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Rumo ao Oscar, brasileiro Adolpho Veloso já conquistou Spielberg e Shyamalan

Indicado por 'Sonhos de Trem', diretor de fotografia fala a VEJA sobre trajetória, projetos futuros e o aumento do interesse de Hollywood por seu trabalho

Por Raquel Carneiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 jan 2026, 08h00 • Atualizado em 29 jan 2026, 13h04
  • Surpresa entre os indicados ao Oscar de melhor filme, Sonhos de Trem nasceu de forma independente, passou pelo Festival de Sundance, no início de 2025, e lá chamou a atenção da Netflix, que adquiriu os direitos de exibição do projeto — e vem trabalhando por seu reconhecimento. Dirigido pelo americano Clint Bentley, estrelado por Joel Edgerton e Felicity Jones, o filme tem um ponto forte latente: a brilhante direção de fotografia assinada por um brasileiro, o paulistano Adolpho Veloso, 37 anos. Indicado ao Oscar na categoria, Veloso é um novato com cara de favorito — se levar, será não só o primeiro brasileiro a ganhar a estatueta de direção de fotografia como também o primeiro profissional técnico daqui a ter um Oscar por uma produção de fora do Brasil. Ganhando ou não, a indicação aumentou o prestígio de Veloso lá fora, que ganhou elogios de Steven Spielberg e já tem engatilhado outros projetos grandes na gringa. A VEJA, ele falou sobre sua trajetória e esse momento da carreira. Confira:

    Para começar, como tem sido a sua rotina ultimamente com a campanha para as premiações e o trabalho de divulgação do filme? Tem sido uma loucura. Digo que o que mais se aproxima disso é uma campanha política: é uma caravana que vai de um lado para o outro. Como é minha primeira vez, tenho confiado muito na equipe da Netflix; basicamente, eu faço o que eles mandam. É exaustivo. São entrevistas, sessões especiais, jantares e eventos para conhecer pessoas. É um misto de cansaço com uma gratidão imensa. Quando fizemos o filme, nunca imaginei essa reação ao meu trabalho.

    O que esperava? Difícil dizer. Sonhos de Trem é um filme independente, lançamos no Festival de Sundance no ano passado. Primeiro veio a surpresa das críticas positivas, depois a compra pela Netflix, as entrevistas aumentando até o momento no Critics Choice quando olho para o lado e vejo o Timothée Chalamet na minha frente e o Adam Sandler ao lado. É surreal.

    Como controla a ansiedade nessa fase do Oscar? Tento me policiar para não criar expectativas. O ano está particularmente difícil, com filmes enormes e nomes muito fortes na categoria de fotografia. Além disso, estou aprendendo agora sobre o lado político da coisa, a importância dos contatos. Eu estou saindo do zero nesse circuito, enquanto outros competidores já estão lá há anos. Se acontecer, ficarei muito feliz; se não, é apenas mais um degrau. O que já conquistamos com o filme é motivo de sobra para comemorar.

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    Você nasceu em São Paulo, mas mora em Portugal. Como foi essa transição? Sou de São Paulo, de família mineira — minha mãe é de Araguari, no Triângulo Mineiro — e mudei para Lisboa há seis anos. Como eu já estava trabalhando muito na Europa e nos Estados Unidos, a logística de voltar para o Brasil entre os projetos era difícil. Portugal facilitou essa base pela proximidade e pelo sentimento de “casa” — a língua, a música brasileira no Uber, a comida. Eu trabalho no mundo todo, mas curiosamente menos em Portugal, que é para onde volto para descansar e tentar reviver minhas plantas.

    Como surgiu seu interesse pelo audiovisual e pela direção de fotografia? Me apaixonei pelo cinema aos 12 anos; era um portal para outros mundos. Fiz faculdade na FAAP, em São Paulo, e comecei a estagiar no primeiro ano em qualquer função: produção, assistência, o que aparecesse. Ali entendi que meu foco era câmera e luz. Fui crescendo aos poucos, de curtas e clipes para publicidade e, finalmente, longas. Fiz documentários e filmes no Brasil antes de começar a filmar fora.

