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Em pleno voo

Enquanto os filmes de super-heróis chegam ao fim de mais um ciclo, 'Homem-Aranha no Aranhaverso' infunde energia ao gênero e restaura seu apelo primordial 

A quem não entende por que os filmes de super-heróis se tornaram o grande amálgama cultural deste início de século, sugere-se espiar ­Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse, Estados Unidos, 2018), já em cartaz no país: todas as respostas mais claras e ressonantes estão na animação arrebatadora concebida por Phil Lord, o maestro pop de Uma Aventura Lego e Anjos da Lei. Uma infusão de energia e renovação no gênero, Aranhaverso combate os vícios do “mais” e “maior” com a singeleza de seu protagonista — não Peter Parker, o Homem-Aranha que todos conhecem, mas Miles Morales, um garoto nova-iorquino de 13 anos, filho de um policial negro e de uma enfermeira porto-riquenha que, atentos ao futuro do único rebento, transferiram-no da escola pública onde ele era tão popular para um colégio particular em que ele é um estranho. Miles é um estudo encantador da pré-­adolescência: é amoroso mas já revira os olhos para qualquer coisa que os pais digam; é sociável e feliz mas já se tranca no quarto, de fone nos ouvidos; adora o tio cool e perde a paciência com o pai. Miles não sabe se foge das mudanças inevitáveis da idade ou se corre ao encontro delas — dúvida que se torna irrelevante quando uma aranha radioativa o morde.

Com criatividade atordoante, Aranhaverso faz uma fusão de linguagem gráfica, ação, trilha de efeitos e música (quase sempre gemas do hip-hop) que, em vez de submergir os personagens, levanta-os como em uma onda, empurrando-os à frente. Wilson Fisk (o vilão também da série Demolidor), uma montanha de malevolência em cujo interior sobrevive um pedregulho de afeto — pela mulher e filho que perdeu —, está testando um acelerador de partículas que vai buscar sua família em universos paralelos. O risco iminente é o desmonte desta dimensão; e o efeito colateral imediato é a entrada, na vida de Miles, de várias outras versões do Homem-Aranha. Só Miles, porém, pode enfiar no acelerador o pen-drive que o destruirá (e tente acertar uma entrada USB enquanto todo o universo gira feito doido).

Se a responsabilidade é descomunal para um garoto de 13 anos, considerem-se os desafios de uma geração que tem de carregar, quase sempre sem irmãos, todas as expectativas dos pais; que se tornou o motor involuntário de uma revolução nos padrões de convivência; que enfrenta uma polarização tão aguda de princípios e opiniões que é como se estivesse equilibrando-­se sobre um vazio. Com toda a sua efervescência visual e narrativa, Aranhaverso é uma façanha da simplicidade. Lord e seu trio de diretores removem dos filmes de super-heróis as camadas de sedimentos — a grandiloquência, os efeitos, a mitologia arcana — e reinstauram seu apelo primordial: a exortação de que, se navegar este mundo às vezes parece mesmo coisa para super-herói, o fato é que qualquer um pode sê-lo.

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2019, edição nº 2617

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