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O sangue da história

Segundo autor, o estudo de crimes passionais ajuda a iluminar o cotidiano e a vida privada de uma época,

Por Marcelo Marthe - 22 mar 2019, 07h00

O historiador Boris Fausto, de 88 anos, fala a VEJA sobre seu mergulho na crônica policial da São Paulo do início do século XX — e o que essas histórias ensinam sobre o país.

Para um historiador que se debruçou sobre eventos de grande alcance, como a Revolução de 30, escrever sobre crimes passionais não é café-pequeno? De modo algum. O interesse tem tudo a ver com minha formação. Antes de ser historiador, eu já era advogado. E o estudo do crime vai ao encontro de um movimento de valorização, na historiografia contemporânea, de novos temas capazes de iluminar o cotidiano e a vida privada de uma época. A partir de um evento microscópico como um crime, podemos compreender melhor o passado no âmbito macro.

O chamado crime da galeria de cristal revela que, no Brasil de 1909, já havia certa mobilização em defesa da mulher. É possível traçar paralelos com o feminismo de hoje? É uma coisa realmente fascinante. Há o perigo de ser meio anacrônico ao projetar no passado nossas concepções de hoje. Mas confesso que fiquei surpreso. O mote da busca por uma maior igualdade de gênero lentamente ia aparecendo. Nos cinco julgamentos que a assassina Albertina enfrentou, até ser absolvida em definitivo, não havia mulheres no júri —elas só foram aceitas nos anos 30. Mas Albertina matou seu ex-amante pelas costas com dois tiros, depois cortou sua garganta, e mesmo assim os jornais a tratavam como uma heroína, uma mulher valente que vingava sua honra.

Como essa imagem se formou? Bem, ela era uma moça direita, casada e professora. Ao mesmo tempo, porém, se comportava como uma fera. Era “a” cara, enfim.

No livro, além de Albertina, também é patente sua simpatia pelo sírio-libanês Michel Trad, autor do primeiro crime da mala, em 1908. Por que a admiração? É óbvio que minha simpatia não vem de um julgamento moral — é, na verdade, fruto de um julgamento imoral. Trad era uma figura teatral e exibicionista, capaz de escrever diários e livros de sucesso dentro da cadeia e de travar debates com um figurão como o futuro presidente Washington Luís. Há a atração adicional de ter sumido misteriosamente depois de sair da prisão. É um tipo irresistível.

A cobertura dos crimes expunha a rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro. Por que até nisso havia disputa? O Rio, além de ser a capital da República, era uma cidade muito maior. Mas, graças à chegada em massa de imigrantes europeus, São Paulo começava a ganhar maior relevância. Se os cariocas já colecionavam crimes famosos desde o fim do século XIX, os paulistas agora podiam encher o peito e dizer: “Nós também temos grandes assassinatos”. Hoje, parece ironia que os jornais do Rio publicassem charges comentando como São Paulo estava virando um lugar violento.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2019, edição nº 2627

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