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“A escola não pode ser uma ilha”

A paulista Débora Galofaro, uma das dez melhores professoras do mundo, sacudiu a rotina ao trazer o lixo da favela para a aula de robótica

O semblante tímido da paulista Débora Galofaro, de 39 anos, dissipou-­se quando ela foi chamada a fazer aquilo que mais sabe e de que mais gosta na vida: dar aula. Estava em Dubai no domingo 24 como uma das dez finalistas do Nobel da educação, o Global Teacher Prize, parceiro do Prêmio Educador Nota 10, promovido pela Editora Abril, pela Globo e pelas fundações Victor Civita e Roberto Marinho. Débora atraiu uma plateia de alto quilate para assistir a uma amostra da aula de robótica à base de sucata que dá desde 2015 na escola municipal Ary Parreiras, situada entre quatro favelas de São Paulo. Suas turmas recolhem o lixo da vizinhança e dele retiram fios, peças e engrenagens para produzir robôs, carros e aviões de brinquedo. Assim, ela despertou o pensamento científico e o interesse pelo colégio em crianças sem horizonte. Mesmo não tendo levado o prêmio máximo, que foi para Peter Tabichi, criador de um clube de ciências no Quênia, Débora é vencedora: influenciou o currículo da rede municipal de São Paulo, em breve imprimirá sua marca também no currículo estadual e está com viagem marcada para o prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que quer aprender com ela. A seguir, sua entrevista a VEJA, interrompida por um pedido e outro de foto de fãs.

A senhora enfrentou resistência quando apareceu com a ideia de catar lixo com os alunos? Sim, e a primeira veio das crianças. Queriam ficar no conforto da sala de informática, na rede social, e não sair para se meter no lixo. Diziam: “A gente já vive no meio dele. Fazer o que ali?”. De professores, ouvi: “Isso aí é artesanato” ou “É muito difícil, esquece”. Foi um início duro, mas com o tempo todos se envolveram.

Até hoje a maioria das experiências de levar tecnologia para a escola naufragou. Por quê? Muitos professores encaram a tecnologia como um fim em si mesmo, e não como um instrumento para capturar a atenção dos alunos com o uso de uma linguagem que conhecem. No caso da robótica, eles absorvem conceitos de física, química, matemática, melhoram o português ao preencher fichas científicas e ainda desenvolvem habilidades valiosas neste século XXI, como colaboração e capacidade de juntar as peças e solucionar problemas.

As escolas brasileiras são refratárias a atividades que mudam a rotina? São. Em geral, insistem no modelo antiquado da lousa e do giz, com o professor à frente falando, falando. Permanecem na fórmula 1.0, quando o mundo está na era 4.0, em rápida transformação. A escola não pode mais ser uma ilha, fechada ao que se passa fora dela, na sociedade. O problema é que o professor não foi ensinado a abrir os portões, mas a se limitar ao próprio quadrado. Passei anos em uma indústria de circuitos elétricos e, quando resolvi deixar o emprego para dar aula, cheguei com uma visão mais aberta do mundo à minha volta. Isso me ajudou bastante.

A faculdade no Brasil não forma o professor como deveria? Não. Ela é teórica demais e não prepara para o exercício da profissão.

Dinheiro é um grande problema? É, sem dúvida, mas não pode servir de desculpa para a inação. O professor precisa parar de ficar se colocando no papel de vítima e fazer tudo o que conseguir com os recursos disponíveis. Minha aula de robótica, por exemplo, saiu do lixo.

O desencanto de muitos docentes com a profissão tem relação direta com o salário baixo? É claro que o salário conta, mas está longe de explicar tudo. Em qualquer carreira, as pessoas precisam ter um horizonte, enxergar oportunidades adiante, ser valorizadas pelo talento. No Brasil, não se vê nada disso.

A senhora conviveu em Dubai com colegas de vários países. A vida deles em sala de aula é muito diferente da sua? Sinto que quase todos sofrem em alguma medida com a escassez de recursos e as dores de ensinar. Querem mais, e com justiça. Mas as questões para meus pares dos Estados Unidos ou da Europa são bem menos agudas. No meu dia a dia, lido com crianças e jovens de famílias pobres, que convivem com drogas, com o crime batendo à porta. A maioria tem o pai na cadeia. Mantê-los envolvidos com a escola e disciplinados é um desafio constante.

A senhora é a favor do modelo de escolas cívico-militares, projeto do governo Bolsonaro que usa ex-PMs e bombeiros para garantir a ordem no colégio? Não acredito que esse seja o caminho para enfrentar a indisciplina a longo prazo. Não se faz uma revolução na escola impondo ordem, mas sim conquistando-a com uma boa aula em que o aluno entenda os ganhos que podem vir daí. Parece idealista? Eu não acho. Em vez de obrigar todo mundo a cantar o Hino Nacional, o que defendo é cultivar os valores embutidos nesse ato. Isso é educar.

Qual a sua opinião sobre o Escola sem Partido, movimento defendido pelo governo que prega o combate à ideologia de esquerda nas aulas? Vivemos num país em que ainda há gente fora da escola, os professores são desvalorizados e não existe sequer um bom programa de alfabetização. Com tanta coisa essencial para fazer, esse assunto é uma perda de tempo. E mais: para implantar o projeto, seria necessário contratar pessoas para fiscalizar os professores. Podemos certamente achar um uso melhor para o dinheiro.

E trazer à escola o debate sobre a diversidade de gênero e educação sexual, a senhora é contra ou a favor? A favor, claro. São assuntos que fazem parte da nossa realidade, e uma escola laica e livre não pode dar as costas a eles. A educação sexual envolve inclusive uma questão de saúde. A gravidez na adolescência é um problema concreto. Lido com ele o tempo todo na minha escola.

A senhora tem alguma opinião sobre o guru do clã Bolsonaro, Olavo de Carvalho, que exerce influência sobre a condução das políticas no Ministério da Educação? Só uma: não espero que uma pessoa que pensa a educação seja mal-educada e saia por aí falando palavrão.

O ministro da Educação, Ricardo Vélez, a chamou para uma conversa em Brasília. Como foi o encontro? Pedi-lhe que prestasse atenção às boas práticas que vêm sendo desenvolvidas na sala de aula, para valorizá-las e replicá-las em outros cantos do Brasil, e que enxergasse o professor como peça-chave da educação. Ele ouviu.

E o que respondeu? Que me chamaria a Brasília outras vezes. Vou esperar e torcer para que a iniciativa não morra quando este Global Teacher Prize deixar de ser notícia.

Publicado em VEJA de 3 de abril de 2019, edição nº 2628

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