos permanecer lutando.”