Interceptadores versus mísseis: a furiosa matemática que pode definir guerra com o Irã
Sistemas de defesa que EUA fabricam e vendem a aliados são poderosos, mas não podem ser produzidos na mesma velocidade que munições iranianas
Poucos dias após a primeira salva de ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, no último sábado 28, a guerra no Oriente Médio tornou-se um conflito de atrito — daqueles que ganha quem se desgasta por último. A campanha de retaliação da República Islâmica, que disparou centenas de mísseis, mas especialmente drones, contra o Chipre, o Azerbaijão e ao menos cinco nações do Golfo, onde há bases e ativos militares americanos. Tanto as forças de Washington quanto as ricas monarquias que costumam ficar de fora das convulsões na região se viram repentinamente com as defesas aéreas pressionadas e os estoques de armas se esgotando. O resultado do conflito pode depender de uma furiosa conta matemática: mísseis versus interceptadores. Qual lado ficar sem munição primeiro?
Drones de ataque unidirecional Shahed, pequenos mísseis de cruzeiro rudimentares, continuaram a bombardear alvos em todo o Oriente Médio nesta quinta-feira, 5. Nos últimos dias, explosões danificaram bases americanas, infraestrutura petrolífera e até edifícios residenciais.
Os mísseis de defesa aérea Patriot, de fabricação americana, têm se mostrado amplamente eficazes em deter os Shahed iranianos e outros mísseis balísticos, com taxas de interceptação superiores a 90%, segundo os Emirados Árabes Unidos. Mas usar mísseis de US$ 4 milhões para destruir drones de US$ 20 mil ilustra um problema que assombra os estrategistas militares ocidentais: armas baratas podem consumir recursos destinados a ameaças muito mais complexas.
O resultado é que tanto o Irã quanto os Estados Unidos podem ficar sem armamento em questão de dias ou semanas. Quem conseguir resistir por mais tempo obterá uma vantagem significativa.
Guerra assimétrica
Os aliados regionais do regime dos aiatolás, o “eixo da resistência” composto por uma rede de milícias responsáveis por terrorismo e atrocidades ao longo de décadas, foram severamente enfraquecidos pela guerra em Gaza. A capacidade de mísseis do Irã também foi prejudicada pelos ataques israelenses e americanos anteriores, em uma guerra de 12 dias em junho passado.
Mas estima-se que Teerã ainda possua cerca de 2 mil mísseis balísticos, e é provável que tenha possua um número muito maior de drones Shahed. Não se sabe exatamente quantos, mas a Rússia, o outro principal fabricante do modelo, fabrica cerca de 5 mil unidades por mês. Até agora, as forças iranianas dispararam pelo menos 500 mísseis balísticos e 2 mil drones Shahed contra Israel e nações da região que abrigam ativos militares americanos, mas acredita-se que estejam “guardando” as munições mais destrutivas para o futuro, quando as defesas aéreas estiverem mais enfraquecidas.
“Teerã aposta em intensificar as consequências e os custos do ataque israelo-americano, sabendo que as monarquias do Golfo podem pressionar por um cessar-fogo para interromper a saraivada de drones e que os apoiadores do presidente Donald Trump têm ojeriza a guerras prolongadas”, afirmou a VEJA Eric Lob, cientista político da Florida International University.
Segundo uma análise interna vista pela agência de notícias Bloomberg, o estoque do Catar de mísseis para o sistema de defesa Patriot pode acabar nesta semana, considerando a taxa atual de uso. Embora Doha tenha dito oficialmente que “continua bem abastecida”, a publicação reportou que, nos bastidores, aumenta a pressão por um fim rápido ao conflito.
Antes do início da guerra, o general Dan Caine, Chefe do Estado-Maior Conjunto, e outros líderes militares alertaram Trump de que uma campanha prolongada poderia afetar os estoques de armas dos Estados Unidos – particularmente aqueles destinados a apoiar Israel e a Ucrânia, de acordo com apuração da CNN. As forças de Washington têm consumido rapidamente mísseis guiados de longo alcance nos últimos dias, informou uma pessoa familiarizada com o assunto à emissora americana.
Eli Cohen, ministro do gabinete de segurança do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, afirmou, por sua vez, que 150 lançadores de mísseis iranianos foram destruídos. “O objetivo é criar supremacia aérea e diminuir o fogo contra o Estado de Israel”, disse ele à Rádio do Exército. “O objetivo é criar supremacia aérea e diminuir o fogo contra o Estado de Israel.”
Risco de impasse
Do lado americano, analistas avaliam que os estrategistas por trás ataques não deslocaram munição suficiente para a região para continuar a ofensiva por quatro semanas, como estimou o presidente Trump. Além disso, os sistemas Patriot, os mais usados pelos Estados Unidos e aliados regionais, disparam mísseis PAC-3 — ano ano passado, a Lockheed Martin fabricou apenas 600. E, com base no número de mísseis e drones abatidos desde sábado, é muito provável que milhares de interceptores já tenham sido disparados no Oriente Médio.
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos também operam o THAAD, um sistema da Lockheed projetado para atingir mísseis mais avançados e velozes nas bordas da atmosfera. Mas são ainda mais caros, custando cerca de US$ 12 milhões cada. Os Estados Unidos também têm usado patrulhas de caças equipados com mísseis do Sistema Avançado de Armas de Precisão (APKWS), que custam de US$ 20 mil a US$ 30 mil cada, além do custo operacional das aeronaves.
Para evitar problemas com munições, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, anunciou na quarta-feira 4 que os Estados Unidos pretendem intensificar os ataques contra o Irã com o uso de bombas gravitacionais de precisão, um tipo de armamento considerado mais simples que mísseis sofisticados, mas altamente eficaz para destruir alvos estratégicos. Segundo ele, o país possui um “estoque praticamente ilimitado” desse tipo de munição.
Além disso, na manhã de quarta-feira, o general Caine adotou um tom otimista durante uma coletiva de imprensa no Pentágono, afirmando que os lançamentos de mísseis do Irã diminuíram drasticamente desde o início dos ataques. Segundo ele, os disparos caíram 86% em relação ao primeiro dia de combates, uma queda que se acelerou num ritmo de 23% de terça para quarta-feira.
Defensivamente, o Irã tem pouco com que lutar. Os ataques aéreos nas primeiras horas da guerra atingiram suas baterias antiaéreas, as mais modernas com sistemas S-300 de fabricação russa. Desde então, caças americanos e israelenses têm operado no espaço aéreo iraniano sem quaisquer dificuldades relatadas.
Se a intensidade atual dos ataques iranianos continuar, os estoques de mísseis para sistemas Patriot na região podem ficar perigosamente baixos em poucos dias, segundo analistas. Se o mesmo acontecer com as armas ofensivas do Irã, pode haver um impasse na guerra. Mas isso pode comprar o que o regime dos aiatolás mais quer: tempo para se estabilizar, garantindo a própria sobrevivência.





