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Legado da Semana de 22 corre risco sob Bolsonaro, diz brasilianista

Em entrevista a VEJA às vésperas do centenário do evento, americano Charles A. Perrone diz que modernismo nacional foi o mais articulado das Américas

Por Diego Braga Norte Atualizado em 17 jan 2022, 17h41 - Publicado em 14 jan 2022, 13h31

“O caso brasileiro é o mais articulado, organizado, consciente de si, de todos os movimentos modernistas deste lado do Atlântico”. A frase é de Charles A. Perrone, professor titular de português, literatura e cultura brasileira na Universidade da Flórida. O brasilianista Perrone é autor de diversos ensaios e livros sobre literatura e música nacionais. Estudioso do modernismo, ele acredita que seu espírito multicultural continua atual no momento em que a Semana de 22, marco do movimento, se aproxima de seu centenário, a ser comemorado em fevereiro próximo. Mas adverte que parte de seu legado corre risco sob o governo do presidente Jair Bolsonaro. Aos 70 anos, o professor acompanha a cultura brasileira há mais de cinco décadas, fez dezenas de viagens para o Brasil e já morou aqui em mais de uma oportunidade, para pesquisar e lecionar. A seguir, trechos da conversa de Perrone a VEJA:

Se estamos falando da Semana de Arte Moderna 100 anos depois de seu acontecimento, é porque ela teve relevância. Dá para medir o impacto da Semana e do modernismo brasileiro no exterior? No público geral, o impacto foi muito pequeno ou nulo. Mas, no meio acadêmico, dá para medir baseando-se em números bibliográficos, sobretudo depois da avalanche iniciada nos anos 1970, sendo 1972 o grande ano inicial. Depois deste ano, tivemos muitas e importantes publicações em revistas acadêmicas (resenhas ou estudos críticos); livros em editoras universitárias; reportagens em veículos como The New York Times e The New Yorker, escritas por professores universitários.

Em sua opinião, quais as características mais importantes do modernismo brasileiro? O caso brasileiro é o mais articulado, organizado, consciente de si, de todos os movimentos ou momentos modernistas deste lado do Atlântico. A promoção da língua nacional é o principal, e com ela vem o verso livre “brasílico”, mas tem também a incorporação do folclore, o uso crítico dos modelos europeus.

Há alguma obra em especial que o senhor gostaria de mencionar? São tantas coisas ótimas, mas há algumas manifestações singulares: a rapsódia Macunaíma [Mário de Andrade, 1928], embora a tradução em inglês seja tão ruim, todo o projeto de Oswald de Andrade e os sons de Heitor Villa-Lobos.

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A língua portuguesa não é tão internacionalizada quanto o inglês ou o espanhol. Por esse e outros motivos, com algumas exceções, nossa literatura não é tão conhecida no exterior. Como os americanos veem nossa literatura, sobretudo a do período modernista? Começaram a tentar criar um mercado para as letras brasileiras modernas nos anos 1940; sobretudo a editora Knopf, mas os esforços tiveram pouco efeito. Nos anos 60, o ‘boom’ foi Jorge Amado, que é da segunda onda modernista, dos anos 1930. A poesia começou a ser reconhecida a partir de uma antologia organizada pela poeta Elizabeth Bishop, em 1972. Por causa dela houve alguma atenção, não só no meios acadêmicos. Dos anos 1990 para cá, e agora com essa moda de estudos pós-coloniais e ênfase na diversidade, os manifestos de Oswald de Andrade viraram algo excepcional, são atualíssimos. Há várias traduções e citações fora do limitado domínio luso-brasileiro. Aí é um caso excepcional mesmo.

O modernismo brasileiro influenciou outros movimentos culturais, como a Bossa Nova e o Tropicalismo. Como o senhor avalia a influência e a importância do modernismo para a cultura brasileira? O modernismo é ainda a principal referência em se tratando da evolução das artes do Brasil. A ligação com a Bossa Nova vem, acima de tudo, via a figura de Vinicius de Moraes, que soube pegar um pouco das ideias musicais de Villa-Lobos e as transpôs para criar um som popular e sofisticado ao mesmo tempo.  O modernismo se manifestou bastante na geração MPB. A adoção da agenda oswaldiana por parte de Caetano, Gil e letristas tropicalistas tem sido mapeada e estudada desde o final de década de 1960. Muitos poetas modernistas aparecem em canções dos anos 1970 e 1980. Drummond citado em uma música do Clube da Esquina é um caso divertido e emblemático. Escrevi uma tese de doutorado sobre a poesia da canção brasileira, e um dos temas recorrentes foi este mesmo: elementos modernistas nas composições brasileiras.

O modernismo brasileiro, em grande medida, foi o movimento que tentou afirmar a cultura e a identidade nacionais. O senhor vê o modernismo como um indutor do soft power brasileiro? Essa afirmação da cultura e da identidade constitui o coração do movimento. Hoje em dia, com o avanço do multiculturalismo, o modernismo se beneficia na medida em que enfoca as culturas nativas, os afrodescendentes, outros grupos étnicos e suas formas de falar, cantar, pensar. Há muita coisa estilizada por homens brancos privilegiados, sim, mas o essencial é próprio fato de trabalharem material variado tupiniquim.

É possível falar em modernismo ou sentir seus efeitos no Brasil de hoje? Sim, mas com o Bolsonaro, o modernismo sofre. Eu acredito que, se ele pudesse, tiraria todos os quadros modernistas das embaixadas brasileiras pelo mundo afora e cancelaria todos os livros, não só Paulo Freire.

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