Como Marco Rubio, crítico de Lula, insufla a escalada entre EUA e Brasil
O secretário de Estado americano está por trás da política externa agressiva para a América Latina e é uma das vozes mais duras em Washington contra o petista
A crise entre o governo de Donald Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um rosto em Washington: o do secretário de Estado americano, Marco Rubio. Responsável pela diplomacia dos Estados Unidos, ele se tornou um dos principais interlocutores nas negociações com Brasília — e não esconde a inimizade com o petista.
O próprio Lula já reconheceu o peso de Rubio na condução da relação bilateral. Em meio às negociações com Washington, o presidente brasileiro reclamou que o secretário de Estado “faz as coisas diferente daquilo que a gente conversa com Trump”. A declaração expôs uma diferença na estratégia americana: embora o presidente americano mantenha aberta a possibilidade de um diálogo direto com o Planalto, Rubio assumiu parte importante da interlocução e da pressão sobre o governo brasileiro.
A influência do secretário, porém, vai muito além do Brasil. Filho de imigrantes cubanos e conhecido por sua postura anticastrista, Rubio construiu a carreira política com forte atuação sobre a América Latina. Antes de chegar ao Departamento de Estado, foi senador pela Flórida por mais de uma década e se tornou uma das principais vozes republicanas sobre a região. Nesse período, fez do combate aos regimes esquerdistas de Cuba, Venezuela e Nicarágua uma das marcas de sua atuação.
Segurança nacional
No segundo mandato de Trump, essa experiência ganhou uma dimensão inédita. Além de secretário de Estado, Rubio passou a acumular a função de conselheiro de segurança nacional, tornando-se uma das figuras mais influentes da política externa americana e um dos principais responsáveis pela estratégia de Washington para o Hemisfério Ocidental.
O exemplo mais contundente dessa política está na Venezuela. Em janeiro, forças americanas capturaram Nicolás Maduro em uma operação ordenada por Trump e o levaram preso para os Estados Unidos. Rubio foi um dos principais porta-vozes da Casa Branca na defesa da ação e sustentou que a operação não representava uma guerra a Caracas, mas uma ofensiva contra organizações ligadas ao narcotráfico.
A captura de Maduro se tornou um dos principais símbolos da política externa do segundo governo Trump. Desde então, o secretário passou a desempenhar papel central na condução da política americana para a Venezuela, participando das discussões sobre a transição política e os rumos econômicos do país.
Em janeiro, ao apresentar ao Senado a estratégia de Washington para o país, Rubio defendeu uma transição política acompanhada de perto pelos Estados Unidos e uma forte influência americana sobre a economia venezuelana.
A experiência ajuda a explicar por que as críticas de Rubio a Lula sobre Caracas ganharam tanto peso. O governo brasileiro defende tradicionalmente uma solução negociada para crises políticas na região e se opõe a intervenções externas. Washington, sob Trump, adotou uma postura muito mais agressiva.
A aposta de Washington para as Américas
A política americana para a região passou a combinar pressão comercial, sanções, articulação diplomática e uma defesa mais explícita da predominância dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. O movimento vem sendo associado a uma releitura da Doutrina Monroe, formulada no século XIX para estabelecer a oposição americana à interferência de potências europeias nas Américas.
A própria administração Trump passou a empregar uma retórica mais direta sobre essa ideia. Nesta semana, o Departamento de Estado publicou um vídeo reafirmando que os Estados Unidos não aceitariam que seu domínio sobre o Hemisfério Ocidental fosse novamente questionado.
Nesse projeto, Rubio ocupa uma posição estratégica. Sua trajetória política, marcada pelo anticastrismo, combina-se à visão de Trump de que Washington deve recuperar influência sobre uma região onde China, Rússia e outros atores ampliaram sua presença nos últimos anos.
A estratégia também passa pela escolha de representantes diplomáticos alinhados à agenda da Casa Branca. Entre os nomes estão Daniel Perez, indicado para o Brasil; Bernie Navarro, para o Peru; Kevin Marino Cabrera, para o Panamá; e Peter Lamelas, para a Argentina. Alguns deles já provocaram reações de setores da esquerda latino-americana por declarações consideradas intervencionistas.
O Brasil, maior economia da América Latina, ocupa uma posição particularmente sensível nesse cenário.
Por que Lula entrou na mira?
A relação de Rubio com o governo brasileiro já vinha sendo marcada por sucessivos choques. O secretário criticou Lula por sua postura diante da Venezuela e da China e também demonstrou preocupação com a aproximação brasileira com Pequim e com o Brics.
Para Washington, a questão não é apenas ideológica. O Brasil tem a China como principal parceiro comercial, integra o Brics e defende uma política externa baseada em maior autonomia em relação às grandes potências. Essa postura contrasta com a tentativa da administração Trump de reforçar a predominância americana no continente.
Em 2024, ainda como senador, Rubio atacou o ministro Alexandre de Moraes durante a suspensão temporária do X (ex-Twitter) no Brasil e classificou Lula como um líder de extrema esquerda. Já no governo Trump, passou a criticar diretamente a política externa brasileira e a condução das negociações com Washington.
Mais recentemente, afirmou que Lula teria “colocado o próprio ego” acima dos interesses do país nas tratativas com os Estados Unidos.
As declarações provocaram reação em Brasília. O chanceler Mauro Vieira classificou as falas de Rubio como “ataques grosseiros e arrogantes”. Lula, por sua vez, chegou a chamar o secretário de “bolsonarista”, “latino-americano frustrado” e afirmou que ele não gosta do Brasil nem da América Latina.
A escalada deixou de ser apenas retórica e passou a atingir diretamente a relação diplomática entre os dois países. Washington revogou o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio ao impasse envolvendo a concessão do agrément ao diplomata americano Daniel Perez, indicado por Trump para a embaixada em Brasília e conhecido por sua proximidade com Rubio.







