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Penélope e Javier: ‘É desafiador trabalhar com quem você ama’

Em entrevista a VEJA, casal fala sobre novo filme, ‘Todos Já Sabem’, machismo e feminismo, e o duradouro casamento dentro das telas

Com Todos Já Sabem, do diretor iraniano Asghar Farhadi, Penélope Cruz e Javier Bardem celebraram 26 anos de parceria na ficção — na vida real, o romance se firmou bem depois: eles estão juntos desde 2007 e têm dois filhos. A boa parceria no cinema começou com Jamón, Jamón (1992), de Bigas Lunas. Na época, Penélope tinha apenas 16 anos, e Bardem, 21. Por ser muito nova e protagonizar cenas sensuais, a atriz fez o que pôde para esconder da família o roteiro, assim não seria impedida de aceitar o trabalho. Hoje, ambos gostam de reforçar a importância que o longa teve em suas vidas. “Foi nossa grande chance”, diz a atriz a VEJA após a primeira exibição de Todos Já Sabem, que estreou no Festival de Cannes de 2018 e acaba de chegar aos cinemas brasileiros. 

Agora maduros e estabilizados como estrelas do cinema europeu e de Hollywood, o casal é seletivo na escolha dos filmes que fazem juntos. Mesmo assim, a reincidência é grande: foram nove longas juntos, mas apenas em quatro interagem em cena — além de Jamón, Jamón e Todos Já Sabem, o casal se relaciona em Escobar – A Traição e Vicky Cristina Barcelona, que rendeu a ela o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Na mais recente empreitada, os dois interpretam antigos namorados de juventude, que precisam rever conceitos e desenterrar segredos de família quando a filha dela é sequestrada.

Penélope e Bardem falaram a VEJA sobre a parceria nas telas, o trabalho de Farhadi e um assunto caro em Hollywood no momento: machismo. 

Após tantos filmes juntos, como enxergam essa parceria dentro e fora das telas?

Javier: É desafiador trabalhar com quem você ama e que te conhece tão bem. Você sabe que não consegue mentir para aquela pessoa, que ela vai saber se você está dando o seu melhor ou não. Outro dilema é a súbita necessidade de aprovação. Isso é algo com que tomamos cuidado, se não, ficamos nervosos e o trabalho é prejudicado. O desafio é apagar toda expectativa e chegar nu diante dos personagens.

Penélope: Jamón, Jamón foi onde nos conhecemos e começamos nossa carreira. Foi muito especial. Demos nosso melhor, pois sabíamos que era nossa grande chance de conseguir emplacar a carreira de atores. Desde então, tentamos não nos repetir em personagens e histórias e nem pretendemos fazer isso com frequência. Também evitamos levar os personagens para casa. O emprego e o lar não são a mesma coisa.

Asghar Farhadi é iraniano e fez um filme com atores espanhóis na Espanha. Como foi para vocês serem dirigidos a partir do olhar de alguém de uma cultura distante?

Javier: Esse cara veio lá do Irã, deixou família para trás, morou em um apartamento minúsculo na Espanha para conhecer nossa cultura. Ele escreveu 99% do roteiro sozinho. Foram poucas as vezes em que palpitamos, dizendo que um espanhol não falaria assim, ou reagiria de tal modo. E ele tentou se manter fiel a isso. Mas a maior parte é original dele. É impressionante. Não me imagino no caminho contrário: indo para o Irã, criando uma história iraniana, falada em persa, com iranianos. Mas gostei tanto de trabalhar com ele que, no fim, disse: “Se você quiser que eu vá ao Irã fazer um filme com você de novo, só me falar. Eu aprendo a falar persa só pela oportunidade de estar num set com o Asghar novamente.

Penélope: Ele teve muito cuidado de olhar para nossas particularidades culturais, sem apelar para clichês. O Asghar escreve muito bem, cria personagens com muito cuidado. Até os coadjuvantes são bem construídos, tem sua importância. O filme é sobre a complexidade do comportamento humano, sobre como nos relacionamos com os outros e conosco. O peso do passado e os segredos que as famílias carregam. Para mim, são os assuntos que realmente têm relevância na arte, que se propõe a entender o comportamento humano e suas conexões.

A Penélope sofre um ataque de pânico em uma cena em que conversamos num carro. Foi tão intenso que ela perdeu o fôlego e desmaiou, uma ambulância veio ao set atendê-la

Javier Bardem conta sobre susto no set de 'Todos Já Sabem'

Penélope, você tem cenas muito intensas neste filme. Como foi a construção dessa personagem?

