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A força da diversidade na equipe de Biden

Na linha de fazer tudo diferente de Trump, novo presidente está instalando negros e minorias na sua equipe de governo como nunca antes

Por Julia Braun Atualizado em 18 dez 2020, 08h44 - Publicado em 18 dez 2020, 06h00

Antes mesmo da confirmação da eleição de Joe Biden pelo Colégio Eleitoral, o procedimento final da vitória anunciado na segunda-feira 14, o presidente eleito já havia apresentado os primeiros membros de sua equipe, antecipando o que vem por aí: um gabinete que vira pelo avesso as intervenções conservadoras na máquina administrativa orquestradas por Donald Trump. Foram definidos vinte nomes para os 29 postos de alto escalão, e entre os escolhidos estão dez mulheres e dez integrantes de minorias (no início do mandato trumpista, em 2017, só seis dos 33 cargos não eram ocupados por homens brancos). “Será o gabinete mais diversificado da história dos Estados Unidos”, afirmou Biden, prometendo variar ainda mais a composição de seu governo até o dia da posse, em 20 de janeiro.

Pela primeira vez, latinos estarão à frente da Segurança Interna e da Saúde, duas pastas “nobres” no conjunto de departamentos, como são chamados os ministérios americanos. Alejandro Mayorkas, ex-procurador nascido em Havana e cuja família fugiu de Cuba após a revolução castrista, será responsável pela gestão das políticas de imigração e tem ordens de Biden para revisar algumas das medidas mais polêmicas da era Trump, como a construção de um muro na fronteira com o México e a separação de filhos de imigrantes de suas famílias. O descendente de mexicanos Xavier Becerra ficará encarregado de garantir o acesso da população aos serviços de saúde a partir de janeiro. Igualmente inédita é a indicação de mulheres para a chefia do Tesouro (Janet Yellen, economista de 74 anos que já presidiu o Fed, o banco central americano) e da Inteligência Nacional (Avril Haines, ex-vice-diretora da CIA), bem como a nomeação do general da reserva Lloyd Austin, 67 anos, para a Defesa — o primeiro negro a comandar a pasta.

Na linha da diversificação, Pete Buttigieg, ex-prefeito de cidade do interior que ficou conhecido por ser o primeiro gay declarado a tentar a Presidência, aceitou a chefia do Departamento de Transporte. Katherine Tai, descendente de taiwaneses, será a representante do país em negociações comerciais e a veterana militar transexual Shawn Skelly integra a equipe de transição, com chance de emplacar algum cargo definitivo. “As escolhas de Biden são uma tentativa consciente de refletir melhor as visões da população”, diz o cientista político Peverill Squire, da Universidade de Missouri.

1 - Katherine Tai: Asiática no comando das negociações comerciais; 2 - Pete Buttigieg: Ex-prefeito gay será secretário de Transporte; 3 - Shawn Skelly: Militar trans na equipe de transição; 4 - Avril Haines: Uma mulher na chefia da Inteligência; 5 - Xavier Becerra: Latino à frente do Departamento de Saúde; 6 - General Lloyd Austin: Primeiro secretário de Defesa negro -
1 – Katherine Tai: Asiática no comando das negociações comerciais; 2 – Pete Buttigieg: Ex-prefeito gay será secretário de Transporte; 3 – Shawn Skelly: Militar trans na equipe de transição; 4 – Avril Haines: Uma mulher na chefia da Inteligência; 5 – Xavier Becerra: Latino à frente do Departamento de Saúde; 6 – General Lloyd Austin: Primeiro secretário de Defesa negro – JIM WATSON/AFP; Getty Images; Bryan Bedder/Getty Images; Chandan Khanna/AFP; Justin Sullivan/Getty Images; Chip Somodevilla/Getty Images

A primeira impressão é que Biden, ao espalhar funções entre as minorias, está agradando a todo mundo. Pois não está. Com sua voz cada vez mais estridente na sociedade americana, os grupos de defesa da diversificação querem mais, e logo. Entre eles pegou mal, por exemplo, a escolha de assessores de longa data para posições de ponta, como Antony Blinken — homem, branco, velho conhecido na cúpula democrata — para o Departamento de Estado. “Quase todos os escolhidos têm anos de experiência em Washington, entendem como as coisas funcionam e, em alguns casos, serviram no governo de Barack Obama”, avalia Peverill Squire. Preocupado com as comparações, o presidente eleito faz questão de avisar: “Este não será um terceiro mandato de Obama”.

Outro espinho na garganta do organograma do novo governo é a ala mais radical do Partido Democrata, que exige mais representatividade e inovação. Nas últimas semanas, Biden vem recebendo cobranças frequentes de congressistas como Bernie Sanders e a deputada pop Alexandria Ocasio-­Cortez. Uma das principais críticas está relacionada à baixa participação da comunidade LGBT — considera-se que Shawn Skelly está sendo subaproveitada e que Buttigieg é próximo demais do establishment para poder ser visto como uma escolha de ruptura da ordem estabelecida. Todas as indicações para o primeiro escalão ainda precisam passar pelo veredicto do Senado, o que pode empacar o processo. Até agora não está claro quem terá maioria na Casa para decidir a questão — os democratas possuem 48 das 100 cadeiras, ante cinquenta dos republicanos, mas dois assentos seguem em jogo na Geórgia, onde o segundo turno acontecerá no início de janeiro. Esperando uma disputa acirrada no Congresso, o presidente eleito vem tentando se equilibrar na emaranhada corda da diversificação com moderação. Cruzá-la com sucesso será um bom teste para o que vem por aí.

Publicado em VEJA de 23 de dezembro de 2020, edição nº 2718

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