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Sampaoli, o treinador rock and roll

por Luiz Felipe Castro
15 fev 2019
09h19

Ex-caixa de banco e camisa 10 modesto, argentino encanta torcida do Santos com estilo elétrico. E curte a nova vida na praia

Ao pisar no gramado do Pacaembu ostentando suas roupas justas, braços cobertos por tatuagens e careca reluzente, Jorge Sampaoli tem seu nome gritado pela torcida do Santos e retribui com acenos tímidos e um sorriso quase constrangido. Pouco mais de dois meses depois de iniciar sua aventura pelo futebol brasileiro, ainda curando as feridas de uma Copa do Mundo frustrada, o treinador argentino de 58 anos já desfruta da condição de ídolo na cidade litorânea onde, além de transformar uma equipe desacreditada na melhor do Campeonato Paulista até o momento, tenta espairecer com passeios na orla e partidas de futevôlei com desconhecidos. Sampaoli, no entanto, tem enorme dificuldade para “desligar”. Fala muito, dorme pouco. Para ele, intensidade é uma filosofia de vida, não apenas uma exigência em campo, e já era assim desde os tempos de caixa de banco e jogador não mais que esforçado em ligas amadoras de sua cidade natal, Casilda.

“Jorge vive a passos muito rápidos, é uma pessoa muito urgente”, define o jornalista argentino Pablo Paván, conterrâneo, amigo e autor da biografia autorizada por Sampaoli, No Escucho y Sigo – o nome é um trecho da música favorita do técnico roqueiro –, lançada em 2015 e não traduzida para o português. À beira do campo, ‘Sampa’ é performático. Diante do Mirassol, no último domingo, gesticulou a cada jogada – chegou a perder a paciência, arrancar o boné e chutar tudo que viu pela frente por causa de um mero recuo de bola que julgou desnecessário – e celebrou loucamente, dentro do campo, o gol da vitória marcado por Jean Mota, no último lance. Mesmo diante da impaciência das arquibancadas, seu time não se desesperou e manteve a bola no chão até encontrar a vitória. “O protagonismo não se negocia nunca”, disse, em puro castelhano, na entrevista pós-jogo, explicando sua forma de encarar o jogo, filosofia que os alvinegros mais entusiasmados já apelidaram de “Sampaolé”.

O argentino, aos poucos, se acostuma com a nova vida no Brasil. Divorciado e longe dos filhos Alejandro e Sabrina, já adultos, alugou um apartamento em Santos, onde mora sozinho – a namorada, a chilena Paula Valenzuela, e os cachorros são aguardados em breve (uma das mascotes se chama Bulla, apelido da Universidad de Chile, clube onde ganhou fama internacional a partir de 2011). O treinador se move pela cidade com o próprio carro e tem sido visto com frequência, nas manhãs de folga ou fim de tarde, nas areias do canal 3, onde pratica futevôlei e tamboréu. “Ele gostou do clima da cidade e do trato das pessoas, isso o anima a se relacionar. Jorge gosta de se inserir na cultura local”, contou o amigo Paván, lembrando que durante a passagem pelo Sevilla, da Espanha, Sampaoli andava normalmente de metrô pela cidade. Com a imprensa, a relação é mais fria e protocolar: fecha a maior parte dos treinos, raramente faz brincadeiras diante das câmeras e evita entrevistas.

Quando não está em um campo de futebol ou na praia, Sampaoli quase sempre recorre à academia. O hábito de passar horas levantando peso é relativamente recente na vida do técnico, que a partir de 2016, já consagrado como campeão da América pela seleção chilena, começou a encher os braços de tatuagens e usar roupas mais justas. Enquanto malha, gosta de ouvir música – sempre rock argentino – e ler. Em casa, combate a insônia crônica assistindo a filmes e séries – além, claro, de futebol. “Jorge não dorme nunca”, dizem pessoas próximas. O filme que mais o marcou recentemente foi a comédia argentina Cidadão Ilustre, de 2016, pois se identificou com o protagonista, um escritor portenho e vencedor do Nobel de Literatura, que retornou à Argentina após 30 anos vivendo na Europa, e se sentiu um elemento estranho em sua própria terra. Sampaoli é argentino e casildense com orgulho, mas também um andarilho da bola e cidadão do mundo.

