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Martinho da Vila, sobre Fundação Palmares: “Me desvinculem daquilo”

O sambista fluminense se diz aliviado com a exclusão de seu nome do site da organização pelo governo Bolsonaro e lamenta o adiamento do Carnaval de 2021

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 3 dez 2020, 13h43 - Publicado em 4 dez 2020, 06h00
DEVAGARINHO - Martinho: ele gastou a quarentena escrevendo contos sensuais -
DEVAGARINHO - Martinho: ele gastou a quarentena escrevendo contos sensuais – Leo Aversa/.

A Fundação Palmares apagou de seu site oficial a biografia de artistas negros como o senhor, Gilberto Gil e Elza Soares. Como vê essa iniciativa? Achei ótimo. Me desvinculem daquele sujeito (o presidente da entidade, Sérgio Camargo). Me desvinculem daquela organização, porque eu não gosto mais dela. Ela não tem mais função. Brevemente, uma nova vai surgir. Temos de esquecer essa gente. Nossa bandeira brasileira também foi estragada, pois virou símbolo do governo atual. Temos de retomar nossa bandeira como símbolo de todos os brasileiros.

A pandemia adiou o Carnaval de 2021 no Rio, justamente no ano em que o senhor será homenageado pela Vila Isabel. Ficou chateado? Eu não gostei nada. Foi chato. Mas, pelo menos, o Carnaval vai ser lembrado para sempre, já que vai acontecer em outro mês. Esse negócio de homenagem me deixa sem graça. Fico sem saber o que falar.

Assim como o samba, o funk também veio do morro e alega sofrer preconceito. Como acabar com isso? Segundo Nelson Mandela, o preconceito é algo curável, mas de difícil solução. Hoje, o funk sofre mais do que o samba. Ele está enfrentando o que o samba passou lá no começo. Vão surgir “funkistas” com letras admiráveis, privilegiando a poesia. Música é arte. E isso vai acontecer com o funk.

Em seu novo álbum, Rio: Só Vendo a Vista, o senhor homenageia o Rio. Como convencer um turista a visitar a cidade com tantas notícias sobre violência? Está difícil. Há bastante gente que não vem ao Rio por medo. O medo é o pior inimigo. Eu diria para o pessoal não ter medo. Venham. Eu estou aqui, no morro. A violência não é carioca, é nacional.

No disco, o senhor canta com sete dos oito filhos. Por que só um ficou de fora? Gosto de cantar com todos, mas o Tunico mora no Espírito Santo e não conseguiu vir a tempo por causa da pandemia. De toda forma, cantar com a Mart’nália me faz muito bem.

Sua rotina na pandemia está “devagar, devagarinho”? Não fui contaminado. Estou preso em casa há quase um ano. Aprendi a gastar meu tempo, e planejo tudo devagarinho mesmo. Vou para o computador jogar Paciência. Comecei a escrever e já terminei um livro de crônicas, porque sou fã do Machado de Assis. O livro tem umas 240 páginas e deve se chamar Contos Sensuais e Algo Mais. Mas não tem nada a ver com a minha vida. É tudo ficção.

Publicado em VEJA de 9 de dezembro de 2020, edição nº 2716

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