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Emergência Radioativa: o que aconteceu com a família real retratada na série?

Principais atingidos pela tragédia tiveram a trajetória ficcionalizada pelo programa da Netflix

Por Raquel Carneiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 mar 2026, 16h01 • Atualizado em 23 mar 2026, 17h18
  • Aos 74 anos, Lourdes das Neves Ferreira enfrentou a tristeza e assistiu aos cinco episódios da minissérie Emergência Radioativa, lançada pela Netflix na quinta-feira, 18. A trama que retrata o acidente com o Césio-137, em Goiânia (GO), em 1987, ficcionaliza o nome e parte da trajetória das pessoas que mais tiveram contato com o material radioativo, entre elas uma família inteira da qual Lourdes é parte. Na trama, ela ganhou o nome de Catarina e foi representada pela atriz Marina Merlino, mãe de Celeste — personagem inspirada em Leide, menina de 6 anos que morreu contaminada pela substância e se tornou símbolo da tragédia. “Qualquer coisa sobre o acidente me deixa triste, não tem como não ficar. Mas é importante que relembrem tudo aquilo, para não acontecer de novo”, disse Lourdes em entrevista a VEJA. 

    O real e a ficção na história de Catarina/Lourdes

    Segundo Lourdes, uma das razões que a fez assistir à minissérie foi poder ver, ao menos de forma ficcionalizada, como o marido e os filhos foram tratados, já que ficaram separados dela. Assim como mostra a série, Lourdes teve pouco contato com o pó do Césio-137 e não estava contaminada. Porém, ao contrário da trama de Catarina, Lourdes não foi liberada para o convívio social. “Eu fiquei o tempo todo isolada. Foram três dias no estádio, depois nos levaram para o prédio da Febem, onde éramos acompanhados por médicos. Fiquei três meses lá”, conta. Lourdes diz ainda que ficou boa parte do tempo dopada por remédios. “Acho que me davam remédio porque sabiam que as notícias que iam chegar seriam ruins.” 

    Lourdes das Neves Ferreira e a filha Leide no retrato: vítimas do acidente radioativo em Goiânia -
    Lourdes das Neves Ferreira e a filha Leide no retrato: vítimas do acidente radioativo em Goiânia – (Acervo Pessoal/VEJA)

    O que aconteceu com o marido e os filhos de Catarina/Lourdes?

    Leide das Neves Ferreira, representada na série por Celeste (Mariana da Silva), morreu no dia 23 de outubro de 1987 no Hospital Naval do Rio de Janeiro. Como mostra Emergência Radioativa, o pai dela, Ivo, chamado na série de João (Alan Rocha), também estava no Rio, enquanto o filho adolescente do casal, Lucimar, papel de Enzo Ignácio, era tratado em Goiânia. Lourdes conta que, apesar de ambos se recuperarem, sofreram por muitos anos de depressão. “Meu marido voltou a fumar, fumava de duas a três caixas de cigarro por dia. Ele faleceu de enfisema pulmonar em 2003.” Lucimar, hoje aos 52, ainda faz acompanhamento médico, tem problema nos dois pulmões e, em 2001, sofreu três paradas cardíacas. “Quase perdi ele também, a gente cuida o tempo todo.”

    Emergência Radioativa
    Emergência Radioativa: Bukassa como Evenildo e Ana Costa interpreta Antônia – (Helena Yoshioka//Netflix)
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    A história de Antônia e Evenildo – Maria Gabriela e Devair

    Interpretados por Bukassa e Ana Costa, os personagens foram inspirados em Devair e Maria Gabriela Ferreira, dono do ferro-velho que recebeu o equipamento radioativo e sua esposa. Maria Gabriela morreu na manhã do dia 23, horas antes de Leide. Já Devair, que era irmão de Ivo, também desenvolveu um quadro grave de depressão e alcoolismo, morrendo em 1994 de cirrose hepática. 

    Quantas pessoas de fato morreram no acidente com Césio-137? 

    O número oficial soma quatro óbitos – além de Maria Gabriela e Leide, morreram os dois funcionários do ferro-velho, Israel Batista dos Santos, aos 20 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18. A Associação das Vítimas do Césio-137, estima que o número de mortes relacionados ao acidente nos anos seguintes passe de 60, causados especialmente por problemas pulmonares e câncer, além de amputações.

    Emergência Radioativa
    Vini Ranieri e Ariclenes Barroso em ‘Emergência Radioativa’: na vida real, jovem que encontrou o material já passou por três amputações de membros (Helena Yoshioka//Netflix)
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     Indenizações e pensões vitalícias 

    As famílias que perderam suas casas, como Lourdes e Ivo, ganharam um novo imóvel do governo do estado. Uma pensão vitalícia é dada mensalmente aos afetados – no total, 1530 pessoas recebem o valor hoje em dia, que acaba de passar de 954 reais para um salário mínimo. Uma frustração das vítimas do acidente com a série da Netflix é que nenhum deles foi contactado para narrar suas experiências pessoais. Mesmo assim, o presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Marcelo Santos Neves, 60 anos, vê a repercussão como positiva. “Estávamos lutado por um reajuste da nossa pensão e de mais acesso a remédios de alto custo”, conta ele, que foi contaminado quando trabalhou como cozinheiro para os contaminados no estádio de futebol. Quando pensa em tudo o que passou e como se mantém firme, dona Lourdes ressalta: “eu olho para a foto da Leide, o sorrisão dela me deixa feliz”, conta. 

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