Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Líbano: um país em frangalhos depois da explosão

Os libaneses vão às ruas exigir a deposição de todo o governo, acusado de incompetência e corrupção generalizada

Por Ernesto Neves, Julia Braun Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 4 jun 2024, 15h41 - Publicado em 14 ago 2020, 06h00

A devastadora detonação de 2 750 toneladas de nitrato de amônio, substância altamente explosiva que se deteriorava há anos em um depósito malcuidado no Porto de Beirute, produziu ondas de som e calor que puseram abaixo não só boa parte da capital do Líbano, como também qualquer resquício de respeito pelas autoridades. Sem emprego, sem perspectivas, até sem comida, os libaneses ocuparam a terra arrasada pela explosão para desabafar o ressentimento para com os políticos em geral, expresso na enorme faixa fincada sobre as ruínas da zona portuária com a frase “o governo fez isso” — referência ao fato de que pelo menos dois alertas sobre o perigo adormecido foram solenemente ignorados. Encostado na parede, o primeiro-ministro Hassan Diab renunciou. “Descobri que o sistema corrupto é maior do que o Estado, que o Estado está amarrado a esse sistema e que não há como nos livrarmos dele”, bradou Diab em sua despedida, como se não fosse ele mesmo parte do conjunto até um minuto antes.

Enquanto o presidente Michel Aoun não aponta um novo primeiro-ministro, o que pode levar meses, Diab permanece no cargo, com o poder esvaziado, deixando no ar negociações cruciais, entre elas a ajuda internacional para começar a mover os escombros de uma tragédia que deixou cerca de 200 mortos, 6 000 feridos, 300 000 desabrigados e prejuízos calculados em 15 bilhões de dólares. A renúncia não apaziguou os manifestantes, que exigem a saída também do presidente e novas eleições imediatas. Para os libaneses, a bomba que explodiu em Beirute tem seu rastilho no colapso político e econômico em que o país está afundado há meses.

DESGOVERNO - Daub (à dir.) entrega a renúncia ao presidente Aoun: sem saída – (Dalati and Nohra/EPA/EFE)

Políticas equivocadas do Banco Central resultaram em uma dívida pública de 150% do PIB, que faz do Líbano o terceiro país mais endividado do planeta. Nos últimos oito meses, o governo restringiu os saques nos bancos, a libra virou pó, a inflação chegou a 50% e um empréstimo de 10 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional empacou. Prevê-se que metade dos 6 milhões de libaneses cruzará a linha da pobreza este ano. Até a pandemia, que estava controlada em 7 000 casos e noventa mortes, agora registra recordes diários de contágio e óbitos. “A população está desesperada e o país, próximo da debacle total”, avalia Martin Beck, professor de política do Oriente Médio da Universidade do Sul da Dinamarca.

Entender o emaranhado libanês não é tarefa para amadores. Para satisfazer o balaio étnico-religioso que compõe o país, o governo é repartido entre dezoito grupos sectários. A fragmentação abriu espaço para que os vizinhos mais fortes se tornassem determinantes nos destinos da nação e que a meia dúzia de famílias que se alternam na cúpula política formulasse um azeitado esquema de clientelismo e propinas. No momento, a força está com o Irã, financiador do Hezbollah, grupo incluído na lista de organizações terroristas no Ocidente.

Continua após a publicidade

O Líbano moderno permaneceu, de 1920 a 1943, sob tutela francesa — daí o presidente Emmanuel Macron ter sido o primeiro a visitar a área destruída pela explosão, antes mesmo dos governantes locais. O Brasil, que enviou o ex-presidente Michel Temer em missão diplomática, tem a maior comunidade libanesa fora do Líbano, cerca de 5 milhões de descendentes de uma onda migratória iniciada nos anos 1880. “Dom Pedro II fez uma visita ao Oriente e a imprensa exaltou as riquezas minerais e agrícolas do Brasil”, explica o paranaense Roberto Khatlab, diretor do Centro de Estudos da América Latina da Universidade Saint-Esprit, no Líbano. Apesar da distância, os vínculos entre as famílias daqui e de lá são fortes e os contatos, frequentes — mais ainda agora. “Tive um primo e um tio feridos na explosão. Nós nos falamos o tempo todo”, diz a estudante Badra El Cheikh, 24 anos, neta de libaneses que mora em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro. “Só espero que o Líbano não continue afundando.” Com tanta confusão, hoje é difícil fazer algum prognóstico.

Com reportagem de Caio Saad

Publicado em VEJA de 19 de agosto de 2020, edição nº 2700

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.