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Para levar a sério a imagem do Brasil

Visão estereotipada do país pode ser obstáculo para a atração de investimentos e a exploração de oportunidades econômicas e comerciais

Por Creomar Lima Carvalho de Souza * Atualizado em 21 jan 2020, 11h54 - Publicado em 21 jan 2020, 07h30

O pesquisador do King’s College de Londres Daniel Buarque acaba de publicar um artigo com o instigante título: “O Brasil não é percebido como um país sério”. O autor introduz um debate necessário e urgente sobre a imagem internacional do país, um tema que merece detida reflexão. Afinal, não resta dúvida que o Brasil – qualquer que fosse o regime ou forma de governo – sempre teve um “problema de imagem”, sendo visto de maneira distante de sua realidade e aspirações.

Conforme aponta Daniel Buarque, o Brasil é visto como “um país alegre, festivo e pouco sério”. Essa visão um tanto estereotipada exagera aspectos da realidade, minimiza outros e pode provar-se um obstáculo para a atração de investimentos e a exploração de oportunidades econômicas e comerciais. Embora o país esteja bem situado como destino de investimentos estrangeiros, em particular no cenário latino-americano, a imagem distorcida é um desafio para aproveitar plenamente as nossas potencialidades.

A imagem de falta de seriedade cria percepções de pouca confiabilidade. E como sabemos, confiança é um elemento fundamental para a atração de investimentos e para consolidar relacionamentos duradouros. Nesse sentido, a ideia impregnada no imaginário coletivo global de que o país é um eterno revezamento entre o carnaval e a praia, contrasta de maneira muito forte com objetivos internacionais construídos ao longo da história nacional, em temas tão diversos como nossa aspiração de integrar o Conselho de Segurança das Nações Unidas, contribuir para a luta contra o terrorismo e ampliar nossa inserção competitiva no mundo por meio de acordos comerciais abrangentes.

É inegável, contudo, que o país segue sofrendo diante de olhares estrangeiros que variam entre a condescendência e a descrença na capacidade nacional de construir agendas duradouras. Talvez nos falte um investimento sistemático no chamado nation branding, plasmando uma marca “Brasil” que associe o país às oportunidades, à eficiência e à qualidade de seus produtos e serviços. No passado recente, a Apex-Brasil e a Embratur chegaram a esboçar esforços nessa área, mas sempre de maneira descoordenada e sem continuidade. Está na hora de mudar essa situação.

Cabe ao governo Bolsonaro e aos seus ministros com maior interlocução internacional – Paulo Guedes, Tarcísio Gomes de Freitas e Sergio Moro – assumir uma articulação mais azeitada com o objetivo de transformação das percepções de curto prazo sobre o país

O atual governo tem o desafio de transformar os olhares sobre o país a partir de ativos construídos no tempo, refletindo um Brasil real e não aquele cuja imagem distorcida, simplista e simplificadora prevalece em distintos círculos internacionais. Nesse diapasão, o governo precisa compreender que alguns tipos de discursos podem contribuir negativamente para o esforço de imagem e de transformação das percepções de acordo com os interesses e a realidade que se deseja projetar.

A crise sobre a Amazônia é ilustrativa de como uma narrativa mal conduzida pelo governo gerou uma onda de críticas que transformou o acontecimento em uma campanha global contra o país. Em termos comparativos, os incêndios na Austrália foram vistos internacionalmente como uma catástrofe de causas exógenas e, por consequência, sem grandes danos à imagem internacional do país. O fato de um país ser criticado e o outro ser objeto de solidariedade mostra, de maneira inequívoca, a necessidade de construir narrativas mais eficazes para a construção de imagens sobre si e aquilo que se deseja internacionalmente.

Cabe, portanto, ao governo de Jair Bolsonaro e aos seus ministros com maior interlocução internacional – Paulo Guedes, Tarcísio Gomes de Freitas e Sergio Moro – assumir uma articulação mais azeitada com o objetivo de transformação das percepções de curto prazo sobre o país. Afinal, 2020 é um ano desafiador, e a necessidade de atrair investimentos em infraestrutura, de retomada do crescimento e de melhoria do ambiente regulatório, exigem esse ajuste sob pena de perda do timing de integração do país nas cadeias globais de geração de valor.

Esse esforço de mostrar os avanços, sem esconder os desafios, e sofisticar a imagem do Brasil ajudará a combater preconceitos e estereótipos, projetando dessa forma as oportunidades reais que estão sendo criadas em diversas frentes por meio de um ambiente cada vez mais amigável aos negócios. É preciso profissionalizar a estratégia de imagem e de consolidação da marca Brasil, o que passa por um esforço amplo, envolvendo diversos setores de governo e da sociedade com o intuito de reforçar a comunicação e as relações públicas, mostrando que o país segue engajado em aperfeiçoar políticas públicas e enfrentar suas deficiências estruturais. Assim, será possível consolidar a imagem de seriedade que ainda nos escapa.

* Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, professor da Fundação Dom Cabral e CEO da Dharma Political Risk and Strategy.

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