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As razões políticas por trás da oposição de Macron a acordo UE-Mercosul

Em meio à crise política, presidente francês enfrenta cenário de alta complexidade e se vê encurralado antes de eleições marcadas para 2027

Por Paula Freitas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 9 jan 2026, 12h55 • Atualizado em 9 jan 2026, 15h10
  • A contragosto de Paris, a União Europeia (UE) deu sinal verde nesta sexta-feira, 9, para o acordo com o Mercosul, negociado há 25 anos, em mais uma derrota para o já fragilizado presidente da França, Emmanuel Macron. Na véspera, pressionado por barulhentos protestos de agricultores, ele anunciou que votaria contra o pacto, que criticou por trazer benefícios econômicos “limitados” à Europa, não justificando “expor setores agrícolas sensíveis” e ameaçar a “soberania alimentar”.

    Há muito que Macron, um aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tem criticado o acordo UE-Mercosul. Para ele, o cenário é de alta complexidade: nos últimos anos, teve de lidar com quedas em série de seus premiês, derrubados por moções de censura e falta de apoio político, enquanto tenta retomar as rédeas antes das eleições presidenciais de 2027. Embora não possa concorrer novamente, o candidato que endossar enfrentará uma revigorada extrema direita, encarnada no partido Reagrupamento Nacional. Enquanto isso, ele e sua ala centrista nunca estiveram tão enfraquecidos.

    Fosse o pleito hoje, Jordan Bardella, principal candidato da extrema direita, venceria em qualquer cenário com larga vantagem, com 36% de intenção de votos no primeiro turno, segundo o Instituto Odoxa. Derrubaria os candidatos da esquerda e nomes da centro-direita que compuseram o vasto rol de primeiros-ministros escolhidos e logo caídos ao longo da gestão do presidente da França.

    Com popularidade estacionada em meros 20% após queda livre, Macron não pode perder um voto sequer — e isso significa manter agricultores e conservadores por perto, enfurecidos pelo acordo UE-Mercosul. Na véspera da aprovação do tratado, fazendeiros franceses bloquearam estradas e ruas em Paris e se aglomeraram em vários pontos turísticos da cidade, temerosos de que o acordo de livre comércio com o bloco sul-americano inunde os mercados locais com produtos agrícolas mais baratos, colocando em risco os negócios franceses.

    Protestos e reação de Macron

    De um lado, o acordo permite que a União Europeia amplie a a exportação de veículos, máquinas e vinhos para a América do Sul. Trata-se de uma parte vital do esforço do bloco para abrir novos mercados, compensar as perdas comerciais decorrentes do tarifaço dos Estados Unidos e reduzir a dependência da China, garantindo o acesso a minerais críticos.

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    Do outro, mais carne bovina, açúcar, soja e arroz da região sejam enviados aos países europeus. No momento, o Mercosul cobra tarifas de até 35% sobre manufaturados e outros produtos do bloco europeu, que, por sua vez, também impõe taxas de até 15% sobre mercadorias agrícolas sul-americanas. O tratado eliminaria progressivamente todas essas alíquotas, para desespero dos agricultores franceses, que denunciam o que chamam de “competição desleal”.

    Na quinta 8, manifestantes ultrapassaram postos de controle da polícia para entrar em Paris, dirigindo tratores e carros pela avenida Champs-Élysées e bloqueando a via ao redor do Arco do Triunfo antes do amanhecer, enquanto a polícia os cercava. Membros da Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA) e sindicatos de jovens agricultores juntaram-se ao protesto na Torre Eiffel. Acuado, Macron reiterou que liderou a oposição ao pacto.

    “Desde o anúncio do fim das negociações em dezembro de 2024, tenho defendido incansavelmente um acordo mais justo para proteger nossos agricultores. Com base nisso, alcançamos progressos concretos, que a Comissão Europeia deve reconhecer”, escreveu ele no X, antigo Twitter, acrescentando: “Apesar destes avanços inegáveis, importa salientar que existe uma rejeição política unânime do acordo, como claramente demonstrado pelos recentes debates na Assembleia Nacional e no Senado.”

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    “A assinatura do acordo não é o fim da história. Continuarei a lutar pela implementação plena e concreta dos compromissos assumidos junto da Comissão Europeia e pela proteção dos nossos agricultores. A nível europeu, a prioridade continua a ser acelerar a nossa agenda de proteção, competitividade e investimento”, concluiu.

    Ameaça ao governo

    Não parece ter sido o suficiente para conter os ânimos aflorados dos franceses — e o custo político pode ser altíssimo. Em resposta à aprovação nesta sexta, os extremos à direita e à esquerda na Assembleia Nacional anunciaram moções de censura contra o governo da França. Se a ação for bem-sucedida, pode derrubar Sebastién Lecornu, no que seria a sexta queda de um premiê indicado por Macron.

    Bardella, que recebeu das mãos da mentora Marine Le Pen a chefia do Reagrupamento Nacional, acusou o presidente de “jamais defender os interesses franceses” e de fazer uma “manobra de comunicação tão tardia quanto hipócrita”. O França Insubmissa, da esquerda radical, salientou o “histórico desastroso” do líder francês e pediu, inclusive, um impeachment. Para onde quer que olhe, Macron está encurralado.

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