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O brasileiro que impulsionou renascimento do papel de parede de luxo

Coube a Marcelo Gimenes, ao lado de seu marido holandês, a missão de resgatar a excelência do ofício

Por Malu Neves, de Amsterdã Atualizado em 29 nov 2021, 16h22 - Publicado em 24 out 2021, 08h00

Embora o título não seja unânime entre os historiadores, a Holanda se orgulha de uma contribuição peculiar para a humanidade: a invenção do papel de parede. Para entender a origem do fascinante item de decoração é necessário voltar à Idade Média, quando artistas e artesãos holandeses ampliaram as possibilidades do velho hábito herdado dos árabes de forrar cômodos com tapeçaria. O costume de pendurar — do holandês hangen, do qual derivou o termo behang, isto é, papel de parede — se tornaria oportuno não só para isolar os interiores do frio. Passou a refletir um código social: tanto quanto retratar a moda da época, o grau de elaboração dos desenhos espelhava o poder aquisitivo dos moradores. Com o passar dos séculos, o adorno caiu na vala comum dos produtos feitos em escala industrial. Depois do apogeu, esse ofício foi substituído pelos papéis em rolo, que hoje movimentam uma indústria enorme: avaliado em 2,9 bilhões de dólares (15,8 bilhões de reais), o mercado global de papel de parede impresso tem crescimento anual previsto de 21% até 2025.

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Agora, eis que a mesma Holanda que foi seu berço lidera uma onda de revalorização do produto. Detalhe inesperado: coube a um brasileiro devolver ao frugal elemento decorativo seu status perdido de obra de arte. Foi à custa de um infarto que Marcelo Gimenes, paulista de Piracicaba que vive há mais de trinta anos na Europa, se tornou protagonista do renascimento da tradição decorativa. Em 2003, aos 35 anos (hoje tem 54), ele se viu entre a vida e a morte. Formado em arte, mas espremido no estressante cargo de executivo de multinacional, ele então voltou a desenhar e, instigado pela união entre arquitetura e decoração, começou a produzir papéis de parede artesanais como alternativa aos itens comuns do mercado. Atuando em dupla com seu companheiro, o holandês e designer gráfico Jaap Snijder, Gimenes imbuiu-se da missão de resgatar a excelência desse ofício. Seu ímpeto o levou até arquivos históricos que lhe revelaram um costume da segunda metade do século XVII: a arte de pintar paisagens, bichos, plantas e cenas cotidianas em desenhos contínuos que cobrem toda a parede, alterando a perspectiva e a relação do espaço.

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Os dois se orgulham de ter o único ateliê do mundo que resgata esse legado holandês de valor inestimável, apresentado por eles até no Salon du Louvre, em Paris. Assim como na alta-costura, esse é também um trabalho meticuloso — por isso mesmo, mais caro. São 1 200 euros por metro quadrado (sim, 7 800 reais), em criações que levam cinco meses para ser finalizadas in loco. “Nosso design é criado do zero, dentro de um contexto histórico que manipula arquitetura e movimento do cômodo”, teoriza Gimenes. É justamente esse preciosismo que distingue a motivação de quem procura artesãos como eles. “Todo mundo pode ter um carro ou uma bolsa extravagante, mas eles serão iguais. A quintessência do luxo é alguém manufaturar algo somente para você”, completa. Para criar seus truques estupefacientes de perspectiva e ilusão de óptica, a dupla segue as técnicas descritas no Het Groot Schilderboek (O Grande Livro de Pintura), a “bíblia de regras” dos artistas dos Países Baixos, escrita em 1700 pelo pintor Gerard de Lairesse.

VAI ENCARAR? - Cores no quarto: 7 800 reais por metro quadrado e espera de um ano -
VAI ENCARAR? - Cores no quarto: 7 800 reais por metro quadrado e espera de um ano – Snijder&CO/.
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O toque brasileiro não se resume ao fato de um piracicabano estar à frente da guinada monumental dos papéis de parede: a dupla preenche suntuosos quartos, salas de estar e afins com cenas da natureza emprestadas diretamente da nossa legítima Mata Atlântica. São flores exóticas e pássaros exuberantes que provocam uma explosão tropicaliente de cores e formas. De olho no valor estético desse patrimônio, o museu holandês Westfries, da cidade de Hoorn, comissionou o trabalho da dupla para uma exposição em cartaz até 23 de janeiro. E mais: dias atrás os dois foram atração de um concorrido workshop no Rijksmuseum, o mais célebre de Amsterdã. “Esperamos que o valor cultural desse trabalho seja preservado para as gerações futuras”, afirma Snijder. Aos interessados que topam gastar os tubos com essas maravilhas: a espera para forrar aquela parede meio sem graça da sala é de um ano.

Por causa do confinamento, com as pessoas trancadas em casa (inclusive os ricaços), a procura por inspirações diferenciadas registrou recorde nas pesquisas do Google e do Pinterest em 2020. Não à toa, grifes lançaram coleções que não são uma pechincha — dois painéis da Gucci medindo 3,5 metros de comprimento cada um custam 410 euros (2 600 reais). A Hermès também criou sua linha do produto. Mas nada se compara — em beleza, exclusividade e preço — aos feitos sob medida pela Snijder&Co, fundada em 2010 pelo casal Gimenes e Snijder.

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2021, edição nº 2761

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