Penélope: Durante mais da metade do filme, ela passa por um processo de ansiedade, depressão, desespero, raiva e ira. Ela está sendo ameaçada e estão usando uma das pessoas que ela mais ama para isso. Não foi uma personagem fácil. O Asghar é exigente, pede sempre por mais dos atores, mas de um jeito bom. Tivemos o cuidado de criar essa personagem, essa situação, da maneira mais respeitosa possível, pensando nas pessoas que já passaram por isso, pelo sequestro, pela perda de um ente querido, pela quebra de uma relação tão sagrada. Mantive o pensamento nessas pessoas, que passaram por um trauma que ninguém na vida deveria passar.

Javier: Tudo isso mexeu com a gente, emocionalmente. É algo que te deixa vulnerável. Mas ela é forte e sabe como imergir, se expor, e depois voltar a quem ela é para ir para casa.

Teve algum momento que foi mais dramático nos bastidores?

Javier: Teve uma cena que me deixou preocupado com ela. A Penélope sofre um ataque de pânico em uma cena em que conversamos num carro. Foi tão intenso que ela perdeu o fôlego e desmaiou, uma ambulância veio ao set atendê-la. Graças a Deus não foi nada. Mas ficamos preocupados. E aquilo foi na primeira semana de filmagem, ainda tínhamos quatro meses pela frente. Foi quando percebemos que seria intenso.

Penélope: Asghar me pediu para repetir algumas vezes esta cena e, em algum momento, senti falta de oxigênio. Quando saí do carro, minha pressão caiu. Senti meu corpo falando: seja lá o que você estiver fazendo, por favor, pare. Quando eu saí da ambulância, Asghar veio falar comigo preocupado. Quando ele viu que eu estava bem, perguntou, meio sem graça: “Será que podemos fazer a cena mais uma vez?”. Eu ri e falei: “Claro, adoraria”. Foi uma parceria maluca a nossa.

Javier Bardem e Penélope Cruz no filme ‘Vicky Cristina Barcelona’: Atriz levou o Oscar pelo papel

Javier Bardem e Penélope Cruz no filme ‘Vicky Cristina Barcelona’: Atriz levou o Oscar pelo papel (Reprodução/Divulgação)

Penélope, quando o filme foi lançado, no Festival de Cannes, em 2018, você foi questionada se tinha ganhado o mesmo salário que o Javier, uma das bandeiras do movimento Time’s Up, que pede igualdade salarial entre homens e mulheres e o fim do abuso sexual. Como vê esse momento? Passou por alguma experiência de assédio?

Assim como todas mulheres, tive experiências ruins. Mas, como comecei cedo, minha família foi muito presente. Eu nunca ficava sozinha com estranhos, em reuniões. Então fui mais protegida. Cresci entre mulheres que exigiam respeito, e isso foi inspirador. É importante que esses movimentos não fiquem parados em Hollywood. As médicas, faxineiras, entre tantas outras mulheres não têm o microfone como nós e também sofrem abuso de poder. Por isso, precisamos continuar falando do assunto, mas de maneira que ele se reflita em outras camadas da sociedade.

O ator Juan Diego disse recentemente: ‘Eu tive que desaprender o machismo que existia em mim’. Creio que todos nós homens temos que passar por esse processo. Fomos ensinados e educados por uma cultura machista

Javier Bardem

E você, Javier, como enxerga esse momento de movimentos feministas com tanta expressão?

Acho bom que finalmente a conversa chegou para ficar. Gosto desse ator espanhol, Juan Diego, um Al Pacino da Espanha, que disse recentemente: “Eu tive que desaprender o machismo que existia em mim”. Creio que todos nós homens temos que passar por esse processo. Fomos ensinados e educados por uma cultura machista. Um homem não precisa lutar por direitos, por melhores salários. Temos a ideia fixa de que esses direitos são nossos, que os merecemos. Não pensamos nas minorias que também as merecem, mas não as possuem. Gosto de ver que novas gerações vão aprender a enxergar o mundo com outros olhos, olhos iguais em relação a raças, gêneros e orientação sexual. Somos iguais. Mas parece que temos que fazer um esforço para ver essa igualdade. Meus pais se separaram quando eu era muito novo, então fui criado por minha mãe, uma mulher linha dura, cheia de atitude, mas doce e sábia. Ela me ensinou a prestar atenção e respeitar as semelhanças e particularidades entre homens e mulheres.