Gaza sofre apagão e operações humanitárias são paralisadas, diz ONU
Organização afirmou que último cabo de conexão da região foi danificado, possivelmente por ação militar
As Nações Unidas confirmaram nesta quinta-feira, 12, que a Faixa de Gaza está completamente sem acesso à internet, paralisando as operações de ajuda humanitária na região. De acordo com Farhan Haq, porta-voz da organização internacional, o apagão foi causado por danos no último cabo de conexão ainda em funcionamento, provavelmente provocados por ações militares no enclave.
“Linhas vitais para serviços de emergência, coordenação humanitária e comunicação com civis foram cortadas. As redes móveis também estão quase completamente inoperantes”, disse Haq em coletiva de imprensa.
Sem internet e com as comunicações interrompidas, as equipes de resgate não conseguem operar, e a população permanece isolada, sem meios para buscar ajuda ou acessar informações básicas de segurança. O blecaute tecnológico é mais um golpe na já frágil infraestrutura da região, que enfrenta colapso completo de serviços essenciais.
Enquanto isso, a entrega de mantimentos virou cenário de violência. Em meio ao desespero por comida, multidões têm se formado em centros de distribuição da Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês), que assumiu as operações antes conduzidas pela ONU.
Morte a tiros ou por fome
Forças israelenses mataram pelo menos 60 palestinos em Gaza na quarta-feira, quase dois terços deles enquanto buscavam suprimentos nos pontos de distribuição do GHF, de acordo com autoridades de saúde locais. Na manhã desta quinta, mais vítimas foram registradas. A agência palestina de defesa civil informou à agência de notícias AFP que as forças israelenses mataram 22 pessoas em Gaza, das quais 16 aguardavam para receber ajuda humanitária.
A GHF pretende ser um substituto da UNRWA, a agência da ONU para refugiados palestinos. Embora possua de longe a maior rede de distribuição de ajuda humanitária no enclave, o órgão foi banido por Tel Aviv sob alegações de ser cúmplice do Hamas. (Após uma investigação interna, a UNRWA demitiu nove de seus 13 mil funcionários sob suspeita de envolvimento no ataque a comunidades israelenses em outubro de 2023, que desencadeou a guerra, mas não encontrou evidências das alegações mais amplas de Israel.)
O método de entrega de alimentos da GHF – em um número limitado de locais fortemente militarizados –, porém, resultou em mais de 160 mortes desde o início de suas operações, há duas semanas. Muitas das mortes ocorreram após forças israelenses abrirem fogo contra palestinos que tentavam chegar aos pontos de distribuição. Além disso, nesta quinta-feira, 12, a fundação acusou o Hamas de assassinar cinco de seus funcionários e levar outros como reféns.
O perigo em torno dos centros de distribuição de alimentos exacerba a profunda crise de fome no território. A população da Faixa de Gaza, composta por 2,3 milhões de pessoas antes da guerra, está em “risco crítico” de fome e enfrenta “níveis extremos de insegurança alimentar”, apontou um relatório da Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC), apoiada por agências das Nações Unidas, grupos de ajuda e governos.
O documento indicou que o cessar-fogo, que durou de janeiro a março, “levou a um alívio temporário” em Gaza, mas as novas hostilidades israelenses “reverteram” as melhorias. Cerca de 1,95 milhão de pessoas, ou 93% da população de Gaza, vivem níveis de insegurança alimentar aguda. Desse número, mais de 244 mil enfrentam graus “catastróficos”. A fome generalizada, segundo a pesquisa, é “cada vez mais provável” no território. No momento, meio milhão de palestinos, um em cada cinco, estão famintos em Gaza.





