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Só vale mesmo pela felicidade

Por Stefan Szymanski e Simon Kuper - 30 Jul 2011, 01h24

Em Johannesburgo, há um ano, um dos autores deste texto, Simon Kuper, teve o prazer de tomar café da manhã com o ministro do esporte do Brasil, Orlando Silva júnior. Silva, homem charmoso, vestia o tipo de roupa casual que nossos próprios ministros no Reino Unido gostariam de experimentar. E ele demonstrava grandes esperanças de que a Copa do Mundo de 2014 possa impulsionar a economia do Brasil.

“A Copa serviu de estímulo para o desenvolvimento e a infraestrutura aqui na África do Sul”, ele disse. “Seguiremos o mesmo caminho no Brasil.” Silva explicou que o país escolheu deliberadamente “regiões menos desenvolvidas” para sediar os jogos de modo a dar a elas a chance de crescimento. o Brasil já começara a construir aeroportos, portos e estádios, ele informou. Haverá empregos em abundância. em resumo, a Copa é aquilo de que a economia brasileira precisava.

Com todo o respeito ao ministro: ele está errado. Sediar um torneio esportivo não faz país algum mais rico. o Brasil tirará benefícios de 2014, mas não em dinheiro.

Como mostramos em nosso livro Soccernomics, em termos econômicos convencionais, receber a Copa não vale a pena. ela desvia o pagamento de impostos dos contribuintes destinados a outros projetos para um único mês de futebol. em qualquer país, escolas e hospitais oferecem taxas de retorno muito melhores. Quanto mais pobre um país, mais verdadeira é essa afirmação. o Brasil sacrificou um pouquinho de seu futuro para ter a Copa de 2014.

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Evidentemente, o ministro pensa de outro modo. Políticos gostam de exibir os benefícios econômicos que brotam de novos estádios e avenidas recuperadas, vangloriam-se do fluxo de turistas estrangeiros e dos efeitos de marketing de mostrar o país ao mundo. Mas serão incapazes de encontrar um único estudo econômico confiável para defender essas teses. de fato, uma busca atenta e minuciosa da literatura acadêmica revela o contrário: sediar grandes eventos esportivos é um fardo, e não um benefício.

Não é preciso pensar muito para entender as razões desse fenômeno. As coisas construídas para um torneio esportivo – um novíssimo e impressionante estádio, as ruas de acesso a ele, o aeroporto numa cidade adormecida – são quase sempre desnecessárias no cotidiano. o Brasil tem sorte de abrigar a Copa e a olimpíada em um espaço de apenas dois anos, mas isso também significa que esses eventos jamais se repetirão na vida da maioria das pessoas. o país não fará uso suficiente das instalações que estão sendo erguidas.

E, para os visitantes, todos já sabemos que o Brasil é um grande destino de turismo. Muitos estrangeiros desembarcarão para a Copa, mas outros tantos, em igual ou maior quantidade, evitarão fazê-lo durante o torneio. o ganho líquido para a economia do Brasil será insignificante.

Na verdade, como evento econômico, a Copa deve ser entendida como uma série de transferências: de mulheres para homens (que terão mais diversão), dos contribuintes brasileiros para os fãs de futebol e sobretudo para os clubes.

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Com estádios novinhos em folha, que farão crescer suas fortunas, os clubes talvez sejam os maiores beneficiários. o objetivo do Brasil, disse Orlando Silva no café da manhã, “é aumentar o patamar de conforto de nossos estádios, sem excluir a classe trabalhadora”. À medida que o conforto aumentar, milhões de brasileiros de classe média e suas famílias começarão a frequentar estádios. O “efeito estádio” ajuda a explicar por que as ligas de futebol dos países que sediam a Copa quase sempre veem um aumento da venda de ingressos no período posterior ao torneio. Os torcedores da nova classe média demonstram vontade de comprar ingressos caros. É o que fará os clubes mais ricos. Recentemente, um dirigente do Chelsea de Londres nos disse que vê o Brasil depois de 2014 como “um mercado que ameaça os talentos que jogam por aqui”. Um número maior de jogadores brasileiros, ele acredita, pode ficar em casa para ganhar mais dinheiro do que conseguiria na Europa. E tudo isso graças aos generosos contribuintes brasileiros.

” A Copa do Mundo não fará ninguém mais rico

no Brasil. Os políticos poderiam ter a honestidade de

confessar essa verdade”

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Mas a melhor razão de todas para sediar a Copa do Mundo é a felicidade nacional. Alguns anos atrás, Stefan Szymanski, que divide a autoria deste artigo, e Georgios Kavetsos estudaram as mudanças na sensação de bem-estar em países europeus nos meses seguintes a um grande torneio de futebol. Foram ouvidos milhares de pessoas em cada país, na baixa e alta temporada. descobriu-se que em quase todos os casos os cidadãos, em média, declaravam estar mais felizes. O estudo acompanhou diversas fontes de variação de humor – a renda, o status conjugal, o emprego e assim por diante. Receber campeonatos de futebol, inequivocamente, fez diferença positiva.

A chave parece ser a experiência coletiva. Quase todo mundo em um país-sede se sente envolvido com a competição. Falam do assunto nos pontos de ônibus, nos escritórios, nas escolas. O torneio dá às pessoas o sentimento de um propósito comum. É verdade mesmo em casos de derrota: o trauma brasileiro de 1982, quando as pessoas no Brasil chegaram a se sentar nas ruas soluçando, depois da derrota para a Itália, talvez tenha sido mais unificador que os cinco triunfos.

Sediar a Copa, portanto, fará os brasileiros mais felizes, ao menos por um tempo, e deve melhorar a vida dos clubes. Mas não fará ninguém mais rico. Os políticos poderiam ter a honestidade de confessar essa verdade.

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