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    Além do talento, o que impulsionou sua carreira internacional de forma tão rápida? É uma mistura de muito esforço, noites sem dormir, sorte e privilégios. Tive o privilégio de ter uma família que me apoiou e de poder cursar uma boa faculdade. Mas também houve muito sacrifício, de abrir mão de momentos importantes com amigos e família para estar no set. É o clichê de “sangue, suor e lágrimas”.

    Li que, ao assistir ao filme pela primeira vez, você achou que estava horrível. Por que essa autocobrança tão forte? Acho que é natural do processo. O primeiro corte é inacabado e é difícil não duvidar do material. Você assiste tantas vezes na pós-produção que perde a perspectiva de espectador; só consegue enxergar os problemas. Na estreia do festival, especificamente, a projeção e o som estavam ruins, o que me deu vontade de desaparecer na cadeira. Eu e o diretor estávamos desesperados, mas aí as críticas saíram e foram ótimas. Cinema é isso: você faz sua parte, mas depois depende da projeção, da calibração da TV de quem assiste e até do barulho da pipoca na sala.

    Diretor de fotografia Adolpho Veloso no set de 'Sonhos de Trem' -
    Diretor de fotografia Adolpho Veloso no set de ‘Sonhos de Trem’ – (Daniel Schaefer/Netflix)
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    Algum elogio de alguém que você admira lhe marcou especialmente nesta fase? Sim, o Steven Spielberg entrou em contato com o diretor para elogiar o filme e fazer perguntas sobre os bastidores. Também recebi mensagens de fotógrafos que são meus heróis, como o Robbie Ryan. Ver meu nome ao lado dessas pessoas em listas de premiações é algo completamente surreal.

    Como entrou no projeto de Sonhos de Trem? Foi através da minha parceria com o diretor, o Clint Bentley. Fizemos um filme menor em 2019, o Jockey. Ele me chamou após ver um documentário que eu tinha filmado com o Heitor Dhalia, pois queria misturar ficção com linguagem documental. Criamos uma conexão forte e temos gostos parecidos. Quando surgiu o convite para ele adaptar o livro de Sonhos de Trem, ele me chamou desde o início do roteiro.

    Entre seus projetos futuros está o próximo filme do M. Night Shyamalan. O que pode adiantar? Filmamos no ano passado e terminamos em agosto. Não posso dizer muito e ainda nem assisti ao corte final. Estou ansioso para ver o resultado.

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    Cena do filme 'Sonhos de Trem' -
    Cena do filme ‘Sonhos de Trem’ – (//Netflix)
    Cena do filme 'Sonhos de Trem' -
    Cena do filme ‘Sonhos de Trem’ – (//Netflix)

    Qual a principal diferença entre filmar no Brasil e no sistema de Hollywood? A dinâmica muda. Nos EUA e na Inglaterra, o sistema é muito industrial e engessado por regras. No Brasil, somos treinados a ser mais criativos pela necessidade. Acho que é por isso que me chamam: eu não aceito um “não dá para fazer” de imediato; sempre busco um caminho alternativo. Eu adoraria fazer um filme no Brasil em breve, o que me atrai é sempre a história e o diretor, não importa o país.

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    Quais diretores brasileiros e estrangeiros estão na sua lista de desejos para colaborar? No Brasil, admiro muito o Kleber Mendonça Filho, o Karim Aïnouz, Walter Salles, a Anna Muylaert, entre outros. Lá fora, adoraria trabalhar com o Ruben Östlund, a Eliza Hittman e a Sofia Coppola.

    Essas premiações já estão rendendo novos convites de trabalho? Sim, muito. O volume de roteiros que recebo agora é muito maior. Mas é preciso ter cautela para entender o que é real e o que é apenas o “frenesi” do momento. Esse meio é muito cíclico e imediato. O importante é que a visibilidade desperta a curiosidade das pessoas para assistirem ao filme e se conectarem com o meu trabalho.

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