Líbano condena Hezbollah e propõe plano a Israel para encerrar conflito; Tel Aviv silencia
Presidente libanês quer negociações diretas com Netanyahu, que continua combates e põe em Beirute responsabilidade de desarmar milícia apoiada pelo Irã
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, pediu negociações diretas com Israel para encerrar o conflito com o Hezbollah, milícia libanesa apoiada e armada pelo Irã. Durante uma reunião com autoridades da União Europeia na segunda-feira 9, ele apresentou um plano de quatro passos para conter as hostilidades, destilando críticas mais intensas que o comum contra o grupo xiita por arrastar o país para a guerra no Oriente Médio.
Em sua proposta, que Aoun descreveu como um caminho para “acordos permanentes de segurança e estabilidade em nossas fronteiras”, ele delineou uma “trégua completa”, que coincidiria com o desarmamento do Hezbollah e assistência internacional às Forças Armadas libanesas para ajudá-las a retomar o controle de “áreas de tensão”. Simultaneamente, segundo ele, Líbano e Israel iniciariam negociações diretas “sob patrocínio internacional”.
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De acordo com as Nações Unidas, o conflito entre a milícia libanesa e o Exército israelense, que começou há nove dias com ataques retaliatórios do Hezbollah em apoio ao Irã devido à morte do líder supremo Ali Khamenei, levou ao deslocamento de mais de 700 mil libaneses, incluindo 200 mil crianças. O Ministério da Saúde libanês contabilizou 486 mortos (entre eles, 83 crianças, segundo o Unicef), enquanto dois soldados israelenses perderam a vida em combates no sul do Líbano.
À emissora britânica BBC, um porta-voz de Aoun afirmou que o governo está pronto para negociar, mas não enquanto o país permanecer sob ataque. Autoridades israelenses, por sua vez, demonstraram pouco apoio a um processo diplomático e, nesta madrugada, suas forças bombardearam várias localidades no sul e no leste da nação vizinha. O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não se pronunciou oficialmente sobre a proposta de Beirute.
Críticas ao Hezbollah
O presidente do Líbano também fez críticas incomumente contundentes ao Hezbollah durante a reunião com autoridades europeias. Referindo-se ao grupo como uma “facção armada”, Aoun disse que seu comando “não dá importância aos interesses do Líbano nem à vida de seu povo” e deseja o “colapso do Estado libanês sob agressão e caos”.
As declarações marcam um endurecimento do governo com a milícia, tendência que já havia despontado na semana passada, quando o governo afirmou que as operações militares do Hezbollah são ilegais — embora o Estado não tenha capacidade para desarmar o grupo por conta própria.
Na semana passada, Netanyahu dirigiu-se diretamente ao governo libanês por mensagem privada: “É sua responsabilidade fazer cumprir o acordo de cessar-fogo e é sua responsabilidade desarmar o Hezbollah”, ele escreveu, referindo-se ao pacto selado em 2024 para encerrar mais de um ano de hostilidades com a milícia xiita, que atacou o país em apoio ao Hamas no âmbito da guerra em Gaza.
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A trégua, mediada pelos Estados Unidos e França, tem sido violada parte a parte desde então. Israel continuou realizando ataques quase diários ao Líbano, acusando o Hezbollah de tentar se rearmar e retomar território em seus antigos redutos do sul. E, dois dias após o início da ofensiva EUA-Israel contra o Irã, o grupo libanês entrou no conflito disparando foguetes e drones contra o norte israelense, que descreveu como retaliações pelo assassinato de Khamenei (não só líder supremo do Irã, mas uma importante autoridade religiosa para todos os xiitas).
Israel, então, afirmou que os ataques sofridos justificavam a abertura de uma campanha mais ampla contra o grupo, incluindo repetidos ataques aéreos e incursões terrestres no Líbano. O governo Netanyahu declarou que a operação continuará até que o grupo seja desarmado; o Hezbollah afirmou que continuará disparando contra o território israelense, custe o que custar.





