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Em depoimento à Câmara, procuradora-geral dos EUA é acusada de acobertar caso Epstein

Pam Bondi comparece a audiência de comissão legislativa em meio à controversa repercussão da última leva de documentos sobre o financista abusador

Por Flávio Monteiro 11 fev 2026, 15h02 •
  • A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, compareceu à Comissão Judiciária da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira, 10, para depor sobre a condução do caso Jeffrey Epstein. O depoimento ocorre em meio à crescente pressão de republicanos e democratas sobre o Departamento de Justiça por materiais supostamente retidos no “lote final” de documentos, divulgado em janeiro. Além disso, a publicação dos arquivos ocorreu de forma atrapalhada, divulgando nomes, fotos e dados pessoais de vítimas do criminoso sexual.

    Durante a audiência, Bondi afirmou estar “profundamente arrependida” pelo sofrimento causado às vítimas do financista americano abusador, que se suicidou na cadeia em 2019, e sua teia de contatos nas esferas do poder em múltiplos países. Mas não pediu desculpas pelos erros cometidos por seu departamento. Segundo ela, a pasta teve que lidar com uma grande quantidade de documentos em um prazo apertado e retirou as peças questionadas por conterem informações sobre vítimas do ar no momento em que o problema foi identificado.

    Mais de 3 milhões de páginas de arquivos sobre a investigação de Epstein foram divulgadas pelo Departamento de Justiça no dia 30 de janeiro, incluindo inúmeras fotos e vídeos. Inicialmente, a liberação dos documentos era esperada para o dia 19 de janeiro, mas acabou atrasada após pressão do presidente americano, Donald Trump.

    Uma vez publicado, o lote atraiu atenção global por colocar sob os holofotes indivíduos ricos e poderosos que mantiveram laços com Epstein mesmo após sua condenação — embora também tenha causado incômodo por não conter todos os documentos requisitados e porque as vítimas descobriram que seus dados pessoais, incluindo endereços residenciais, foram expostos publicamente.

    + Congressistas dos EUA acusam Departamento de Justiça de censurar arquivos do caso Epstein

    Durante a acalorada audiência, Bondi se comprometeu a tirar a censura dos homens que teriam correspondido com Epstein e preservar as vítimas. “Se o nome de qualquer homem foi censurado, isso não deveria ter acontecido”, disse a secretária. “Nós, é claro, vamos retirar essa censura. Se o nome de uma vítima foi divulgado sem censura, por favor, levem isso a nós, e nós o censuraremos.”

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    Entre aqueles irritados com o cenário, a Comissão Judiciária tem demonstrado uma marcada frustração com a ocultação de material pelo Departamento de Justiça, apontando que a prática desrespeita uma lei federal aprovada em novembro passado para obrigar a liberação de todos os arquivos. A pasta alega que quaisquer omissões ocorreram por “sigilo profissional” e garante que foi “transparente” na publicação dos documentos, enquanto os deputados sustentam que o departamento excedeu as isenções permitidas pela legislação.

    “Esse será o seu legado, a menos que haja rapidamente para mudar de rumo. A senhora está conduzindo um enorme acobertamento do caso Epstein diretamente de dentro do Departamento de Justiça”, disse o deputado Jamie Raskin, principal membro do Partido Democrata no comitê. “A senhora está do lado dos perpetradores e ignorando as vítimas”, disparou.

    A audiência foi marcada por discussões. Bondi trocou farpas com congressistas democratas e até republicanos, pediu pela palavra repetidas vezes ao alegar que questionamentos foram realizados e ela deveria ter chance de resposta. Sobre Massie, afirmou que o deputado sofre de uma “síndrome de perturbação por Trump”.

    Problema antigo

    O caso Epstein foi uma pedra no sapato para a administração Trump desde o início de seu segundo mandato. No ano passado, o Departamento de Justiça chegou a optar pela não divulgação de novos materiais sobre a investigação, o que provocou uma furiosa reação dos próprios apoiadores do presidente, forçando uma mudança de postura.

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    Bondi ocupa uma posição de destaque nas críticas à gestão do caso Epstein, com legisladores afirmando que o fiasco definirá seu mandato. Até mesmo republicanos têm tecido críticas à secretária: o deputado Thomas Massie — coautor da lei que obrigou o Departamento de Justiça a divulgar os arquivos — declarou que ela se mostra contraditória sobre o tema.

    Embora tenham tido grande repercussão, os documentos não levaram a nenhum processo em solo americano, aumentando as críticas contra o Departamento de Justiça por parte de ativistas, vítimas e figuras de ambos os partidos. As autoridades responsáveis concluíram que as peças não incriminavam ninguém além do próprio Epstein e sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, gerando uma série de teorias sobre um possível acobertamento.

    + EUA: cúmplice de Epstein se recusa a responder perguntas em depoimento ao Congresso

    A brasileira Marina Lacerda, 37, que afirma ter sido abusada por Epstein aos 14 anos, declarou que ela e outras sobreviventes reivindicam questões básicas: “Segurança e dignidade”.

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    “Como o Departamento de Justiça foi capaz de ser tão cuidadoso em censurar o nome de homens poderosos e, ainda assim, falhou em proteger as sobreviventes?”, questionou durante conversa com jornalistas nesta quarta, em frente ao Capitólio. “Nós temos vidas, famílias, e não escolhemos esses crimes. Não deveríamos pagar o preço novamente. Se outros documentos forem liberados, solicitamos que o Departamento de Justiça faça isso corretamente, censurando a identidade das sobreviventes”, disse Lacerda.

    Ela e outras vítimas presentes também reclamaram da falta de investigação e responsabilização de políticos e figuras poderosas mencionados nos documentos.

    Repercussão global

    Em paralelo às críticas, uma forte reação aos documentos varreu o globo, levando a renúncias em diferentes países. Na França, o ex-ministro da Cultura Jack Lang deixou o cargo de chefe do Instituto Mundo Árabe após a polícia abrir um inquérito sobre suas ligações financeiras com o notório criminoso sexual. Fim semelhante encontrou o conselheiro de Segurança Nacional do premiê da Eslováquia, Miroslav Lajcak, após e-mails trocados entre ele e Epstein sobre mulheres jovens virem a público.

    No Reino Unido, a descoberta de uma relação mais íntima e profunda do que se sabia antes entre o ex-embaixador em Washington Peter Mandelson e o milionário americano abusador provocou uma crise no governo do primeiro-ministro Keir Starmer. Enquanto tanto oposicionistas como correligionários pedem sua renúncia, por ter indicado ao principal cargo diplomático do país um homem metido até o pescoço na teia de Epstein, duas figuras importantes de sua administração (o braço direito e chefe de gabinete, Morgan McSweeney, que fez lobby pela nomeação de Mandelson; e o chefe de comunicação de Downing Street, Tim Alan) renunciaram aos seus cargos nesta semana.

    Mas nenhum caso angariou mais atenção quanto o do ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, despejado de sua mansão na propriedade real de Windsor após novos documentos mostrarem o grau de sua relação com o pedófilo. Embora a medida estivesse no calendário de Andrew, já destituído dos títulos oficiais de nobreza pelo irmão, o rei Charles III, justamente pela perigosa relação, as fotos do filho de Elizabeth II ajoelhado junto a uma mulher deitada no chão aceleraram o processo de expulsão.

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