‘O Canhoto’ de Casilda

Jorge Luis Sampaoli Moya nasceu em Casilda, na Província de Santa Fé, a 56 km de Rosário, em 13 de março de 1960. Era torcedor fanático do River Plate e fã do artilheiro Beto Alonso, mas tentou a sorte nas categorias de base do Newell’s Old Boys, clube de Rosário que anos depois revelaria um tal Lionel Messi. Uma grave lesão no joelho o fez desistir do futebol de elite, mas El Zurdo (o canhoto), como é chamado até hoje pelos amigos de infância, seguiu dando seus chutes por uma equipe amadora local, o Alumni.

O futebol, porém, não pagava as contas. Paralelamente à carreira de jogador, Sampaoli teve outras ocupações, como a de caixa no Banco Província de Santa Fé, de Casilda. Em um interessante documentário produzido pela emissora argentina TyC Sports, amigos da época contam que o treinador do Santos era ótimo com números e rapidíssimo no serviço, o que facilitava suas escapadas para os treinos e jogos do Alumni. Sampaoli era o camisa 10 do time, mas se notabilizou mais por suar a camisa do que tratar bem a bola. “Tinha dez pulmões”, contou um amigo.

Sampaoli vivia para o time. Era visto como obsessivo e chegava a brigar com companheiros que eventualmente faltassem aos treinos ou jogos por compromissos familiares ou mesmo profissionais, visto que todos tinham outras ocupações. A carreira de treinador começou antes mesmo de a de meio-campista terminar, ainda jovem, e já com poucos cabelos: diante da ausência do técnico do Alumni, em plena final, pediu uma semana de licença no banco e assumiu o posto. Bateu na porta da casa de cada um dos atletas para passar instruções e convencê-los de que era possível reverter a derrota do primeiro jogo. Deu certo, o Alumni se sagrou campeão e El Zurdo iniciou uma nova trajetória.

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Perón e consagração no Chile

Em 1995, Sampaoli dirige sua equipe do alto de uma árvore
Em 1995, Sampaoli dirige sua equipe do alto de uma árvore La Capital/Reprodução

Sampaoli rodou por vários times amadores da região, sempre colecionando bons resultados. Durante suas caminhadas, gostava de escutar em seu walkman entrevistas e palestras de Marcelo “El Loco” Bielsa, sua maior referência na profissão, e até os discursos populistas do ex-presidente Juan Domingo Perón, para desenvolver sua oratória e recordar um dos heróis de sua família. Até hoje, recorre a estas técnicas de “sedução”.

“Sempre digo que o melhor advogado é o que entende o que pensa o juiz e não o que conhece as leis. No meu caso, devo saber com quem vou falar e a forma de seduzi-lo. Por isso, às vezes é melhor escutar um discurso de Perón do que assistir a um jogo de futebol”, contou, em curiosa entrevista sobre seus métodos, ao site Goal.com, em 2016.

Em Casilda, após os treinos, Sampaoli jogava futetênis (brincadeira popular entre os boleiros da Argentina), valendo dinheiro – segundo os mais chegados, jamais perdeu uma aposta, pois sempre arrumava uma forma de vencer. Consta que, em 1996, dizia a seus comandados que um dia treinaria a seleção argentina – previsão que arrancava gargalhadas.

