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Bola dividida: a disputa por uma liga profissional eficiente e rentável

Como sempre ocorre no futebol brasileiro, ninguém se entende

Por Diego Alejandro
12 mar 2023, 08h00

As primeiras ligas profissionais de futebol surgiram no fim do século XIX na Inglaterra e na Escócia. A Football League e a Scottish Foot­ball foram responsáveis por popularizar o jogo em seus países e inspiraram organizações semelhantes na Europa e em outras partes do mundo. No século XXI, Premier League (Inglaterra), La Liga (Espanha), Serie A (Itália) e Bundesliga (Alemanha) estão entre as mais assistidas — e, portanto, entre as mais valiosas do mundo. Não é de hoje que o Brasil busca reproduzir o modelo de sucesso do Velho Continente, mas os cartolas sempre acabam tropeçando na falta de união e na ganância desmedida. Duas novas iniciativas prometem superar os velhos obstáculos de uma vez por todas. A bola, contudo, segue dividida.

A Liga do Futebol Brasileiro (Libra) e a Liga Forte Futebol do Brasil (LFF) disputam o coração dos clubes com a promessa de organizar campeonatos fortes e economicamente rentáveis. “Unidos, os times podem negociar melhor com a mídia e aumentar as receitas”, diz Thiago Scuro, CEO do Red Bull Bragantino, integrante da Libra. Como quase tudo no futebol brasileiro, o cenário é pouco harmonioso. A LFF é uma dissidência da Libra e, até agora, não há consenso sobre qual modelo será vitorioso, embora eles pouco se diferenciem (veja o quadro).

TRANSMISSÃO - Venda de direitos: valores desiguais geram desentendimentos
TRANSMISSÃO - Venda de direitos: valores desiguais geram desentendimentos (Paulo Paiva/AGIF/AFP)

Por trás da disputa, claro, há interesses financeiros. Quem patrocina a Libra é a Mubadala Capital, fundo de investimentos bilionário dos Emirados Árabes Unidos, que promete investir 4,75 bilhões de reais nos dois campeonatos. A LFF trabalha com a Serengeti Asset Management, dos Estados Unidos, em parceria com a LCP Corretora, de Curitiba, que oferecem 100 milhões de reais a mais do que a outra proposta — mas de forma parcelada. Por ser uma empresa bem menor que a rival árabe, o arremate é visto com desconfiança. Entretanto, de acordo com pessoas envolvidas nas negociações, a XP Investimentos já garantiu que o dinheiro existe. “Eu tenho plena confiança de que o trabalho é sério”, afirma Marcelo Paz, presidente do Fortaleza e um dos fundadores da LFF. “Do contrário, não teria assinado.”

Afinal, que benefícios concretos a criação das ligas traria para o futebol brasileiro? Um ponto relevante ressaltado pelas duas correntes diferentes diz respeito à remuneração dos clubes para as transmissões das partidas. A tendência é que a disparidade financeira diminua, o que teoricamente tornará as disputas mais equilibradas. Um exemplo com os times que disputaram a Série A do Campeonato Brasileiro no ano passado mostra o escandaloso abismo entre eles. O Flamengo recebeu da TV Globo 163,9 milhões de reais, enquanto os dois “lanternas”, Cuiabá e Red Bull Bragantino, levaram 146 700 reais cada um — uma diferença de mais de 1 000%. As duas ligas sugerem fórmulas menos discrepantes. Para a Libra, 40% das receitas de transmissão seriam divididas de forma equânime entre os clubes. Para a LFF, o montante deveria ser de 45%. Outro aspecto a se destacar é a possibilidade de criação de uma marca nacional, a exemplo da Premier League na Inglaterra e da La Liga na Espanha. Uma marca forte, e com o prestígio do futebol brasileiro, poderia se tornar internacional e gerar novas receitas para os clubes. Ela também tem potencial para beneficiar os torcedores — clubes mais ricos montam times melhores, e o espetáculo só tem a ganhar.

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arte ligas futebol

No papel, tudo isso parece promissor, mas muitas dúvidas pairam no ar. Quem será a liderança eleita para gerir os campeonatos sem levar em conta preferências futebolísticas e interesses pessoais? Se um time fundador da liga cair para a segunda divisão, cumprirá o seu dever de disputar o torneio menor? Investidores internacionais, como árabes ou americanos, serão capazes de entender as peculiaridades que regem o futebol mais vitorioso do mundo? São perguntas sem respostas e que merecem esclarecimentos imediatos dos envolvidos. Por enquanto, a bola permanece distante do gol e o jogo segue truncado. Pobre futebol brasileiro.

Publicado em VEJA de 15 de março de 2023, edição nº 2832

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