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“A música ocupou os meus sonhos”

Tallya Macedo, 20 anos, conta como, após uma oportunidade, passou de aluna a professora em escola de excelência

Por Felipe Erlich 4 fev 2023, 08h00
A musicista Tallya Macedo -
A musicista Tallya Macedo – (//Arquivo pessoal)

Sou musicista. Pode não parecer uma afirmação arrebatadora, mas, de certa maneira, diz tudo sobre quem sou. É mais do que apenas tocar um instrumento, diz respeito ao que vivi, a trajetória que trilhei ao longo de quase toda a vida. No princípio, a música era uma simples alegria para mim. Em uma família toda musical, com pai, irmãos e tia fazendo som com instrumentos variados, naturalmente não fiquei de fora. Meu pai tinha o sonho de ter uma pequena orquestra em casa, com cada um dos quatro filhos tocando um instrumento. Em meio a tanta melodia, ele conta que a minha paixão se destacava, que eu não desgrudava dos instrumentos. Há mais de uma década me dedico à minha flauta, da qual já sou inseparável.

Não é raro que a música de orquestra, que pratico diariamente, acabe confinada a espaços excludentes, de difícil acesso. Entrei no mundo da música sem privilégios. Para isso, bastaram duas coisas: dedicação, da minha parte, e as oportunidades que me foram concedidas. Quando disse para o meu pai que queria aprender flauta, ele ficou contente pela escolha, mas temeu que o sonho não coubesse no orçamento. Eu era bolsista numa escola particular. Com muita sorte, encontramos uma professora de música que nos vendeu sua flauta por um bom preço. Essa foi a primeira porta que a vida, com muita benevolência, abriu para mim.

Comecei a minha jornada como flautista na banda do Corpo de Bombeiros de Joinville (SC), onde me diverti bastante. Após algum tempo, em 2017, foi aberto o primeiro processo seletivo para estudar no Musicarium, uma academia filarmônica da cidade que é referência em formação de jovens músicos. O curso é bancado principalmente por filantropia, oferecendo bolsas para todos os seus 180 alunos, 80% deles vindos da rede pública de ensino. Mas havia apenas uma vaga para quem tocasse flauta transversal. Fiquei em dúvida se deveria me candidatar. No entanto, meu regente na banda do Corpo de Bombeiros via potencial em mim e estimulou que eu tentasse. Sou muito grata por ele ter acreditado em mim. Não apenas fui selecionada, como me formei e, passados quatro anos da minha entrada, fui a primeira ex-aluna a se tornar professora da academia, aos 19 anos de idade.

O músico tem de renunciar a muitas coisas para se dedicar ao seu ofício. Perdi a conta de quantas vezes deixei de sair com amigos porque precisava praticar. A dedicação ao domínio da flauta não se dá isoladamente em minha vida. Antes, ela era acompanhada da escola. Agora, do trabalho e dos cursos profissionalizantes. Aos 20 anos, estou quase me formando em dois cursos, de licenciatura em música e produção cultural. Além disso dou aulas no Musicarium. É uma rotina intensa, mas já surge um novo desafio em 2023. Passei no bacharelado em flauta da Escola de Belas Artes do Paraná. Estou no processo de mudança para Curitiba, mas, como não terei aulas todos os dias da semana, vou poder continuar como professora no Musicarium, indo e voltando de Joinville. Além de apaixonante, esse trabalho vai me permitir pagar minhas contas.

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A possibilidade de seguir como professora me deixa muito feliz porque posso contribuir para o desenvolvimento do Musicarium, esse lugar que tanto me ajudou. É fantástico termos esse espaço em Joinville, que nos dá acesso à cultura sendo financiado apenas por doações. Não precisamos ir a Curitiba, a capital mais próxima, para assistir a um concerto. Fazemos aqui mesmo. Sem falar em nossa proposta central, oferecer oportunidade para que jovens músicos se desenvolvam. É algo que não se faz somente com técnica, mas dando o exemplo a crianças e adolescentes, permitindo que a música ocupe seus sonhos, assim como ocupa o meu.

Tallya Macedo em depoimento dado a Felipe Erlich

Publicado em VEJA de 8 de fevereiro de 2023, edição nº 2827

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