É desse período uma das imagens mais marcantes de sua biografia: a do jovem treinador de óculos escuros, em cima de uma árvore fora do estádio, para passar instruções a seus atletas mesmo estando suspenso. A cena foi flagrada pelo fotógrafo Sergio Toriggino, do jornal La Capital, de Rosario, e fez crescer a popularidade do passional treinador. Mas apenas em 2002, aos 42 anos, Sampaoli pôde se sentir, de fato, um treinador profissional, quando assumiu o Juan Aurich, da elite peruana. Passaria ainda por outras equipes de Peru, Equador e Chile até se consagrar na Universidad de Chile, com três títulos em dois anos, incluindo o da Sul-Americana de 2011, com um futebol atraente.

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O sucesso rapidamente o levou à seleção chilena, onde fez história. Na campanha do título inédito da Copa América, em casa, teve de tomar uma decisão importante: excluir ou não do grupo o astro Arturo Vidal, que batera sua Ferrari ao dirigir embriagado em um escândalo nacional. Até mesmo a presidente chilena Michelle Bachelet ligou para o técnico para cobrar uma atitude. Em nome dos “interesses comunitários”, Sampa perdoou a estrela do time e admitiu que, “se fosse o terceiro goleiro”, a punição seria outra. “Um treinador tem que tomar decisões rápidas”, disse, à época. Após a vitória nos pênaltis, o emotivo Sampaoli celebrou o título mais importante de sua carreira de forma contida, em respeito aos compatriotas e amigos em Casilda.

Rock, paixão marcada na pele

A saída das ligas amadoras deu a Sampaoli mais tempo para apreciar outras expressões de arte, especialmente a música e o cinema. “No futebol amador, tinha de fazer tudo sozinho, era jogador, treinador, assessor, olheiro… No profissional, com ajudantes, pôde se ocupar de outras coisas e abrir a mente, foi se tornando uma pessoa, digamos, mais culta”, conta o biógrafo Pablo Paván. O amor de Sampaoli pelo rock and roll está marcado na pele. Num braço lê-se, Oktubre, disco da banda Patrício Rey y sus Redonditos de Ricota; no outro, destaca-se a frase “Não escuto e sigo, porque muito do que está proibido, me faz viver”, refrão da canção Prohibido, de sua banda favorita, Callejeros.

A letra, que cita maconha, sexo oral e outros temas controversos, resume bem o seu perfil contestador e de quem não se importa com as opiniões alheias. O gosto pela banda e seu senso de justiça o aproximaram do vocalista, Pato Fontanet, a quem foi visitar algumas vezes na prisão – solto desde 2018, ele e outros integrantes da banda foram responsabilizados, de forma absurda na visão de Sampaoli, pela “Tragédia de Cromañón”, um incêndio que matou 194 pessoas em uma casa de shows na Argentina, em 2004.

Até o momento, Sampaoli não manifestou encanto por nenhuma banda brasileira. “É muito fanático da Argentina. Viveu em vários países, mas sempre fez questão de se sentir muito argentino, com as músicas, os costumes”, conta Paván. Tampouco se mostra tão interessado em aprender português – dispensa tradutores ou professores e, nas entrevistas e até nos vídeos de conversas com os atletas disponibilizados pelo clube, fala apenas em castelhano velocíssimo. “Está aprendendo o idioma no dia a dia”, garantem amigos.

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O treinador, que sempre sonhou em comandar a seleção argentina e orientar Lionel Messi, durou apenas um ano no cargo. Perdeu o emprego na AFA logo após a eliminação nas oitavas de final do Mundial, diante da campeã França, e nem fez questão de desmentir os rumores sobre uma possível má relação com os líderes da equipe. Sabe que a passagem frustrada arranhou sua imagem no país, mas não se rende. “Ele se reergueu rapidamente, pois acredita muito que os fracassos são formativos”, garante Paván.

Pessoas próximas notam Sampaoli cada vez mais entusiasmado com o projeto santista, em contraste ao incômodo demonstrado nos primeiros dias em que até cobrou publicamente presidente José Carlos Peres pela ausência de reforços. “Jorge gosta de ir a equipes que não viviam bons momentos, é assim que trabalha melhor. Ele se sente cômodo no conflito”, conclui seu biógrafo.