Aliados do Irã no Iêmen, hutis se mantêm longe da guerra no Oriente Médio; entenda
Ausência do grupo rebelde iemenita contrasta com entrada de outros grupos armados pró-Irã no conflito, como Hezbollah e milícias no Iraque
Os rebeldes hutis do Iêmen, aliados do Irã e conhecidos por ataques contra países do Golfo e rotas marítimas estratégicas, não entraram na guerra no Oriente Médio até esta sexta-feira, 13, duas semanas após os ataques dos Estados Unidos e Israel contra a nação persa que desencadearam o conflito. A ausência do grupo chama atenção porque outras milícias pró-iranianas, como o Hezbollah, no Líbano, e facções armadas no Iraque já se envolveram no conflito.
Na semana passada, o líder huti Abdul Malik al-Houthi disse que estava pronto para atacar a qualquer momento. Apesar da ameaça, o grupo rebelde não fez nenhum anúncio formal sobre se juntar à guerra.
“Em relação à escalada e ação militar, nossos dedos estão no gatilho a qualquer momento, caso os desenvolvimentos o justifiquem”, disse ele em um pronunciamento televisionado.
Diferentemente do Hezbollah e de milícias xiitas no Iraque, os hutis não seguem a liderança religiosa do líder supremo iraniano da mesma forma. Embora Teerã considere o grupo parte do seu chamado “eixo da resistência”, especialistas afirmam que os rebeldes são guiados principalmente por interesses internos no Iêmen.
O não envolvimento do grupo na guerra pode estar ligado à situação interna atual do país. A pequena nação do Oriente Médio enfrenta fortes dificuldades econômicas, e uma nova escalada militar poderia desencadear ataques intensos dos Estados Unidos, de Israel e até da Arábia Saudita contra posições hutis.
Quem são os hutis
Os hutis são um grupo político, militar e religioso liderado pela família Houthi e baseado no norte do Iêmen. Também conhecida como Ansarallah, a turma rebelde foi batizada em homenagem ao seu líder, Hussein al-Houthi, fundador do movimento religioso “Juventude que Acredita”. Originalmente, tinha o apoio do então presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, mas tudo mudou com a invasão americana ao Iraque, em 2003 – chancelada por Saleh, mas criticada por muitos iemenitas.
Em meio à comoção pública, al-Houthi organizou manifestações em massa e rompeu com o primeiro governo pós-unificação do Iêmen, adotando o lema: “Deus é grande. Morte aos Estados Unidos. Morte a Israel. Maldição aos judeus e vitória para o Islã”.
Sob a ira de Saleh, ele foi alvo de um mandado de prisão poucos meses após o início da guerra no Iraque. Em 2004, foi assassinado pelas forças iemenitas. Seu legado, no entanto, perdurou e atraiu um número progressivo de adeptos.
Em 2011, os hutis deram seu primeiro passo em direção ao controle do país: tomaram a província de Saada, no norte, em meio aos protestos da Primavera Árabe, e demandaram o fim do governo Saleh. Encurralado, o presidente passou o poder para as mãos do impopular vice-presidente, Abd-Rabbu Mansour Hadi.
A insatisfação dos hutis, contudo, continuou nas alturas. Em 2014, ano em que se completou uma década desde a morte de al-Houthi, os combatentes ocuparam partes de Sanaa, capital do Iêmen, deflagrando uma guerra civil em grande escala. No ano seguinte, invadiram o palácio presidencial, levando Hadi a fugir para a Arábia Saudita. Por consequência, instaurou-se um conflito entre o grupo iemenita e sauditas.
Após anos de combates, que buscavam remover o governo do poder, os hutis assinaram um cessar-fogo com o lado “inimigo” em 2022 – apenas para ser revogado seis meses depois. Mesmo assim, ambas as partes não voltaram a ampliar o embate.
O grupo também teve papel ativo nas tensões regionais após o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. Em apoio aos palestinos, passou a atacar navios comerciais no Mar Vermelho e lançou drones e mísseis contra o território israelense. Em resposta, Israel e Estados Unidos realizaram ataques contra alvos dos rebeldes. As ações cessaram após um cessar-fogo entre Israel e o Hamas mediado por Washington em outubro do ano passado.





