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Elvis Costello e a onda revisionista de músicas do passado

Cantor tirou canção de seu repertório após acusação de racismo, seguindo movimento que vai dos The Rolling Stones a artistas country

Por Raquel Carneiro 13 jan 2022, 13h42

Quando Elvis Costello escreveu a canção Oliver’s Army, de 1979, ele usou como referência uma situação vivida por seu avô, que era chamado de white nigger entre os militares do Exército britânico, por ser um irlandês católico. O termo pejorativo é um xingamento voltado para pessoas brancas ou mestiças, tidas como inferiores, sendo diretamente comparadas aos negros. O que era para ser uma canção contra o preconceito, porém, ganhou outro significado hoje em dia: o uso da palavra nigger, termo racista inadmissível na língua inglesa, se tornou vergonhoso e proibitivo para um cantor branco.

Costello afirmou que não vai mais cantar a faixa em seus shows e chegou a pedir para que as rádios não a toquem mais. A movimentação do cantor de 67 anos segue o caminho de outros artistas que optaram pela autocensura após leituras revisionistas de músicas antigas. Essa onda provoca desde aplausos até críticas ferozes — ânimos contraditórios que, para o bem e para o mal, fazem com que o revisionismo chegue às letras de fato questionáveis, mas também atinja outras num afã exagerado de atender à correção política.

No ano passado, os Rolling Stones tiraram de seu repertório Brown Sugar, sucesso de 1971, por causa da letra que fala sobre escravidão e faz uma alusão ao estupro em um trocadilho com vício em heroína. Apontada como racista, a faixa, no fundo, seria uma crítica à escravidão, disse o guitarrista Keith Richards, o único da banda contrário à exclusão da faixa nos shows.

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The Rolling Stones: música retirada de repertório por tema escravagista ./Divulgação

Em uma reação descomedida, a banda de rock Paramore deixou de fora de seus shows a canção Misery Business, do disco Riot!, de 2007. Segundo explicação da vocalista Hayley Williams, a faixa – acusada de anti-feminismo por chamar uma outra garota de p*** – foi escrita por ela aos 17 anos e expressava os sentimentos que tinha na época. Porém, em prol da “evolução” do grupo, a canção acabou trancada na gaveta.

Dois casos recentes vão além das composições. Os grupos de música country The Dixie Chicks e Lady Antebellum mudaram os nomes das bandas para The Chicks e Lady A., respectivamente. No primeiro caso, o trio feminino limou, em 2020, a palavra Dixie, termo associado aos confederados – que na Guerra Civil Americana defendiam a escravidão no Sul dos Estados Unidos. Antebellum também é um termo da região, mas mais antigo, relacionado ao racismo e aos terrores da escravidão.

Apresentação do Paramore no Circuito Banco do Brasil
Paramore: música acusada de anti-feminismo Ricardo Matsukawa/VEJA

Na contramão, o veterano Elton John se recusa a pedir desculpas por Island Girl, sobre uma prostituta negra e jamaicana nas ruas da Inglaterra, canção embalada por um alegre ritmo de reggae. “A canção é assim, e ponto”, disse certa vez o músico sobre a faixa lançada em 1975.

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