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O ‘sacrilégio’ que chocou em um dos maiores desfiles de escola de samba na Sapucaí

Em 1989, a Beija-Flor de Nilópolis entrava na avenida fazendo afronta à Igreja Católica e homenageando a população marginalizada

Por Bárbara Bigas 8 fev 2026, 08h00 •
  • Em 1989, a Sapucaí recebeu um dos desfiles de escola de samba mais notórios de sua história. Com o enredo “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, criado pelo carnavalesco Joãosinho Trinta, a escola de samba Beija-Flor de Nilópolis calibrou um tema socialmente relevante com uma estética subversiva, expondo o lado nada glamouroso do Brasil da redemocratização. 

    No primeiro ano de eleições diretas após décadas sob a ditadura militar, o Brasil estava esperançoso, mas sufocado pela instabilidade econômica e por denúncias de corrupção. Em janeiro daquele ano, a inflação chegou a 70% e no ano inteiro, foi de 1 782,9%, resultando em miséria e dificuldades financeiras para boa parte da população brasileira. Preocupado com a realidade social do país, o enredo se construiu em torno do outro lado daquele novo Brasil que surgia, e colocou em protagonismo as maiores vítimas daquele período: a população de baixa renda. Para isso, o figurino se apropriou de roupas desgastadas, sujas e rasgadas para cantar: Sou na vida um mendigo
/ Da folia, eu sou rei, conforme dizia a letra do samba-enredo.

    Um cartaz gigante convocava a população de rua a integrar o desfile. “Atenção mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, profetas, esfomeados e povo de rua: tirem dos lixos deste imenso país restos de luxos… Façam suas fantasias e venham participar deste grandioso bal masqué [baile de máscaras]”, lia-se em letras garrafais pretas. As faixas acompanhavam a atração principal: uma releitura do Cristo Redentor vestido com o figurino maltrapilho, chamada de “Cristo Mendigo”. No entanto, dias antes do desfile, uma decisão da Justiça proibiu que a escola utilizasse a imagem de Jesus daquela maneira, a pedido da Arquidiocese do Rio de Janeiro, que cuidava da manutenção do Cristo Redentor. Mesmo com a proibição, o Cristo entrou na avenida coberto por uma lona preta. Ao lado, um cartaz com a frase “Mesmo proibido, olhai por nós”. O tiro da Igreja Católica saiu pela culatra e tornou a mensagem da escola ainda mais convincente, com um dos setores do desfile fazendo crítica direta à exploração da fé pelas instituições religiosas.

    Cristo tapado com lona preta no desfile da Beija-Flor de Nilópolis em 1989
    Cristo tapado com lona preta no desfile da Beija-Flor de Nilópolis em 1989 (Ricardo Leoni/Agência O Globo)

    No dia 8 de fevereiro daquele ano, a apuração foi favorável à Imperatriz de Leopoldina, dando à Beija-Flor o título de vice-campeã. A colocação foi decidida no critério de desempate, que pesou favoravelmente à Imperatriz após a escola receber nota máxima de todos os jurados, enquanto a Beija-Flor recebeu três notas abaixo de 10. Ainda assim, o desfile de que todos se lembram até hoje é mesmo aquele ousado tapa na cara da nação criado por Joãosinho Trinta. Um “sacrilégio” que entrou para a história da Sapucaí.

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