Rumo ao Oscar, brasileiro Adolpho Veloso já conquistou Spielberg e Shyamalan
Indicado por 'Sonhos de Trem', diretor de fotografia fala a VEJA sobre trajetória, projetos futuros e o aumento do interesse de Hollywood por seu trabalho
Surpresa entre os indicados ao Oscar de melhor filme, Sonhos de Trem nasceu de forma independente, passou pelo Festival de Sundance, no início de 2025, e lá chamou a atenção da Netflix, que adquiriu os direitos de exibição do projeto — e vem trabalhando por seu reconhecimento. Dirigido pelo americano Clint Bentley, estrelado por Joel Edgerton e Felicity Jones, o filme tem um ponto forte latente: a brilhante direção de fotografia assinada por um brasileiro, o paulistano Adolpho Veloso, 37 anos. Indicado ao Oscar na categoria, Veloso é um novato com cara de favorito — se levar, será não só o primeiro brasileiro a ganhar a estatueta de direção de fotografia como também o primeiro profissional técnico daqui a ter um Oscar por uma produção de fora do Brasil. Ganhando ou não, a indicação aumentou o prestígio de Veloso lá fora, que ganhou elogios de Steven Spielberg e já tem engatilhado outros projetos grandes na gringa. A VEJA, ele falou sobre sua trajetória e esse momento da carreira. Confira:
Para começar, como tem sido a sua rotina ultimamente com a campanha para as premiações e o trabalho de divulgação do filme? Tem sido uma loucura. Digo que o que mais se aproxima disso é uma campanha política: é uma caravana que vai de um lado para o outro. Como é minha primeira vez, tenho confiado muito na equipe da Netflix; basicamente, eu faço o que eles mandam. É exaustivo. São entrevistas, sessões especiais, jantares e eventos para conhecer pessoas. É um misto de cansaço com uma gratidão imensa. Quando fizemos o filme, nunca imaginei essa reação ao meu trabalho.
O que esperava? Difícil dizer. Sonhos de Trem é um filme independente, lançamos no Festival de Sundance no ano passado. Primeiro veio a surpresa das críticas positivas, depois a compra pela Netflix, as entrevistas aumentando até o momento no Critics Choice quando olho para o lado e vejo o Timothée Chalamet na minha frente e o Adam Sandler ao lado. É surreal.
Como controla a ansiedade nessa fase do Oscar? Tento me policiar para não criar expectativas. O ano está particularmente difícil, com filmes enormes e nomes muito fortes na categoria de fotografia. Além disso, estou aprendendo agora sobre o lado político da coisa, a importância dos contatos. Eu estou saindo do zero nesse circuito, enquanto outros competidores já estão lá há anos. Se acontecer, ficarei muito feliz; se não, é apenas mais um degrau. O que já conquistamos com o filme é motivo de sobra para comemorar.
Você nasceu em São Paulo, mas mora em Portugal. Como foi essa transição? Sou de São Paulo, de família mineira — minha mãe é de Araguari, no Triângulo Mineiro — e mudei para Lisboa há seis anos. Como eu já estava trabalhando muito na Europa e nos Estados Unidos, a logística de voltar para o Brasil entre os projetos era difícil. Portugal facilitou essa base pela proximidade e pelo sentimento de “casa” — a língua, a música brasileira no Uber, a comida. Eu trabalho no mundo todo, mas curiosamente menos em Portugal, que é para onde volto para descansar e tentar reviver minhas plantas.
Como surgiu seu interesse pelo audiovisual e pela direção de fotografia? Me apaixonei pelo cinema aos 12 anos; era um portal para outros mundos. Fiz faculdade na FAAP, em São Paulo, e comecei a estagiar no primeiro ano em qualquer função: produção, assistência, o que aparecesse. Ali entendi que meu foco era câmera e luz. Fui crescendo aos poucos, de curtas e clipes para publicidade e, finalmente, longas. Fiz documentários e filmes no Brasil antes de começar a filmar fora.
Além do talento, o que impulsionou sua carreira internacional de forma tão rápida? É uma mistura de muito esforço, noites sem dormir, sorte e privilégios. Tive o privilégio de ter uma família que me apoiou e de poder cursar uma boa faculdade. Mas também houve muito sacrifício, de abrir mão de momentos importantes com amigos e família para estar no set. É o clichê de “sangue, suor e lágrimas”.
Li que, ao assistir ao filme pela primeira vez, você achou que estava horrível. Por que essa autocobrança tão forte? Acho que é natural do processo. O primeiro corte é inacabado e é difícil não duvidar do material. Você assiste tantas vezes na pós-produção que perde a perspectiva de espectador; só consegue enxergar os problemas. Na estreia do festival, especificamente, a projeção e o som estavam ruins, o que me deu vontade de desaparecer na cadeira. Eu e o diretor estávamos desesperados, mas aí as críticas saíram e foram ótimas. Cinema é isso: você faz sua parte, mas depois depende da projeção, da calibração da TV de quem assiste e até do barulho da pipoca na sala.
Algum elogio de alguém que você admira lhe marcou especialmente nesta fase? Sim, o Steven Spielberg entrou em contato com o diretor para elogiar o filme e fazer perguntas sobre os bastidores. Também recebi mensagens de fotógrafos que são meus heróis, como o Robbie Ryan. Ver meu nome ao lado dessas pessoas em listas de premiações é algo completamente surreal.
Como entrou no projeto de Sonhos de Trem? Foi através da minha parceria com o diretor, o Clint Bentley. Fizemos um filme menor em 2019, o Jockey. Ele me chamou após ver um documentário que eu tinha filmado com o Heitor Dhalia, pois queria misturar ficção com linguagem documental. Criamos uma conexão forte e temos gostos parecidos. Quando surgiu o convite para ele adaptar o livro de Sonhos de Trem, ele me chamou desde o início do roteiro.
Entre seus projetos futuros está o próximo filme do M. Night Shyamalan. O que pode adiantar? Filmamos no ano passado e terminamos em agosto. Não posso dizer muito e ainda nem assisti ao corte final. Estou ansioso para ver o resultado.
Qual a principal diferença entre filmar no Brasil e no sistema de Hollywood? A dinâmica muda. Nos EUA e na Inglaterra, o sistema é muito industrial e engessado por regras. No Brasil, somos treinados a ser mais criativos pela necessidade. Acho que é por isso que me chamam: eu não aceito um “não dá para fazer” de imediato; sempre busco um caminho alternativo. Eu adoraria fazer um filme no Brasil em breve, o que me atrai é sempre a história e o diretor, não importa o país.
Quais diretores brasileiros e estrangeiros estão na sua lista de desejos para colaborar? No Brasil, admiro muito o Kleber Mendonça Filho, o Karim Aïnouz, Walter Salles, a Anna Muylaert, entre outros. Lá fora, adoraria trabalhar com o Ruben Östlund, a Eliza Hittman e a Sofia Coppola.
Essas premiações já estão rendendo novos convites de trabalho? Sim, muito. O volume de roteiros que recebo agora é muito maior. Mas é preciso ter cautela para entender o que é real e o que é apenas o “frenesi” do momento. Esse meio é muito cíclico e imediato. O importante é que a visibilidade desperta a curiosidade das pessoas para assistirem ao filme e se conectarem com o meu trabalho.





