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O melhor uísque do mundo custa só 40 dólares

Bebida canadense é escolhida o melhor do planeta pela principal publicação do setor. Apesar de barato, não será fácil degustá-lo

Por Sabrina Brito Atualizado em 30 out 2020, 10h28 - Publicado em 30 out 2020, 06h00

Não existe um degustador infalível, assim como não há uma única opinião sobre qual é o melhor uísque do mundo. Quando o expert britânico Jim Murray publica seu guia anual, porém, os apreciadores da bebida redobram a atenção. Murray é respeitado no meio, afirma visitar mais destilarias do que qualquer outro especialista e, a cada nova edição de sua publicação, a Whisky Bible, costuma experimentar e comentar 1 000 novos rótulos. Na edição 2021, lançada há alguns dias, o mestre degustador coroou pela primeira vez um uísque canadense como o melhor do mundo. Trata-se de uma edição limitada do potente Alberta Premium Cask Strength Rye, da fabricante Alberta Distillers. A bebida, que custa 40 dólares (cerca de 225 reais, antes dos impostos), tem elevada relação custo-­benefício e um teor alcoólico igualmente alto: 65,1%. Por esse motivo, e por se tratar de uma edição restrita, não deve chegar ao Brasil pelos importadores tradicionais.

Revelar o tempo de maturação do malte de uísques de edições especiais não é obrigatório, mas estima-­se que fiquem no tonel por no mínimo cinco anos. Feito com as águas das montanhas rochosas de Calgary, o Alberta Premium encantou o especialista por diversos motivos. Entre eles, o impressionante teor alcoólico. Para efeito de comparação, o tradicional Johnnie Walker Red Label mantém-se há anos na faixa dos 43%. Um bom vinho, embora o paralelo seja impreciso, transita em torno de 14%. Outra curiosidade do Alberta diz respeito aos elementos do paladar. Além de ser possível sentir o gosto de maçã verde e canela, alguns degustadores estrangeiros garantem notar a presença de alho — sim, alho.

O brasileiro sempre teve uma relação curiosa com o uísque. Com barreiras tarifárias nas alturas, ou se consumia os rótulos nacionalizados de supermercados ou as opções laçadas nos free shops de aeroportos. Por motivos que mereceriam um estudo sociológico mais aprofundado, o uísque sempre foi associado aos ricos ou, no máximo, às celebrações especiais da classe média. Mas, com a abertura do Brasil aos importados a partir dos anos 1990, o consumo cresceu e o acesso às melhores marcas estrangeiras ficou um pouco mais em conta.

Em 2020, como ocorreu com tantas outras bebidas alcoólicas, o consumo aumentou, e o movimento também foi para a conta do isolamento social. De acordo com o estudo da consultoria Synapcom, o uísque ficou entre as principais compras on-line de setembro. Ainda assim, apesar de sucessos locais, alguns fabricantes apresentaram prejuízos neste ano. Fechamento de fronteiras e restrições de viagem dificultaram a importação, que é responsável pela maior parte do suprimento ao Brasil. A Diageo, a maior produtora de destilados do planeta, é uma das que mais sofreram com a pandemia: as vendas líquidas globais caíram quase 9%. Seus uísques canadenses, entretanto, tiveram um desempenho inverso, subindo 8%.

COPO INSEPARÁVEL - Churchill: o uísque está associado a figuras lendárias – Fox Photos/Getty Images

Outras fabricantes se deram bem com a pandemia. A Brown-Forman, dona da marca Jack Daniel’s, informou que Brasil, Rússia, Índia e China registraram, juntos, crescimento positivo de vendas neste ano, o que aponta para uma demanda promissora no futuro. O mercado parece ter um entendimento parecido: espera-se, já para 2021, um aumento de 5,25% nas vendas. De acordo com Maurício Porto, um dos donos da Caledonia Whisky & Co., especializada em degustação e venda em São Paulo, a expansão da bebida vem acontecendo já há alguns anos. “Há muitos motivos para isso”, diz. “Entre eles, o retorno da coquetelaria e o maior acesso às informações sobre as bebidas.”

Indicadores como esses seriam um sinal de que a relação do brasileiro com o uísque está mudando? Não é bem assim. Segundo Porto, o brasileiro é eminentemente cervejeiro: “No Brasil, o consumo de todos os destilados somados, incluindo uísque, corresponde a apenas um centésimo do consumo de cerveja”. Não é tão difícil entender a preferência — em dias quentes, a cerveja gelada tem um apelo refrescante único. Além disso, destilados costumam ser muito mais caros, o que é uma incontestável barreira em uma nação com problemas de renda.

Para o brasileiro médio, o mais famoso dos destilados ainda é algo distante. A ideia de sofisticação por trás do copo de uísque faz dele uma bebida aspiracional. O uísque está associado a figuras lendárias, como o político britânico Winston Churchill, que não abria mão de uma ou duas doses no final do dia. Fotos e gravações de Frank Sinatra e Dean Martin revelam sempre os galantes cantores segurando seus copos. E Vinicius de Moraes, o poetinha brasileiro, provavelmente deixou pingar gotas de seu melhor destilado nas folhas de alguns poemas que escreveu. Disse ele: “O uísque é o melhor amigo do homem, é o cachorro engarrafado”.

Publicado em VEJA de 4 de novembro de 2020, edição nº 2711

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