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‘Não temos inimigos’, diz o marchand Jean Boghici

Colecionador de obras de arte que perdeu parte do acervo em incêndio descarta a hipótese de que o fogo tenha sido criminoso e diz que obras perdidas serão restauradas

Por Pollyane Lima e Silva, do Rio de Janeiro 16 ago 2012, 17h29

“Com o que sobrou, dá para fazer uma bela exposição e é uma vingança que vou fazer com o destino.”

O marchand Jean Boghici, que perdeu parte de seu acervo em um incêndio na noite da última segunda-feira, prestou depoimento na tarde desta quinta na 12ª DP (Copacabana), delegacia que investiga o caso. Na saída, o romeno de 84 anos que mora há mais de 60 no Rio de Janeiro fez questão de descartar a hipótese de que o incêndio tenha sido criminoso. “Nós não temos inimigos”, afirmou.

A suspeita também foi afastada, em um primeiro momento, pelo delegado Márcio Mendonça, que, no entanto, não arrisca nenhuma tese até que o laudo da perícia esteja concluído – o que deve ocorrer em 15 dias. “Trabalhamos com a possibilidade de que tenha sido uma fatalidade, um curto-circuito. Descartamos que tenha sido criminoso, a não ser que o laudo indique que o incêndio tenha sido provocado por terceiros.”

A mulher de Boghici, Geneviève, o acompanhou no depoimento desta tarde. Ela, que estava em casa quando o fogo começou, diz que o curto-circuito começou no ar condicionado que fica no quarto da filha do casal. “E ele nem estava ligado”, conta ela. Os dois seguiriam, da delegacia, para encontrar um restaurador, que deve recuperar as obras perdidas. Entre um compromisso e outro, o marchand conversou com o site de VEJA:

O senhor tem a lista de todas as obras que se perderam? Tenho, mas não posso revelar. O que posso dizer é que algumas obras queimaram, outras ficaram pouco queimadas e outras estão muito machucadas, chamuscadas.

Qual a sensação de voltar ao apartamento depois do incêndio? Hiroshima (cidade japonesa destruída por bomba atômica em 1945). Mas eu sou gato escaldado. Em 1970, no Museu de Arte Moderna foi também uma Hiroshima (Boghici também perdeu algumas obras em 1978, com o incêndio no MAM).

O senhor acha que o fogo começou mesmo com um curto-circuito no ar-condicionado? Sim. Nós não temos inimigos para dizer que foi criminoso. Aqui não é Líbia nem Síria (países do mundo árabe que sofrem com ataques terroristas).

Havia obras também nesse quarto da sua filha, onde o fogo teria começado? Poucas. Ali havia mais bonecas.

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Muitas coisas de valor sentimental foram perdidas? O pior foi um gato, que minha filha gostava muito, e que não conseguimos salvar. E outro gato que dormia do meu lado também morreu. Preferiria que eles não tivessem morrido e outros quadros tivessem queimado. Mas conseguimos salvar doze gatos. Foi uma fatalidade.

Muitas obras puderam ser preservadas? Com o que sobrou, dá para fazer uma bela exposição e é uma vingança que vou fazer com o destino.

O senhor pensa em restaurar as obras que se perderam? Estamos correndo agora para o restaurador para ver isso.

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